sábado, agosto 02, 2008

Mastodante do Rato caiu antes de nascer

Podemos respirar de alívio: foi chumbado o projecto para a construção do edifício-arrebenta numa das esquinas do Largo do Rato.
Há um comentário de um leitor do Fatal muito interessante no post atrás sobre este tema. E devo dizer que estou de acordo com ele, até porque sou arquitecto (embora não pareça, embora seja um ofício agora não muito favorável a um jornalista::).
Fui dos poucos que sempre defendeu o projecto das Amoreiras. Nos anos oitenta Lisboa era cinzenta, sem edifícios arrojados e que pudessem marcar a época da cidade. As Amoreiras tinham a qualidade de se afirmarem pela diferença, pela provocação. Era um projecto cenográfico, colorido, fútil, uma ruptura com a arquitectura pós-revolucionária que era comunista e comunal, chata,encaixotada, fria e austera. As Amoreiras mudaram o perfil da cidade, marcaram a paisagem urbana, tornaram.-se num ícone lisboeta e mais importante: revitalizaram uma zona da cidade que estava abandonada. Lisboa passou a ter uma entrada com dignidade, coisa que contínua a não ter nos outros lados. Já viram como são as entradas de Lisboa ? O mestre Taveira pode ser muita coisa mas as suas "taveiradas"marcaram Lisboa.
Sempre defendi o CCB, o Franjinhas, o Corte Inglês. Gosto de rupturas e Lisboa precisa de torres, vidro, espelhos, luz, cor, movimento...energia. Acho uma tontaria de Sampaio não ter autorizado o projecto do Foster para a Praça de Espanha. E as torres do Siza em Alcântara seriam bem vindas, embora não goste muito do seu conceito de arquitectura. Acho a recuperação do Chiado lamentável mesmo.
Agora meus caros, há sítios onde as rupturas são criminosas. Ou há um projecto que supere a história e a escala dos lugares em qualidade, como aconteceu com o Centro Beaubourg ou com as Pirâmides do Louvre, em Paris, ou com o Museu de Bilbao, ou então estamos a gangrenar a cidade. Não vamos construir torres no meio de Alfama para criar zonas de referência, nem vamos envidraçar o Terreiro do Paço. E a volumetria é das questões mais prementes. Por outro lado o tipo de vida urbana que um tipo de arquitectura vai originar é de ter muito em conta. A revitalização das cidades faz-se com a introdução de actividades que dinamizem o tecido urbano e lhe devolvam cultura, trabalho e lazer. Não se pode só e apenas falar de bonitinhos ou monstros.
Lisboa devia ser muito mais rigorosa com as intervenções no miolo histórico e muito mais aberta relativamente a projectos novos. A cidade não cresce porque nos últimos anos a Câmara empata tudo. Um amigo meu está há 3 anos à espera de abrir um restaurante na Rua de S. Mamede e não consegue autorização dos serviços técnicos. Embirram com tudo até com uma máquina de ar condicionado num saguão. Depois permitem caixilharia de alumínio na Baixa Pombalina (veja-se o edificio do Millenium).

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