terça-feira, junho 21, 2011

Nobre enlatado é vitória da política.

Nobre foi derrotado, foi bem feito, e foi uma grande vitória para o prestígio do Parlamento, a sede da democracia. Mesmo que esta não seja o que devia, mas é ainda o que nos resta de uma sociedade dos cidadãos.

Foi também a primeira de uma grande série de derrotas que se adivinham a Passos Coelho, cuja subida ao Poder se deveu a uma série de habilidades e oportunismos políticos, como todos sabemos. A vitória da conjuntura e da estratégia, contra a responsabilidade.

 Fernando Nobre nas presidenciais já tinha sido uma campanha política entre o patético, o populista e o narcisismo levado ao grau paranóico.

O médico que se notabilizou pela acção frente à AMI, onde soube cultivar muito bem a relação com  jornalistas que sempre o publicitaram e apoiaram, achou que devia ser o candidato contra os políticos, a política e o sistema democrático. Balançando entre a amizade e o apoio ao Bloco de Esquerda, dando o braço a Mário Soares e a Sócrates, usando um discurso de taxista tagarela, Nobre acabou por ter um resultado pífio, um número que, como muito bem dizia ontem Medeiros Ferreira na TVI, teve Pinheiro de Azevedo deitado numa cama de hospital.

O que é chocante nisto tudo é um partido que vive de clientela, caciques e barões, ter escolhido um cromo destes para cabeça de lista por Lisboa, e que o líder lhe tenha prometido o improvável: que o "independente", o anti-partidos, o anti-políticos, fosse eleito presidente do Parlamento, para dirigir aqueles que disse contestar. 

O caroço dentro do bolo seria Cavaco Silva ter a substituí-lo em caso de ausência e no lugar hierárquico a seguir ao seu, o rival na campanha mais problemático. Também era uma afronta ao PR, mas isso até dava gôzo.

Só o desprezo pela ideia da democracia, só a jogatana política, o oportunismo e o chico-espertismo, pode justificar esta coisa que foi o caso Nobre.

É a primeira derrota de Passos, mas mais do que isso: é um mau presságio para outras salsicharias que se adivinham na governação. Esta derrota demonstra falta de experiência política, aventureirismo, desprezo pelo parlamento, pelo partido da coligação, que nem foi ouvido nem achado para apoiar uma figura caricata da política.

Se num caso tão óbvio Passos deu o passo em falso, o que fará em situações para as quais vai ser preciso sangue frio, ponderação, rapidez e capacidade para dialogar e conseguir consensos?

Ontem na SIC-N o ainda secretário-geral do PSD, debitava como um corta-relvas falante, e sem ser interrompido por Mário Crespo, dizia que se tinha perdido uma oportunidade para eleger um independente para presidente da AR. Desculpem!...ouvi bem? Ser independente passou a ser agora um atestado de capacidade, honestidade e de bom candidato a lugares públicos? Um independente para mandar nos eleitos pelos partidos? Parece que aquela escola básica de Cavaco pegou. Dizer-se que não se é político factura.

E os portuguesinhos, mais preocupados com a vidinha do que com o destino comum, suspiram entre bitaites e concursos de gordos.

sábado, junho 18, 2011

Estreia anunciada com elenco de segunda

Afinal não é um elenco de luxo numa baixa produção de grande génio.

O filme tem o elenco reduzido, há actores que se desdobram em vários personagens, o realizador é um estreante. Nunca rodou sequer uma curta-metragem, nunca dirigiu actores, ninguém ouviu falar dele em Cannes. Trabalhou como ajudante de um padrinho, depois de ter dirigido um clube de putos que existia para serem um dia alguém na vida, sem trabalhar.

O público estava à espera de um elenco arrebatador. De Luxe. Um elenco capaz de destronar a longa metragem que estreara 6 anos antes e que se tinha revelado chata na história, incapaz de um happy end e cujos actores eram mais interessantes com as suas histórias privadas do que com os seus desempenhos na tela.

Portanto, quando a passadeira vermelha foi estendida, e o realizador a atravessou de passos largos, o corpo meio desajeitado, olhar de lado para não ter de responder aos jornalistas, e se sentou frente ao grande Óscar, os fãs pararam, ansiando que do bolso do jovem cavaleiro ganhador, saíssem os nomes que iriam salvar o futuro do cinema nacional.

No Palácio as aves calaram-se, os reposteiros taparam o Sol, e os peixes dos lagos sustiveram a respiração. Onze segundos bastaram, o tempo que foi preciso para pronunciar os onze nomes do grande elenco, para um burua se ter instalado por todo o lado.

O casting era no mínimo original. Havia uma actriz das Teias da Lei a fazer de camponesa, um actor da Liberdade XXI a comandar o exército, um actor obscuro que era muito bom a dar aulas algures do outro lado do Atlântico. O elenco era ainda composto por um veterano do jornalismo, especialista em títulos e sound-bites, um escritor talentoso mas canastrão, um especialista em sistemas informáticos a fazer de médico-mór e um génio da ciência, embora também pouco dado a representações.

Resta agora saber como vai acabar todo este enredo.

segunda-feira, junho 06, 2011

Sócrates na despedida:"Fui muito feliz convosco!".

foto de Luiz Carvalho
Resisti a escrever este post. Tenho imenso trabalho e estou cansado. Mas penso que o devo fazer. 

Assisti ontem à noite, a dois metros de distância, à queda de um político que teve um raro protagonismo nos últimos anos em Portugal. Um político controverso, com o mau feitio inerente ao signo virgem (!) mas um alguém que mudou muito Portugal. Para o pior, mas também para muito melhor.

