sábado, abril 29, 2006




Alentejo em flor

Os campos estão verdes, verdes, com matizes de amarelos e roxos, a perderem de vista. Percorro estradas desertas. À beira da barragem do Divor, num caminho ladeado de flores e silêncio.
Bendito 1º de Maio e a ponte que permite.
Louvado seja a alma deste Alentejo.

Portugal apetece quando o tempo pára, o Sol desponta e a natureza reina.
Isto talvez prove que não é Portugal que é mau. O que é mesmo de evitar são os portugueses.

Vasco Pulido Valente na sua crónica de hoje no Público remete para esta malvada ideia: não temos emenda e já o Eça tinha razão.

Talvez por isso vá ver hoje “O Crime do Padre Amaro” com a incontornável Soraya Chaves. .Na SIC, quando as crianças já sonham com o Noddy

Nada de sexo, só puro prazer literário.

Banqueiros, carentes e pirilampo mágico

O vício de ler jornais não me larga. Para já não falar dos meus “zapping” permanentes na net. Entre a madrugada e esta hora de sesta já lá vão alguns quilos de papel a passarem pelos olhos.
Feito um mixing na minha cabeça, algumas notícias e alguma opinião avulsa me marcou.

Cavaco ainda é citado e comentado pelo seu discurso no 25. Para os embirrentos do Expresso, a manchete do meu jornal foi ao lado. Não é verdade. Cavaco referiu, embora timidamente, o comportamento irresponsável dos deputados e políticos.
Cavaco gosta de contrariar e criar tabus. Não se percebe se é por génio se por timidez. No mínimo há uma incoerência gritante no seu comportamento: andou a cantarolar a Grândola Vila Morena quando angariava votos, agora recusa o cravo na lapela. Eu até acho bem que a gente se deixe desse tipo de palhaçada mas então não usemos os ícones do “reviralho” quando está em causa um punhado de votos.

Mas o que mais me irrita no discurso de PR é que vindo de um homem sábio em macro economia, e que insistia quando estava a tomar balanço para ser candidato à presidência, que era apenas um professor de economia, sem pretensões políticas ( se isto não é cinismo, não sei o que será) venha agora como figura cimeira da nação dizer banalidades.

Já sabemos que sem crescimento económico não há repartição de riqueza.
Isso até eu sei. Quer um pacto para ajudar os carenciados ? O quê ? Quer sessões de chá caritativas ?

Pelo menos a primeira dama já deu sinais de ajuda nesta política: vai patrocinar o Pirilampo Mágico.

Se virem o carro da presidência com um pendericalho no retrovisor não estranhem: é o pirilampo mágico.

Esperamos que a seguir venham os reposteiros nas janelas do palácio



Entretanto o Wall Street Journal veio esta semana dizer que a administração do BCP ganha fortunas descomunais à custa dos lucros dos accionistas. Claro que a administração do BCP considerou a noticia despropositada. Pudera !

A verdade é que os rendimentos dos administradores podem ir até aos 10 por cento, e caso a OPA sobre o BPI se concretize arrecadarão mais um verdadeiro balúrdio.

Os lucros acumulados da banca só no primeiro trimestre deste ano já vão ao rublo. Num país endividado, saqueado pelos impostos, encarecido pelo monopólio de empresas como a PT e a BRISA ou a GALP estes lucros descomunais não podem deixar de escandalizar. Podemos dizer: “É a economia estúpido!”: quando a banca dá lucro é porque a economia não está saudável.

Esta semana os combustíveis voltaram a subir. Uma vez é a Galp, outra vez é o governo que ainda quer mais imposto. Um delírio.
A ideia lançada na Internet de fazermos greve ao consumo de gasolina é uma boa ideia.

A notícia de que a BRISA perdeu utentes e teve menos lucro é sempre consoladora. Mas não impede que o seu lucro anual ultrapasse os 250 milhões de euros.

Gostava de saber o que pensa o professor Cavaco disto e já agora o engenheiro Sócrates também nos podia explicar se estas empresas com estes lucros não deveriam contribuir mais, muito mais, para a segurança social.

