quarta-feira, maio 03, 2006

O Medo do futuro



Num encontro de quadros superiores em que hoje participei, um dos temas em debate era a comunicação, a informação e a dúvida se hoje havendo mais comunicação nos conhecemos melhor uns aos outros e se, na verdade, partilhamos um maior conhecimento entre todos.

Claro que a sala logo se dividiu em duas partes. Uma, adepta e crente nas novas tecnologias, que dizia que hoje dispomos de um manancial de comunicação e informação notáveis e que acabam por levar a uma maior partilha de conhecimento e outra parte, céptica com as reais capacidades dos novos meios, nomeadamente a net, para quem o mundo de hoje se estava a resumir a uma comunicação básica, limitada, pobre, com o risco de nos devolver aos tempos em que comunicávamos não por palavras mas por batuques ou sinais de fumo.

Alguém lembrou que todos nós temos a tendência para recordarmos o passado com romantismo e nostalgia, fazendo disso um referencial idílico, manobrado na nossa memória, muito longe do que realmente terá sido o nosso passado.

Acharmos que antigamente é que era bom com as famílias reunidas à volta da mesa do jantar, cavaqueando ( antes do cavaquismo !) num ambiente de paz e harmonia, aliás uma ideia muito vinculada pelo salazarismo, e que hoje é um horror com os miúdos a empantorrarem-se de morangos com açúcar, outros na playstation, outros no quarto a teclarem na net, outros de Ipod aos berros a curtirem música, é levar demasiado a sério o nosso passado. “ Gostamos do passado porque o conhecemos, acabamos por temer o futuro porque é uma incerteza” – rematou um dos participantes.

Para os saudosistas não havia famílias más, nem rapazes maus. Esquecem-se que também havia muitos casos em que o homem chegava a casa, bem bebido, batia na mulher e nos filhos, via a bola a preto e branco e emborcava uma Sagres, entre tremoços e uns roncos imprevisíveis.

Sou suspeito. Acredito nas virtualidades da comunicação e acho que sou um sortudo por viver numa época em que posso usufruír de uma internet de conteúdos infindáveis, que permite uma comunicação universal, fácil, ao momento.

Dizermos que a internet isola é uma falsidade. Os milhões de conhecimentos que a net permite é uma facilidade fabulosa. Tem riscos, tem perigos, desvia atenções. Mas por ventura muita gente não se lembra do que era viver sem telemóvel, sem multibanco, sem computadores, sem via verde, sem uma tecnologia que nos permite trabalhar de uma forma mais eficaz, cómoda e produtiva.

É muito bom termos tudo isto.

Nem que seja para desligarmos tudo e podermos dormir ouvindo o múrmurio do mar.

3 comentários:

  1. Os que pertencem, como eu, a uma geração de charneira, temos a sorte de poder observar o fenómeno dos dois lados. Parece-me que também será esse o seu caso. No fundo, acabamos por ser uns sortudos!

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  2. Gostei particularmente da última frase... nem mais! O prazer da tecnologia passa também muito pela facilidade com que se pode carregar no botão «stop»... mas acho que poucos se apercebem disso.
    Custa-me a entender como é que estes ditos «deuses superiores» chegam aos cargos que têm com uma visão tão retrógada e limitada do futuro. Se é para arriscar entao que sejamos os primeiros! É mesmo o «Portugal dos pequeninos»...

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  3. É o chique tecnológico. A net é "gira" enquanto não põe em causa nada do que está instituído.

    Muitos sabem que o avanço da tecnologia sempre revolucionou mentes e lugares cativos.

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