terça-feira, agosto 14, 2007

Roubos, Flores e batucadas alentejanas

1- Um familiar meu de férias na Beira-Alta, Penedono, foi assaltado enquanto tomava banho na piscina municipal com filhos e mulher. A carrinha tinha três buracos na porta na tentativa vã de a abrirem. Impensável ser-se assaltado ali há anos. Era terra para dormir com o ferrolho aberto. Algumas miudas até tinham devaneios com o padre, enganavam namorados ou beijavam à socapa por debaixo de castanheiros, mas roubos... só mesmo a mulher do próximo.
Portugal mudou e o António Barreto bem o mostrou no seu genial programa. A Beira-Alta onde estarei na próxima semana, é hoje de tudo um pouco: abandono, tradição, progresso, paisagem degradada e muita puta nas discotecas a alternarem com os tunnings rebaixados dos artolas.

Hoje uma amiga contava-me pelo telefone que o condomínio onde a mãe mora em Cascais foi assaltado e varrido num verdadeiro arrastão por uns putos com ar de utentes da Cova da Moura- como sabem um dos bairros mais chiques da Lisboa do século XXI !

Portanto, o país mexe em emoção vândala. e se não há mais crimes, roubos e assaltos é porque as televisões ainda não afinaram bem os telejornais-reais-shows. Num país com uma percentagem notável de imigrantes, desemprego, abandono escolar, polícia frouxa e sem equipamento, muito pouca marginalidade há.


2- Fiquei muito sensibilizado com o feed-back do meu post de ontem e a quantidade de comentários que originou. Tenho por aqui bons amigos mas não é justo que um deles me tenha feito o retrato com muita pinta e eu não saiba quem é. Está nomeado para meu biógrafo oficial. Ele sabe que eu sei que ele sabe quem é. Obrigado pelo apoio.

O nosso JS defendeu bem o Moita Flores. Vou confessar que o conheci em 1982 era ele polícia da Judite, brigada contra o banditismo. Tinha um Opel 1604 coupé, salvo erro amarelo ou vermelho, um carro do género do Ford Capri. O carro era de filme, estava já bastante amolgado, morava na margem Sul, e escrevia para o Tal& Qual com pseudónimo. Já tinha a mania de ser escritor e tinha publicado uns livros muito pequenos com historietas policiais.

Com ele fiz porventura a primeira reportagem sobre travestis na zona do Conde Redondo. Ele conhecia as bichas todas e acabaram por se deixar fotografar para o jornal. Fotos que estão no meu livro Portugueses. Uma das capas era "A Casa de Sexo de Madame Tuxa". Era um jornalismo muito caliente, puro e duro. Aprendi muito nesses tempos com o Hernâni Santos ( um grande jornalista mas um crápula como pessoa), com o José Rocha Vieira, o Ferreira Fernandes, o Jorge Morais ( um talento desperdiçado), o Ferreira Pinto.
O Moita Flores é de facto um tipo muito fixe, está a fazer um trabalho notável em Santarém mas deve vir embora por razões familiares.

3- A noite vai longa no Alentejo e se tudo correr mal lá terei pela manhã a batucada na casa do vizinho que decidiu fazer obras enquanto eu estou de férias. Julgavam que o Alentejo é só romantismo, silêncio e harmonia ? Esqueçam. Por isso gosto tanto de fotografia: quando é boa eterniza os instantes perfeitos como se a vida o fosse. Não é. A felicidade é só e apenas o somatório de todos esses instantes. E já gozamos !

7 comentários:

  1. Paulo Sousa12:39 da manhã

    Por mim, fica aqui o desafio de, sendo o Luíz um jornalista e fotojornalista, nos mostrar, amanhã e fotográficamente, os batuques alentejanos.
    :-)))

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  2. a anónim(a)1:03 da manhã

    Não me apetece pensar em paranóias como roubos, polícias e ladrões.

    No final do seu post, falou um pouco do que representa a fotografia para si.
    E a propósito disso lembrei-me desta frase de Bob Dylan, que não sei em que contexto foi proferida, o que seria interessante e importante saber, porque nada se diz por acaso. Aqui fica:

    Dignity never been photographed.
    (1991)

    Concorda LC ?

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  3. a anónim(a)1:25 da manhã

    já encontrei o contexto da frase de bob dylan. está aqui, na letra da música "dignity", cantada por ele:

    Fat man lookin' in a blade of steel
    Thin man lookin' at his last meal
    Hollow man lookin' in a cottonfield
    For dignity

    Wise man lookin' in a blade of grass
    Young man lookin' in the shadows that pass
    Poor man lookin' through painted glass
    For dignity

    Somebody got murdered on New Year's Eve
    Somebody said dignity was the first to leave
    I went into the city, went into the town
    Went into the land of the midnight sun

    Searchin' high, searchin' low
    Searchin' everywhere I know
    Askin' the cops wherever I go
    Have you seen dignity?

