terça-feira, outubro 23, 2007

Gageiro e as medalhas olímpicas chinesas



Durante vinte e três anos não falei ao Eduardo Gageiro. Ele ficou zangado comigo porque testemunhei a favor da Ana Esquível num processo um bocado patético. Apesar de ter deposto a favor dele em tribunal, mesmo sendo testemunha do lado da acusação, ele achou sempre que eu cometera uma traição. Sempre me doeu ele assim pensar. Ainda tentei explicar-lhe mas ele já era surdo e também não estava para aí virado.
Foi o António Pedro Ferreira que nos aproximou há dois anos, se tanto. Fiquei bastante aliviado. Depois fiz-lhe uma grande entrevista para a Única o que me regozijou muito. O mestre merece-o.

Apesar de não lhe falar, durante todos aqueles anos, nunca deixei de admirar a sua obra. Sempre me intrigou a sua excepcional intuição, o seu apuro técnico, o sentido jornalístico, a capacidade de contar histórias e de fazer História.
E também sempre me fez confusão como uma pessoa com um feitio por vezes muito difícil, de atitudes inexplicáveis ( e isto nada tem a ver com a nossa zanga) consegue fazer fotografias tão sensíveis, pungentes mesmo.
Gageiro é um sobrevivente de uma geração de fotógrafos de imprensa que por vezes tinha contornos de uma verdadeira máfia. Ele para vencer teve de lutar e de usar armas por vezes menos apropriadas. Às vezes tem de ser assim quando a guerra o exige.

Sem complexos posso escrever que aprendi muito com ele. Vê-lo trabalhar era para mim uma lição. Andava como um gato, uma máquina na mão e não a tiracolo, pouco espalhafato, nada de flash, e disparava e desaparecia. Ou dizia qualquer coisa enquanto disparava.
Vi-o discutir com polícias e militares ( numa torre frente ao Ralis no 25 de Novembro), vi-o enfrentar manifestantes, apanhei-o muitas vezes em contracampo à procura de um ângulo diferente. a trabalhar era um buldozzer. Agressivo e rápido.

A ideia de fazer a foto que os outros não tinham feito, o ângulo, o gesto, era um desafio permanente nele. Era, e é, um fotógrafo que procurava fazer diferente dos outros, fotografava sempre com intenção. Podia estar aqui a noite inteira a escrever sobre ele.

Lamento imenso que amigos meus como o António Homem Cardoso não possam nem ouvir falar nele, e percebo-o bem, mas não posso deixar de falar do Gageiro como um caso único de intuição e saber fotográfico.
Ganhou muitos prémios, continua a ganhá-los, mesmo em concursos mais artísticos do que jornalísticos, mas ele é e sempre foi um fotojornalista.

É bom assumirmos os nossos mestres, num tempo em que as referências escasseiam, e os jovens turcos têm como passatempo atirar setas de voodoo àqueles com quem tudo aprenderam.

Parabéns Eduardo e anda daí para um grande cozido no 31 de Campo e Ourique !

6 comentários:

  1. Miguel Pereira12:16 da manhã

    Muito obrigado!

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  2. Gaspar de Jesus2:04 da manhã

    Caro Luíz
    Confirmo tudo aquilo que aqui dizes do Mestre Gageiro! a genialidade do seu trabalho é indiscutivel, e os chinocas são pequeninos mas não são burros, prémios como os que agora ganhou já os alcnçou noutros Salões de grande gabarito a nivel Mundial, contudo o ponto alto foi realmente o prémio alcançado no mesmo salão à dois anos atráz, dado que o salão é bi-anual, mas temos entre nós outros fotógrafos que se distinguem de vez em quando ganhando prémios similares a estes, só não refiro aqui os seus nomes para não "aborrecer" o Mestre cujo egocentrismo é quase do tamanho do seu enorme talento.
    Sempre o admirei mas nunca consegui conquistar a sua simpatia, há muitos anos atráz fiu conduzido por mão amiga até à residência de Ana Esquivel onde o Mestre também se encontrava, já nessa altura me confrontei com a sua surdêz... tal o entusiamo com que falava de si e dos seus trabalhos e nada ouvia quando se abordavam outros autores ou outras fotos que não as dele, depois diso encontramo-nos em algumas reportagens a Norte, nomeadamente as que envolvessem o Sr General Ramalho Eanes ou o PRD, e o nosso relacionamento em serviço posso considerar de o Q.B. mas depois aconteceu o litigio com a Ana Esquivel e sinto que a partir daí o Gageiro cortou comigo também... apesar de entre mim e a Ana Esquivel não existir qualquer laço de amizade...
    Outra coisa que sempre reprovei no Eduardo Gageiro é a forma depreciativa como se vem referindo aos colegas de profissão, já o ouvi proferir afirmações que reforçam o que atráz afirmo, foi o caso de num programa da RTP/Porto PORTUGAL NO CORAÇÃO ao ser-lhe perguntado o que o diferençava dos outros fotógrafos, ele respondeu, é que eu sou Fotógrafo, não sou Bate-chapas... e ainda agora no vidio que aqui colocas é bem evidente o "respeito" que ele tem pelos colegas de profissão...!!! é que o Mestre Gageiro nunca percebeu que o seu talento é uma coisa natural, não se compra, nem é maior pelo facto de ele demonstrar desprezo pelos seus pares.
    Tenho conhecimento de que o Eduardo se encontra enfermo e o que sinceramente desejo é de que se recomponha rápidamente.

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  3. ... a medida do talento pode algumas vezes ser o inverso da medida do homem... e é uma pena...

    um ego muito inchado é, para mim, sempre um sinal de pouca inteligência... seja qual for o tamanho do talento ou da sensibilidade fotográficas...

    E as questões de ego... são um campo onde o Luiz também tem os seus pecadilhos...

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  4. Paulo Sousa9:24 da tarde

    O Gaspar escreveu muita coisa que concordo plenamente mesmo sem conhecer o Gageiro, pessoalmente.
    Mas tenho acompanhado o seu trabalho e o seu percurso.
    E é, de facto, um individuo pouco humilde.
    Ele pode ser "um dos maiores" mas isso compete dizer às pessoas que conhecem o trabalho dele, não a ele.
    Tira-lhe um pouco a "magia" este facto.

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  5. Eu sou ignorante neste tema mas o com.... do anonimo 11:28 , na minha opinião não podia ser mais certeiro!
    A arte nunca pode ser alcançada através de vitorias mas sim de realizaçõe.As vitorias não produzem artistas e vencedores à muitos mas artistas à poucos. Pois se o Homem é artista, eu também lhe dou os parabéns.

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  6. Só agora fui ver o video! O homem é uma máquina de auto-propaganda incrível, isso qualquer parvo vê.
    Eu e mais eu e só eu e os outros, os gajos, todos parvos!
    Ena pá! Grande Herói.
    Ó LC , manda lá as tuas fotos para a china, a ver se não trazes uma taça.Aproveita agora que os chinocas estão zangados com os americanos!

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