segunda-feira, novembro 29, 2010

ERC reconhece que a foto publicada pelo DN dada pelo gabinete de Sócrates, tinha significado intrínseco

No dia 19 de Abril passado, fiz uma participação à Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) para esta se pronunciar no sentido se tinha havido, ou não, abuso por parte do Diário do Notícias e falta de cumprimento das regras jornalísticas, o facto do fotógrafo oficial do Primeiro-Ministro (PM) ter cedido uma fotografia ao mesmo jornal, sobre a visita de Sócrates à Madeira logo após a tragédia, a propósito da Festa da Flor.

Tratava-se de uma fotografia feita no aeroporto do Funchal, na pista, onde só o fotógrafo do PM tinha acesso. Era uma imagem que possibilitava uma leitura política, nada neutral do ponto de vista jornalístico e político. O fotógrafo oficial do PM apanhara Alberto João Jardim de mãos postas, curvado perante Sócrates, que se podia interpretar como o vergar de alguém que desafiara Sócrates e agora lhe agradecia a ajuda. Uma boa fotografia se tivesse sido feita por um jornalista, uma provocação política ao ser cedida para publicação por parte do fotógrafo oficial do PM.

Havia aqui duas questões: uma: se o fotógrafo oficial pode distribuir fotografias com características tendenciosas, favorecendo a imagem política do PM. A outra questão: se é legítimo um jornal utilizar fotografias produzidas pelo gabinete do PM para ilustrar uma reportagem. Ainda haveria outra questão a levantar, mas que eu não pus à ERC, era se aquela imagem foi distribuída ou oferecida a todos os jornais e agências ou se foi uma "simpatia" do gabinete do PM para com  o Diário de Notícias.

Eu referia na queixa, e perguntava: se era legítimo um jornal utilizar fotografias de uma assessoria governamental para peças jornalíticas. Se o fotógrafo do PM não pode ser jornalista, não se percebe porque pode fazer jornalismo visual, fotográfico. Se os assessores de imprensa do PM não mandam para o DN textos para serem publicados ( penso eu) ,então o fotógrafo oficial não pode fugir a esta regra.

A ERC acaba de me responder e fiquei bastante agradado com o processo elaborado. Foi uma deliberação feita em bases mais jurídicas e menos jornalísticas.

No essencial a ERC conclui: Ora, se a fotografia da primeira página, no entender do jornal, "era a que melhor podia documentar o estado de graça com que o Governo da República era visto pelo Governo Regional da Madeira, e totalmente ilustrativa do momento", já as três fotografias da página interior em nada se distinguem das que foram publicadas pelos jornais consultados pela ERC, tratando-se de fotografias meramente ilustrativas da presença dos dois políticos na Festa das Flores.

A ERC considera que "não são passíveis de reparo os critérios editoriais que fundamentaram o destaque dado à foto da primeira página e que se fundamenta o destaque dado à foto face " às condições especiais em que foi recolhida e ao seu significado intrínseco".

Conclusão: o DN aproveitou uma foto feita pelo fotógrafo oficial do PM, com "significado intrínseco e feita em condições especiais, só dadas ao fotógrafo oficial. Não sabemos se essa distribuição foi franqueada a toda a imprensa ou se foi um "favor" do gabinete do PM. Portanto: o fotógrafo do PM faz fotos "com significado intrínseco" e não imagens de "fotos meramente ilustrativas", usando os termos da ERC. O DN por seu lado, também  utiliza "fotos meramente ilustrativas" cedidas pelo gabinete do PM quando havia nos locais fotojornalistas e a Agência LUSA.

O gabinete do PM distribui uma foto que em si nada tinha de "oficial" mas sim de editorial e o DN aproveitou e publicou mais 3 fotos no interior cedidas pelo PM, "meramente ilustrativas",  o que permitiu poupar em fotojornalistas. Esta é a  realidade.

2 comentários:

  1. Para mim, Luiz, uma realidade um pouco duvidosa "éticamente" falando. Foi uma interpretação, que a ERC entendeu dar como correcta, mas no fundo em que ficamos? A foto foi dada a título "de favor" do gabinete, ou se foi franqueada a toda a imprensa. Mas ela só foi publicada pelo DN, não é verdade? Ou sou eu que estou a ser "ignorante" e não vi toda a comunicação social do dia e portanto estou a falar um pouco sem conhecimento total da causa? Posso ser céptica e ter já séias dúvidas acerca de "tudo e todos", mas parece-me que existe aqui algo não muito em esclarecido, meu amigo. E sabe, eu não lido bem com aquilo que não me é explicado com clareza. Mea culpa! Provavelmente porque posso lidar com o que não concordo, mas aceito como uma verdade incontestável. Mas pelo respeito que me merecem as opiniões alheias, mesmo que possam divergir das minhas. Mas coisas mal explicadas..... não. Beijinhos. Nini

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  2. O radicalismo conduz-nos sempre ao isolamento ou, pior, à falta de razão.

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