Não nos esqueçamos que o BCP despede funcionários à medida que engorda e que quanto mais gente despede, mais ganha, e menos contribui para a segurança social.

Esta política pode não ser muito católica mas a verdade é que a realidade nem sempre tem de seguir os dogmas da fé.



Ministra recua com João Bénard da Costa


Afinal Isabel Pires de Lima veio dizer que a partir de 1 de Julho reconduzirá João Bénard da Costa na direcção da Cinemateca.

Valeu a pena o coro de protestos.

A opinião pública é a democracia e a Internet uma das suas artérias principais.

sexta-feira, abril 28, 2006

O Fim do estado de graça a pagar

Habituei-me nos últimos meses a escrever por esta hora a minha crónica semanal para o Expresso online.
Oito meses depois, estou aqui frente ao MAC a escrever para este blog.
A net transforma-se no confessionário.
Vamos a isto.


Sócrates chegou ao fim do estado de graça.

O relatório da OCDE sobre o ano de 2005 português e o malfadado relatório do Banco de Portugal, voltaram a atirar Portugal para as calendas.

A crise não se vai, o crescimento não vem, o país não descola nem com uma Ota à vista.
Os portugueses, a classe média, não podem ser mais massacrados.

Hoje na AR o Primeiro voltou com novas medidas para a segurança social, sustentação e tal, e quem vai pagar ? Os mesmos de sempre. Quem trabalhou e trabalha quem descontou e aguenta firme até ao limite.

E esperem para ver o que vai acontecer ao fundo de pensões dos CTT, aos despedimentos na PT, à crise salarial na Caixa Geral de Depósitos, esse mausoléu de gestores com ordenados faraónicos.

No meio desta bagunçada apetece ser de esquerda, daquela ferrujenta, de punho erguido para a canção ter sentido !!...

As taxas de juro voltarão a subir ( notícia de hoje), os combustíveis atingem os preços mais absurdos e as taxas indirectas como as portagens da Brisa tornaram-se num super imposto.

Querem que haja investimento com o Estado a facturar desta maneira ?

A verdade, e eu insisto, é que os portugueses trabalham para o Estado. Um monstro como diria o Presidente Cavaco, cada vez mais esfaimado em triturar tudo e todos, com música de fundo políticamente correcta: é a crise, não há alternativa.


E como vamos poder pagar o custo social e financeiro de um saneamento na função pública ?
Com mais impostos ? é que, se custa manter esta máquina pesada e obsoleta, também custa pagar a sua extinção.

Portugal está casado com uma mulher cara, desinteressante, obesa, mas que em caso de divórcio ainda vai custar mais em indemnização e pensão de alimentos.

Não é fácil meus caros.

Daí Cavaco ter dito há uns anos, deixando caír uma terrível gaffe, mas de que também já ninguém se lembra, que a única solução para sanear a função pública era esperar que os funcionários fossem morrendo. Uma medida higiénica, simples e talvez patrocinada por Deus ! Mas de uma crueldade chocante.

Sócrates que é da esquerda sacrista-tecnológica não estará de acordo, mas que está numa encruzilhada ninguém já duvida:
ou se arma em Tatcher da esquerda e malha a doer ou adopta o seu lado guterrista e adia, adia até ao soluço final.

Entretanto no meio desta desgraça luso- financeira, alguma coisa funciona, dá lucro, e é pioneira: a nossa banca. Ganha que se farta e põe a banca europeia nas boxes.

Numa verdadeira chuva de milhões os bancos engordam, "opam-se" uns aos outros como glutões e ainda se dão ao luxo de despedir pessoal.

Uma perrogativa que só os endinheirados podem ter.

Com o país de tanga ( Durão é que sabia!) e a banca a bombar, o fim do estado de graça acabou para Sócrates.