A política não é um homem. É ele e as suas circunstâncias, como diria Gasset. As circunstâncias de Sócrates nem sempre lhe foram muito favoráveis, embora a sua teimosia o tenha feito andar para a frente e resistir a campanhas caluniosas, a críticas justas e a vitórias toleradas.

Sócrates representava há 6 anos uma lufada de ar fresco na política. Um político com menos carga ideológica ( ao ponto de Soares se ter referido a ele como um político de plástico), com vontade de mudar e de mexer em interesses instalados. Com maioria absoluta, com obstinação, entrou a matar.

Logo na noite da vitória avisou as farmácias para o lobby intolerável que representam em Portugal.
Vimos como perdeu face a esta corporação.
Depois quis pôr na ordem os professores que achavam que deviam avaliar, mas não ser avaliados, os juízes que achavam que deviam ser um Estado dentro do Estado.

Mexeu na Saúde encerrando centros de saúde obsoletos e sobrepostos e maternidades sem condições, investiu na energia renovável (um caso raro de sucesso no Mundo), aplicou um plano de modernização da administração pública com a empresa na hora ( eu que usei esse serviço fiquei espantado com a eficácia), o simplex permitiu o inicio da utilização da internet na relação com o Estado (pagamentos online de impostos, certidões etc), o programa Magalhães vai ficar para a História como uma iniciativa notável (embora eu embirre com o sistema windows).

As nossas infraestruturas rodoviárias são excelentes, o interior tem hoje condições raras de conforto ao nível de estruturas sociais e culturais. Foi caro? Pois foi. Foi a crédito? Pois foi. Tal como foi a crédito barato as casas que comprámos, os carros, a segunda casa, as férias, os seguros de saúde, as escolas particulares para os nossos meninos. O paradigma desde o final dos anos 80, introduzido com Cavaco e os neo-liberais, foi gastar com crédito, passar à reforma os séniores, investir na mão de obra barata, a troco de um consumismo alienante.

Com Sócrates tivemos leis de grande alcance social e que mudaram de vez a nossa vida. O casamento entre pessoas do mesmo sexo, a lei do divórcio e do aborto. Só estas 3 leis são por si de um alcance cultural único. Histórico. Foi a ruptura com a padrelhada, os reacionários, os beatos hipócritas. Foi a afirmação de uma sociedade moderna a olhar para a frente, tal como o era a construção do TGV, pago em grande parte pelos fundos comunitários, e que no tempo de Durão Barroso, quando Ferreira Leite dizia que não havia dinheiro para nada, aprovou 6 linhas de TGV. SEIS! Quem se lembra disso? Ninguém.

O calor nos miolos dos abstencionistas, durante os dias calaceiros de praia, formata-lhes a memória!

Muitas vezes escrevi neste blogue contra Sócrates. Teve atitudes lamentáveis, chegou a ser mal educado comigo em plena campanha eleitoral de há dois anos, fila certas pessoas e não desarma, vai até ao fim do mundo atrás de um inimigo. Mas espremendo agora esses pormenores de mau feitio, a verdade é que nunca se provou nada em tribunal contra ele. Nem fora dos tribunais se pôde alguma vez dizer, por exemplo, que tivesse ganho 200 mil euros em acções que nunca se tenha sabido como foram pagas. Se as campanhas já foram o que foram imagine-se se houvesse móbil para agir!

Não esqueçamos que a frase de Sócrates que terá dito em privado e que foi soprada para o exterior que "temos de dobrar a espinha aos juízes" acabou por lhe ser fatal.

Sabemos como surgiu o Caso Freeport e quem são os nomes da pior gente do PSD que o despoletou. E sabemos bem como a imprensa é dura com os que a confrontam e suave com quem sabe fazer a coisa bem feita.

Houve três ocasiões em que estive próximo de Sócrates e me deixou impressionado. Uma, era ele ministro do ambiente, e num dia sem carros, tivemos uma discussão a bordo de um autocarro eléctrico em que ele defendia a cidade sem carros e eu lhe dizia que isso era morte das cidades. Achei notável um ministro discutir com tanta energia um tema desses com um fotógrafo armado em comentador. Por acaso no final desse dia ia eu no meu BMW, paro num semáforo e ele ia a atravessar. Viu-me e disse:"pois, pois! Já o compreendi!".

Noutra ocasião estive a fotografá-lo nos jardins de S.Bento antes de uma entrevista para o Expresso à Cândida Pinto. Passeávamos os dois à procura de um local para um retrato. Na véspera tinha sido o referendo ao aborto. Perguntei-lhe como se sentia. "Feliz por termos vencido os preconceitos da igreja e dos padres. Mas o que eu mais queria agora era ir 15 dias de férias com os meus filhos. Só isso!".

A última ocasião em que me comoveu foi ontem. Eu estava a dois metros dele. Vi como continha as lágrimas, como resistiu às perguntas provocatórias, vi como usava a frieza para controlar a emoção.
A política é das actividades humanas mais ingratas. O exercício do Poder traz sempre no fim uma pesada factura de desprezo e ingratidão. Mais ainda em política. Fez um discurso de grande elevação.

Quando saiu do Hotel Altis, a mesma saída que já deu grandes vitórias e grandes derrotas a muita gente, caminhou sorridente para o carro. Uns populares gritaram-lhe: "Obrigado, muito obrigado por tudo o que fez por nós!". Ele entrou no carro, ainda olhou antes da porta se fechar, umas mãos vindas não sei de onde apertaram as suas com força e eu disparei com a minha Canon, nervosa. Ainda ouvi as suas últimas palavras:"Obrigado eu. Fui muito feliz convosco!".