    Blind man breakin' out of a trance
    Puts both his hands in the pockets of chance
    Hopin' to find one circumstance
    Of dignity

    I went to the wedding of Mary-lou
    She said ÒI don't want nobody see me talkin' to you?BR> Said she could get killed if she told me what she knew
    About dignity

    I went down where the vultures feed
    I would've got deeper, but there wasn't any need
    Heard the tongues of angels and the tongues of men
    Wasn't any difference to me

    Chilly wind sharp as a razor blade
    House on fire, debts unpaid
    Gonna stand at the window, gonna ask the maid
    Have you seen dignity?

    Drinkin' man listens to the voice he hears
    In a crowded room full of covered up mirrors
    Lookin' into the lost forgotten years
    For dignity

    Met Prince Phillip at the home of the blues
    Said he'd give me information if his name wasn't used
    He wanted money up front, said he was abused
    By dignity

    Footprints runnin' cross the sliver sand
    Steps goin' down into tattoo land
    I met the sons of darkness and the sons of light
    In the bordertowns of despair

    Got no place to fade, got no coat
    I'm on the rollin' river in a jerkin' boat
    Tryin' to read a note somebody wrote
    About dignity

    Sick man lookin' for the doctor's cure
    Lookin' at his hands for the lines that were
    And into every masterpiece of literature
    for dignity

    Englishman stranded in the blackheart wind
    Combin' his hair back, his future looks thin
    Bites the bullet and he looks within
    For dignity

    Someone showed me a picture and I just laughed
    Dignity never been photographed
    I went into the red, went into the black
    Into the valley of dry bone dreams

    So many roads, so much at stake
    So many dead ends, I'm at the edge of the lake
    Sometimes I wonder what it's gonna take
    To find dignity

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  4. Pois é, com a política de integração social de enfiar bairros sociais e problemáticos no meio de zonas calmas e civilizadas, de forma a evitar a exclusão social, tem os seus contras... Quem teve essa brilhante ideia esqueceu-se que muita gente que lá vive não quer saber dessa integração social para nada, quer é ter oportunidade de enfiar a mão no bolso do mais próximo e se possível dar-lhe umas marretadas à mistura.
    Eu sou lá da sua zona, um pouco mais chegado para Lisboa em S. João do Estoril e nunca me hei-de habituar à fauna do bairro do fim do mundo (embora já esteja bastante melhor) que me insite em atirar lixo para dentro do quintal e partir as campainhas da porta, quando não é algo pior, mas enquanto for só isso, já não é mau...

    Obras durante as férias hein? Já me aconteceu. Queria eu descansar e aproveitar para dormir até mais tarde na vila morena, quando começo a levar todos os dias logo de manhãzinha com um batuque ruidoso e um cheiro intenso a químicos que me estragou completamente as férias. Tudo para daí a uns meses esse trabalho ficar completamente destruído com uma inundação. Felizmente que eu não estava lá quando fizeram a "reconstrução".

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  5. 1- Óh LC! Esse barulho que vem da casa do vizinho , não será o Homem a praticar o Kamasutra Alentejano?

    2- Para finalizar a polemica das policias , a gente sabe como é o sistema! Esse sistema que possibilitou o Parque Eduardo VII, que toda a gente conhecia e sabia o que se passava lá. Tal como no Conde Redondo, tambem teria sido uma grande reportagem fotografar aqueles acontecimentos tenebrosos que envergonham a nossa sociedade, onde somos todos responsaveis, mas há uns mais que outros . Por isso o caso só se levantou pela mão da Felicia Cabrita ai uns 20 anos depois, a reboque da Casa Pia !!! Com tanto campeao e moralista que este pais tem, como foi possivel isto !
    Espero que os bloguistas tenham também uma grande justificação! força !

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  6. Justicialista7:55 da tarde

    Sr. Luiz Carvalho, parece-me que o Sr. é claramente de Direita. Tem um discurso um pouco xenofobo e racista, não expressamente declarado, mas pode perceber-se das entrelinhas. Posso estar errado. De qualquer forma, não é por isso que vou deixar de vir todos os dias ao seu blogue, um dos melhores. Gosto das suas análises políticas e das suas descrições ao que se passa em cada uma das regiões que visita. Parabéns e continue. Cá estarei, todos os dias, para ler com muito prazer.

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  7. Não haverá ai no Alentejo um clube para o Fernando Santos treinar?
    Este tb é um tipo porreiro, mas é muito incompetente! Entretanto o rui costa marca e pode salvar o FS, mas mesmo assim, acho que é no Alentejo que esta grada figura nacional e com muita reputação internacional, poderia deixar a gente descansada!

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