Uma graça cara.

quarta-feira, abril 26, 2006

El Pais lança 24 horas gratuito em pdf

O lançamento do 24 horas o primeiro jornal online, actualizado hora a hora e que pode ser descarregado e impresso a partir de um pdf por qualquer internauta gratuitamente é mais um grande projecto do diário espanhol EL PAIS.
A inovação que a imprensa espanhola tem mostrado com projectos como o do EL PAIS E DO ELMUNDO fazem toda a diferença. Estes dois jornais de referência passaram a encarar as edições online de há 4 anos para cá como investimentos fortes, sem preconceitos nem receios de perderem o público tradicional do papel. A filosofia inerente a estes projectos é de que é preciso conquistar um público novo, mais jovem, que navega na net e que pode ser uma nova audiência com risco de alguma perda no comprador do papel.
Aqui o risco é assumido ao mesmo tempo que se reinventa a linguagem e a forma de comunicar na net, com uma base de partida com negócio à vista. Esta edição 24 Horas é por exemplo paga com publicidade da Ibéria. ( ver link)

Amanhã voltarei a este tema dos jornais online espanhóis.

terça-feira, abril 25, 2006

Cavaco sem cravo nem memória

Aí está Cavaco em plena presidência. Visitou primeiro uma ala do Hospital D. Estefânia, por sinal a mais melhorada, e foi à Bósnia vestido com um blusão militar como que a dizer que era o chefe da banda. Tudo bem.

Hoje apareceu na Assembleia sem cravo mas com uma compensação: falando ao coração dos pobrezinhos, criticando a classe média e prometendo o céu. O populismo de rosto caritativo tão ao gosto de uma grossa fatia do seu eleitorado: aqueles que preferem sempre a àrvore à floresta, a esmola à sociedade justa, o credo à prática social.

Quem não tivesse memória teria achado hoje que aquele homem que ali estava cheio de santas intenções nunca tinha governado Portugal. Mais: foi primeiro ministro com maioria absoluta num tempo charneira em que Portugal se devia ter preparado para o futuro ( para hoje) usando a criatividade política, o bom senso económico, as vistas largas que fazem dos verdadeiros políticos visionários.

Ora Cavaco governou no seu tempo à vista da costa, gastando os milhões que a Europa nos deu, fez umas obras emblemáticas de alcatrão e cimento mas a educação, a reforma do Estado, essa ficaram adiadas.
Sabemos como um dos problemas insolúveis que é o custo da função pública cresceu e consolidou-se com o cavaquismo.

É fácil usar palavras, palavras, e falinhas mansas. Mesmo a credibilidade dos políticos e da Assembleia começou a ser posta em causa no período cavaquista, quando a famosa lei das incompatibilidades reduziu o plenário de deputados a uma maioria medíocre, sem peso político, nem curriculum.

É bom não matar a memória, até porque hoje é 25 de Abril, o dia para não mais esquecer.

segunda-feira, abril 24, 2006

32 anos depois do 25





Custa-me a acreditar que o 25 de Abril tenha sido há 32 anos.

Eu era um puto que se tinha iniciado na fotografia e no cinema, a terminar o 7º ano do liceu Padre António Vieira, já a frequentar o curso de pintura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, quase a entrar em arquitectura e prestes a fazer admissão ao curso de cinema do Conservatório. Muita coisa para um ano só !...

Soube que havia um movimento de tropas, pela manhã, num transistor portátil AIWA que o meu pai me tinha dado uns anos antes e que eu estimava como os adolescentes de hoje estimam os seus IPOD.
No café Biarritz, no Largo Frei Heitor Pinto em Alvalade, juntaram-se ao fim da manhã alguns amigos meus universitários, todos da esquerda, do MES ao MRPP passando pelo PCP. Eles que estavam sempre bem informados não percebiam patavina do que poderia estar a acontecer.

Entrámos num FORD ESCORT de um deles que furou na Avenida de Roma.
Voltei a pé para casa, no Pote de Àgua e só muito depois peguei na minha NIKON F, comprada com o meu primeiro dinheiro ganho a fazer uns desenhos de arquitectura, e fui fotografar para a rua. estava muito nervoso e envergonhado.
Tinha 19 anos e nunca tinha fotografado multidões em extãse. Ainda por cima não tinha grande angular e tinha dificuldade em apanhar tudo o que se passava à minha frente.


