
Porque será que agora as putas dão em escritoras? Perguntava-me esta semana uma colega jornalista em tom de desabafo, depois de eu lhe ter confessado que Paula Lee era uma mulher inteligente, culta com o seu blogue Amante Profissional.
Depois de umas frustradas quarentonas, intelectuais de noites mal dormidas, terem dado em escritoras "light" com um discurso feminista e uma postura de permanente desdém pelos homens, chegou a vez das profissionais do sexo darem a mão ao manifesto, o coração nessa linha e escreverem sobre as suas experiências avassaladoras. Contam tudo ao pormenor com respeito, carinho e o sigilo profissional que a actividade exige. E não têm Ordem nem Óscar Mascarenhas a controlarem-nas !..
A sociedade esta mais "voyeur" do que os paparazzi, e o assunto tornou- se de fácil leitura, logo rentável e popular.
Antes as confissões de directores de jornais tentaram ter sucesso, foi o fracasso que se viu. As putas ganharam em popularidade e em fino recorte literário o que faltou a candidatos ao Nobel.
Um esclarecimento: nada tenho contra a palavra puta. Para mim não tem significado pejorativo e considero-a palavra de boa sonoridade e de eficácia narrativa perfeita. Uma verdadeira puta nunca se sentirá ofendida com a designação.
Tal como um fotógrafo nunca se sentirá ofendido se o chamarem de fotógrafo. Se a coisa der para o repórter-fotográfico, repórter de imagem, aí a coisa já está a dar para o abjecto.
A vinda a Portugal da Bruna Surfistinha, e a entrevista de uma Andreia de 19 anos, também puta assumida, mais o supersite de Paula Lee, estão a revolucionar mentalidades e a provarem que a prostituição na dura pureza original é tão respeitável como qualquer outra profissão. Ou mais...
Estes romances côr de rosa-choque não são originais. Já a literatura confessional no mundo da putaria tinha dado provas de qualidade. Vejam-se alguns testemunhos de francesas depravadas como Anais Nin, amadora avançada, ou de putas que souberam rimar negócio com amor.
Claro que o encanto de uma actividade lúdica e lúbrica se perde quando começa a saír da clandestinidade e a ser escancarada nas televisões, revistas e jornais. A banalização tira a pica, normaliza, reduz o pecado a coisa adquirida.
Para já uma nova corrente literária nasceu.
Acontece! Já dizia o outro tontasso.
Luiz Carvalho