
O que faz um pobre mortal que trabalha em fotojornalismo ?
Pela manhã passear o cão pelo pinhal com as ervas cheias de orvalho que vão sendo acariciadas pelas orelhas do Óscar, um basset hound porco e teimoso como todos os da sua raça. Mas muito querido.
Deixar o putinho na escola com ele todo atarefado para poder iniciar as brincadeiras sem pensar, nem saber que no Mundo as letras não têm grande utilidade e os desenhos uma trabalheira comparado com o divertimento que é a vida do Ruca e os vídeos sobre circo, que já sabe que os há também no You Tube.
Chegar ao jornal, pegar no saco e ir fotografar uma sumidade, o professor António Barreto que me recebe no seu escritório na Lapa, casa antiga recuperada, cheia de fotografias originais. Lá estava a foto do Steichen dos imigrantes a desembarcarem na América e outras pérolas. Ofereço-lhe dois livros meus pois sei da sua paixão pela fotografia. Espanto meu: já conhecia as fotografias, algumas pelo menos. Começo a fotografá-lo mas a verdade é que a conversa entre nós sobre fotografia é muito mais interessante do que eu estar para ali a massacrá-lo com poses. Fica encantado com a minha Epson RD1. Parece-lhe uma Leica e ele tem uma M6. Falamos de Lee Miler, de Margareth Bourke-White, de Cartier-Bresson, da eterna dúvida de quem se quer aventurar na fotografia digital.
Meto a 100 milímetros na Canon, disparo, foco perto, não gosto das expressões, não me sinto à vontade, apetece-me adiar a sessão. Decidimos ir até à rua. Sugiro o Chiado para o fotografar no meio de multidão. O professor mal cabe no Smart mas não esconde alguma surpresa e quando o seu telefona toca não exita em dizer que está a bordo de um Smart e que vai ser fotografado.
O Chiado está radioso. Há Sol, demasiado forte, intenso, passa povo, há gente que o reconhece logo, há uma senhora que já não larga, que a filha gosta muito dele, que o quer ver, que lhe quer falar... O professor já não se sente à vontade a posar para mim que entretanto fiquei no alto da escadaria que dá para o Metro a fotografá-lo.
Passa uma mulher esplendorosa, com uma mini-saia indescritível. António Barreto começa a subir a Rua Garrett e eu vou-o fotografando de longe. Precisava de uma 400 ou 600 mas não estava no programa nem nas minhas possibilidades físicas. A 100 serve muito bem e torna a sessão rápida e discreta.
Regresso ao jornal, sinto-me um desertor. Uma manhã sem estar a seguir a edição já me deixa estranho pese embora a total confiança em quem comigo trabalha. Descarrego as fotos no computador. Já vi melhor e já vi pior ( a frase é uma homenagem a um familiar).
Almoço na cantina. Mais uma tarde de trabalho. Reunião sacrossanta às 18 com a direcção e colegas editores. A edição fotográfica é working in progress. Há fotos para mudar, outras para reenquadrar. Há paginação para mudar. Ainda não temos duas ou três fotos impactantes.
Fim do dia. Marcar agenda para amanhã. Quem vai fotografar o quê. Gosto de escolher os fotógrafos em função das suas características para os trabalhos marcados. Por vezes gosto de marcar ao contrário para rodar gente e fazer experiências, como o fazem os treinadores da bola.
Depois do jantar ainda vou dar a minha primeira aula do semestre à UAL. Está tudo às moscas. Na recepção da faculdade está a dar o futebol no televisor. Não há alunos. O semestre começa bem!.. Os alunos acham que a primeira aula é para faltar, a segunda para empatar, a terceira para fazer de primeira, a quarta faltam, a quinta ainda não perceberam o que ali estão a fazer, a sexta cai nas férias da Páscoa, depois admiram-se de haver chumbos e notas penalizadas.
Com sorte a matéria é dada depois de Cristo ressuscitar. É a triste realidade do nosso ensino e de muitos, não todos, dos nossos alunos.
Por fim casa. O filho já dorme, o cão desata a ladrar, a mulher resistiu a mais um dia longo.
Abro o computador, consulto o mail, hoje tive um mail muito interessante do filho de um amigo que é fotógrafo e está longe, mas vai voltar. A paixão que a fotografia desperta na malta de vinte anos é impressionante.
E aqui estou no blogue, a postar e a ver as audiências e a pensar que este Instante fatal vai fazer um ano e que eu devia mudar qualquer coisa ou acabar de vez com ele.
Luiz Carvalho