Passou tudo muito depressa.

domingo, abril 23, 2006

Impostos ao taxímetro

Sócrates insiste em dizer que não aumenta os impostos, mas todos os dias temos a prova provada que a caça ao bolso do cidadão se tornou numa prática permanente.

Ontem foi a notícia de que o governo pôs um taxímetro em cada computador das finanças para controlar o nível de colecta ao minuto.

O choque tecnológico de Sócrates está a funcionar.
Quando se trata de sacar o governo cumpre ! Mas a constatação de que 60 por cento do que pagamos sobre os combustíveis vão para os cofres dos impostos é outra realidade dura.

Isto é: o governo podia abdicar de cobrar os 60 por cento. Aliás, quando o preço dos combustíveis era controlado pelo governo ( a liberalização foi feita por Durão) era possível minimizar o aumento do preço do petróleo na economia porque o governo utilizava moderação e equilíbrio de forma a não engordar demasiado a receita do Estado beneficiando a economia. E era no tempo de Guterres e anteriores.

Como Sócrates está só a pensar no déficit, (e vê-se que bem pois já vai nos 6 por cento !) o que lhe interessa é a recolha dos euros mesmo que a economia arrefeça e o cidadão da classe média tenha de tirar à família para dar ao Estado gastador.

sexta-feira, abril 21, 2006

Francisco Adam, uma estrela no céu

A morte surpreende sempre pelas razões mais fortes e óbvias. Mas quando à triste e cruel sentença da mais inevitável certeza de todos nós, se junta a injustiça de uma vida em flor, ceifada num corte brusco e definitivo, então percebemos como somos frágeis e impotentes perante o destino. Falo da morte do jovem Francisco Adam que deixou na juventude portuguesa, pode-se dizer assim sem exagero, um trauma profundo. A realidade tornou-se num pesadelo, transferida do enredo televisivo que faz sonhar e colorir a vida.

Tal como na tragédia de Castelo de Paiva é o sentimento colectivo da perda e da desgraça, do pessimismo adjacente, que volta. Podemos ser um povo pouco civilizado, com carências demasiadas no que toca a padrões de comportamentos sociais, mas na hora da desgraça, filhos que somos de um fado que se perpetua, assumimos demasiado bem o papel de protagonistas da tristeza.

Aqui, nesta triste história, só temos de compreender. É demasiado forte o que sucedeu.

Se havia algum fio de optimismo, de referência para uma geração jovem, era a novela dos “ Morangos”, quer se goste ou não ( eu estou à vontade porque detesto telenovelas). Pois foi no sonho colectivo, que movimentou milhões de seguidores, que caiu a maior das tristezas.

A fama traz muitas vezes esta ironia da perda, tal como aconteceu a James Dean ou a Marilyn Monroe, só para citar os clássicos.

Lá no céu tem de haver um santo lugar para estas boas estrelas.



Não dês bronca


A bronca da semana foi mesmo o zarpar quase total dos senhores deputados a uma votação na Assembleia. A coisa deu demasiado nas vistas e o resultado aí está. Mas não percebo porque só esta semana se deu conta desta balda. Todos sabemos como funcionam os plenários na Assembleia.

Os deputados chegam quando chegam, vão assinando o ponto, sentam-se dão dois dedos de conversa e passado alguns minutos, desaparecem. Como jornalista que vai frequentemente à Assembleia para mim já faz parte do comportamento normal.

Há alguns anos o semanário Tal e Qual caçou uma série de deputados que tinham assinado o ponto a apanharem o comboio em Santa Apolónia passado uma ou duas horas. Hoje teria de se ir para o aeroporto ou para as portagens da autoestrada ! Talvez as câmeras que o engenheiro Sócrates quer pôr nas estradas sirvam para controlar os seus deputados, já que ele se escusou a comentar o comportamento dos camaradas faltosos, aliás na mesma linha de toda a oposição que meteu a cabeça na areia.

