segunda-feira, setembro 03, 2007

Silêncio! Está-se a ver fotojornalismo.

O primeiro dia do Festival Visa Pour L`Image começou calmo, ainda à espera de grande parte dos cerca de 4 mil visitantes.
Perpignan é uma cidade com edifícios muito antigos e é nessas verdadeiras catedrais góticas que algumas das exposições são dadas a ver.
A acreditação profissional exige um pagamento e em troca uma pulseira ( um bocado "veada" como diria o Marco Grieco, o meu director de arte que me acompanha) que nos acorrentará para toda a semana. Depois foi a hora de tomar o meu primeiro café oferecido pela revista Photo. Mereço-o: há mais de trinta anos que sou leitor! Passados alguns minutos era abordado, mais o Marco, por um casal turco que nos queria mostrar um portfolio da agência Narphotos. Era um belo trabalho com várias reportagens de jovens foto-repórteres.

O ambiente acolhedor da cidade, ruas estreitas, pequeno comércio, praças com esplanadas e muitos namorados aos beijos, ajudam o festival a ser também uma festa.Há por aqui gente de todas as idades. Há mestres do fotojornalismo, mas também aparecem curiosos como uma senhora que há 10 anos aqui vem porque acha importante ver estas fotografias que lhe abrem janelas para a vida.

Para as primeiras impressões passei no Palais des Congrés, onde a partir de amanhã vão estar representadas as agências fortes de imprensa, da Magnum à Getty, passando por outras mais pequenas. O stand da Canon já estava aberto com um estúdio fotográfico a funcionar com manequins e material cedido a quem o quisesse utilizar. Havia também um estúdio de televisão equipado com câmeras HD de pequeno formato, tudo apoiado pelos computadores e monitores Apple. Qualidade meus caros !
Um mundo perfeito de tecnologia paraa profissionais esclarecidos e que podem ali encontrar uma work station digital onde se cruzam as linguagens visuais e sonoras que hoje estão a marcar as plataformas da TV, da NET e dos jornais.

Das exposições vistas, houve duas que me impressionaram. A do fotógrafo Ian Berry -o decano da Magnum que fez a célebre foto nos anos 70 do oficial branco Sul Africano e dos alunos negros atrás de si - dá agora a ver uma reportagem p/b sobre as crianças que no Ghana são vendidas pelos pais para trabalharem como escravos para os pescadores, trabalhando nas redes.
É um olhar objectivo e terno, sem deformações visuais, com respeito pelos protagonistas, com a educação que os mestres da Magnum dos tempos de ouro, souberam e sabem ainda mostrar.

Outra das exposições foi a de Dennis Stock, o fotógrafo de James Dean que fez a célebre foto do actor a atravessar Times Square sob chuva, sozinho, foto que pude ver hoje pela primeira vez no original. As fotografias de Dennis conseguem reunir rigor gráfico com esmero técnico, humanismo com sentido de humor, documentarismo com visão de autor.
Este fotojornalismo de há 50 anos mantém a modernidade do olhar e apresenta-se ainda hoje sem a demagogia, o efeito fácil, o descuido técnico, a militância óbvia política do fotojornalismo produzido nos dias de hoje.

Percebe-se que este festival é " engagé" com temas que gostam de explorar a pobreza, o drama palestiniano, o inferno africano, o Afeganistão ( já não há pachorra, desculpem!), os imigrantes... é tudo fotográficamente correcto.
Parece que os fotógrafos vivem obcecados por mostrar o horror, o drama, e que à sua volta não existe mais nada na sociedade. Nem tendências, nem alegrias, nem glamour, nem luxo, nem ricos, nem viciosos...são imagens que dão a ver só uma parte do nosso tempo. Ao contrário das fotos de Stock, onde está o actor mítico, Marylin, as noites de jazz, as sombras de Miles Davis, as velhas senhoras a jurarem que não são comunistas na fronteira dos Estados Unidos...o fotojornalismo precisa de se virar também para a rua. Por exemplo: os namorados que se beijam na esplanada do Café Flore em Paris, enquanto o empregado varre e arruma as últimas cadeiras, é uma crónica notável de Stock sobre a cidade.

Voltarei a este tema.
Amanhã é o arranque a sério. E há que ser pontual. Por exemplo na sessão da noite ao ar livre não se entra depois de começar o slideshow gigante.
Os franceses são uns maçadores mas aqui o ritual tem de ser cumprido a preceito.

Silêncio!.. Estão fotos a passar.

Também em www.expresso.pt ( Luiz Carvalho, enviado do Expresso a Perpignan)

3 comentários:

  1. M.A.G.N.Í.F.I.C.O. !!

    O que nos conta, Luiz.

    I.N.V.E.J.A ...

    Muita !
    De não poder "in loco" ver tudo o que descreve.

    E que tal uma foto de um beijo de esplanada (or wherever ...) em Perpignan ?

    que aproveite o máximo e com prazer !

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  2. Paulo Sousa5:12 da tarde

    Pois é pézinhos...
    Que inveja!...


    LC, bom trabalho.

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  3. Oh! Luíz, as Francesas ainda estão perdidas de boas, como nos velhos tempos, ou já estão tipo fast food?

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