quarta-feira, abril 18, 2012

Os impostores da fotografia

Sempre me chateou o choradinho dos fotógrafos. São uns génios, incompreendidos  pelo chefe, desprezados pelos patrões, pouco reconhecidos em público. Choram que se fartam há anos muitas vezes entre cervejolas e tremoços.
Mas raramente vi fotógrafos bons a choramingar. São discretos e não se queixam.

O estado de default a que chegou a fotografia em Portugal tem uma grande semelhança com o país. Não investiram em trabalho, cresceram em maquinetas mas não se desenvolveram sustentadamente.

Vendem ao desbarato o trabalho. Na imprensa, nos casamentos e agora no ensino.

Uma mulher a dias ou um canalizador não baixam o preço mas os fotógrafos aceitam preços abaixo de um trabalhador sem formação. Na verdade alguns nem para trolhas dariam, muito menos para fotógrafos.

A profissão está falida por causa da falta de profissionalismo e de regras oficiais para o exercício da profissão. Qualquer descarado diz que é fotógrafo.

Isto vem a propósito de haver quem se ofereça para fazer workshops ditos low-coast a um preço que fica abaixo de qualquer trabalhador da ferrugem. Não têm formação, não têm curriculum, tomaram eles que lhes ensinassem a eles, mas graças ao facebook e à facilidade de promoção apresentam-se como professores de fotografia. Se fossem padres ou médicos falsos eram presos por vigaristas, sendo fotógrafos são tolerados e até apreciados pela ousadia.

Uma vergonha. São os impostores da profissão. Piores do que os professores Karamba desta vida.

Já destruíram o mercado no jornalismo, na pub, nas empresas, nos eventos, atacam agora na formação como um vírus mortal.

Não investem um tostão em estruturas, instalações, equipamento. fazem workshops nas esquinas das ruas e enganam pessoas de bem.

Bate-chapas e photoshopadas limitada.

quinta-feira, abril 12, 2012

José Luis Madeira, o adeus do guardião de fotos

Gostava muito dele. Do José Luís Madeira que nos deixou ontem.

Gostava dele e ontem senti como o sentia amigo. Fiquei muito triste com este seu adeus.

 Gostava dele embora discordasse muito da sua visão sobre alguns lados da fotografia.

Não tinha a minha "escola" fotográfica, não partilhávamos os mesmos mestres, as mesmas referências. Acho que chegámos a discutir com vivacidade sobre isso, talvez durante um daqueles jantares na Trave, no Snobe, em casa da Joana ou na minha casa antiga.

O José Luís Madeira era um aristocrata na sua forma de ser e viver. Tinha um charme e um sentido de humor caustico que eu muito apreciava.
Podíamos discordar a falar de fotografia mas logo nos ríamos imenso a dizer mal deste ou daquele que faria parte de um grupo modista de artistas.
Má língua da boa. Com inteligência e nunca levando a vida demasiado a sério, embora com seriedade.

Acho que as primeiras vezes que o vi, nos anos 80, andava ele com uma Hasselblad e de fato branco. Acho que foi em frente à Leitaria Garrett do Chiado onde parava o Vitorino e outros loucos que vinham da Escola de Belas-Artes. Passámos muitas noites na conversa.

O José Luís sabia sempre qualquer coisa de novo e gostava de nunca revelar tudo o que sabia. Houve uma frase dele que ainda hoje uso muito em tom de ironia:" São cá uns enredos doutora que não lhe digo nada!". Dizia trocando o "r" pr um "g". Muito querido.

Tenho uma fotografia dele ( que não encontro já para aqui postar) feita nos claustros de Alcobaça com O João Bafo e o Carlos Gil. Também já desaparecidos no combate da vida.

Acompanhei-o na sua grande obra que foi recuperar a Casa-Estúdio de José Relvas na Golegã no final dos anos 70 e depois em algumas das suas andanças por estúdios antigos a recuperar espólios que acabaram no Arquivo do Palácio da Ajuda. Foi ele que me convidou para fazer uma grande exposição no Palácio da Ajuda nos já distantes anos 80.

A última vez que o encontrei foi há 2 anos(?) na Golegã. Entrei naquele café histórico onde já lá tinha estado com ele e vejo-o ali. Senti aquilo como uma coisa do destino. Foi a última vez que o vi.
Que tempos aqueles José Luís Madeira! Que tempos!

foto de Guta de Carvalho