E com um pouco de choque tecnológico até se conseguia pôr os deputados a votarem electrónicamente a partir do telemóvel ! Que tal ?


Academia de polícia



Um polícia descontrolado a agredir um puto que abanava um sinal de trânsito, tudo muito bem filmado por um cidadão repórter da sua janela, com os outros polícias a tentarem acalmar a fúria, parecia uma daquelas cenas americanas de polícias e gangs.

Uma oficial da PSP veio dizer à televisão, com voz celestial, que aqueles procedimentos não eram habituais na polícia. Obrigado. Devia vir dizer que eram ? E que disse depois ? Que o descontrolado polícia tinha ficado inibido de fazer serviços externos. Logo, não foi suspenso e podia continuar a usar o crachat da instituição.

Acho admirável. Vão decerteza abrir um inquérito interno. Estou ansioso por saber o resultado. Quando e e as consequências para o corajoso polícia.

Um cidadão que diga um impropério a um agente da autoridade é julgado no dia seguinte em Tribunal e pode pagar uma multa de 1000 euros. Sem dó, nem piedade, mesmo que seja um cidadão de bem, sem cadastro, só porque se indignou, um direito que lhe é negado se a autoridade se sentir ofendida. E quando o cidadão é humilhado e ofendido ?


Não senhora ministra !



Já não bastava o caos que foi lançado no Teatro Nacional, nos museus, ou a saga da colecção Berardo, agora a ministra Isabel Pires de Lima mandou dizer por interposta funcionária que João Bénard da Costa não deveria ser reconduzido na direcção da Cinemateca por técnicamente estar reformado.


A frieza, a falta de sensibilidade, a calinada da ministra é monumental. A decisão burocrática que ignora uma das personalidades mais marcantes da cultura portuguesa, que mais fez pela preservação e divulgação do cinema, pela dignificação e utilidade pública da Cinemateca, é um grande erro. É uma atitude
de arrogância que nem nos governos mais à direita alguma vez tivémos.




Até já


A internet permite uma relação única,directa com os leitores. A interactividade neste suporte multimédia é fascinante e acaba por criar um intimismo único com quem nos lê, ouve e vê.
Daí eu não poder deixar de anunciar que esta será a minha última crónica neste espaço.

Ao deixar a editoria multimédia, um projecto pelo qual me apaixonei, vou voltar ao meu amor de sempre o fotojornalismo, aqui no EXPRESSO, o melhor jornal do Mundo.

quinta-feira, abril 20, 2006

Os Últimos heróis do fotojornalismo



TEXTO PUBLICADO NO EXPRESSO ONLINE A PROPÓSITO DO PRÉMIO VISÃO



Foram fotógrafos como James Nachtwey ( na foto à esquerda, fotografado por mim) e Christopher Morris, que desde ontem estão em Lisboa a convite da Visão, que mudaram a minha vida. Quando descobri as suas fotografias há mais de vinte anos decidi que a arquitectura era uma batata e decidi andar pelo Mundo, Leica no olho, testemunhando a aventura humana.

Claro, sou um romântico sem remédio que acredita no jornalismo de causas, na visão de autor para comunicar com os leitores, e que põe a emoção acima da razão quando à minha frente tenho de registar aquilo que desaparecerá para sempre se não disparar certeiro e bater em retirada.

Há cinco anos, quando Nachtwey mostrou na Culturgest a sua exposição itinerante, eu fiz por lá uma descida aos infernos, mostrando aos meus alunos de fotojornalismo da UAL o quanto era imprescindível para eles o conhecimento daquelas imagens. Os putos ficaram petrificados. Os trabalhos que me trouxeram no final do ano revelavam uma sensibilidade, que tinha tudo a ver com aquela visão dantesca, que Nachtwey tinha dado através do preto e branco denso e da cor gritante de dor.

Penso que aquela experiência lhes terá dito mais sobre o jornalismo que horas e horas de aulas sobre semiologia, estatística, matemática ou como fazer bem televisão com uma câmara num tripé e uma edição com planos de corte!

O que marca definitivamente o trabalho destes dois fotojornalistas não é a «habilidade» técnica para produzirem fotografias irrepreensíveis ou a coragem física para enfrentarem os maiores perigos. O que marca é a força moral e ética, a intenção determinada para darem a ver o seu mundo, sem contemplações, sem cedências a modas ou a tiranetes de redacção. O que marca nas suas fotografias é a força que aquelas imagens deixam para sempre, fruto de um percurso que tudo leva à frente como um «buldozer» que lavra uma terra até à raiz.

No filme de Christian Frei «War photograher» vemos Nachtwey em acção em vários pontos do globo. Duas mini-câmaras coladas na sua Canon EOS1 acompanham-no quando ele fotografa uma família que vive à beira do caminho-de-ferro em Jacarta, nas manifestações de estudantes contra Shuarto, na Faixa de Gaza ou junto de mineiros de minas de enxofre. Jimmy mantém sempre uma aparente calma e frieza ao mesmo tempo que estabelece facilmente uma relação cordial com quem fotografa. Dentro da acção ele envolve-se com o movimento, com os rostos, com a gente que luta e sofre. Sem paternalismos, sem bandeiras, sem demagogia.

Morris, vi-o no filme «Decisive moments», rodado em 1978, sobre jornalistas de guerra. Corria por baixo de rajadas de balas, desafiando os «snipers» na grande avenida de Sarajevo. Numa das cenas mais incríveis ele pegava na célula fotoeléctrica e media a luz no meio do tiroteio para não falhar a exposição correcta!

Este misto de profissionalismo e cavaleiro andante é notável e traduz-se no resultado final: fotografias ímpares como obras de arte, documentos jornalísticos únicos que encheram as páginas de Paris-Match, Time, Life para não dizermos de todos os grandes títulos de referência da imprensa mundial.

Eles representam uma escola de jornalismo avançada que não sei se terá continuidade. Sem o apoio de editores de revistas como Time ou Stern, que apostam forte no trabalho deles, dando-lhes condições de financiamento e rasgando páginas com fotografias que valem muito mais que mil palavras, dificilmente sobreviveriam.

São fotógrafos que fundaram uma agência, a VII PHOTO, não para fazerem fotografias de agência. Leia-se: não para fazerem imagens na hora, indistintas, prontas para consumir num qualquer «fast-food» jornalístico. Fizeram uma agência porque, tal como os seus parentes da Magnum o fizeram em 1947, querem ser senhores das suas histórias e controlarem a sua produção. Daí o rigor que põem no que editam e daí a fama de muito mau feitio de Jimmy que não faz cedências editoriais.

Claro que o fotojornalismo não se pode resumir apenas a esta atitude e este é apenas um caminho, dois olhares singulares, entre muitos outros, Mas numa altura em que a banalização é regra na imprensa, estes fotógrafos ainda conseguem surpreender afirmando que o jornalismo puro e duro não se compadece com modas nem com diletantismos.

Podemos discutir estratégias, fazer sondagens aos leitores, podemos entrar em depressão com a queda das vendas na imprensa tradicional e ficarmos horas a arranjarmos explicações, mas há uma certeza que jornalistas como estes nos deixam: só conseguiremos chegar ao público (aos públicos se quiserem) se formos autênticos, apaixonados, audazes e profundamente profissionais no nosso trabalho. Simples, como as coisas difíceis e boas da vida.

terça-feira, abril 18, 2006

Regresso

Regresso a casa.
À fotografia. Depois de 8 meses em várias desmultiplicações de linguagem, multimédias.
Tal como o filho pródigo, o regresso à imagem fixa, à paixão, ao instante decisivo, que quando se torna fatal, nos devolve ao momento único da alma andante.

O instante fatal.
Fotografia de instinto.
Fatal como o destino.

Sem Sharon para grande pena minha.