segunda-feira, junho 21, 2010

As flores de Saramago

A morte de alguém nunca deve ser pretexto para manifestações de regozijo, vingança ou oportunismo político. Parece que a morte de Saramago se transformou numa polémica patética. Por estas e outras é que o nosso Nobel, que tinha mau feitio e fervia em pouca água, desdenhava muitas vezes Portugal.

A única vez em que estive talvez meia-hora a sós com ele, foi por volta de 1995*, ainda não era Nobel. Tinha de o fotografar para o Expresso, fui ter com ele à sua casa na Lapa, sugeri-lhe umas fotos no Jardim da Estrela, que ele aceitou de imediato.

Fomos conversando, e ele aceitou posar para mim, com uma luz de fim de tarde, pacientemente enquanto eu media a exposição com um fotómetro de mão e disparava a Mamya 6. Lembro-me que alguns velhotes que povoavam o jardim o cumprimentaram, reconhecendo-o.

Parece que por essa altura Saramago tinha aparecido bastantes vezes na televisão por causa de uma campanha eleitoral em que participou.

Quando me despedi dele fiquei com a sensação que era uma pessoa muito mais simples e afável do que aquela que conhecia como figura pública. Mais tarde voltei a fotografá-lo na Editora Caminho e aí voltei a sentir um homem antipático, pouco disponível para jornalistas, falando com uma certa sobranceria.

Hoje percebi melhor os elogios de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI. Talvez o único direita a elogiar o escritor e a fazê-lo com evidente sinceridade. Tinha convivido bastante com ele.


O que não se percebe é como, por um lado, a direita carunchosa e católica, aproveita para ser arrogante e insultar a memória de alguém que morreu, e ainda se percebe menos como um Presidente da República começa por elogiar o escritor para lá do que deveria ter sido uma mensagem institucional, para depois começar com explicações extra ao que fez, chegando ao ridículo de justificar a não ida ao funeral porque tinha prometido há muito, uns dias com as netinhas!..

Ou ter acrescentado que nunca tinha tido o prazer de ter falado pessoalmente com o escritor. Claro, depois do seu governo ter humilhado o escritor queria ainda falar com ele? Lembremos que foi Durão Barroso, enquanto primeiro-ministro que convidou Saramago para jantar em S.Bento e apaziguar o sentimento de revolta que o escritor sentia há muito pela forma como tinha sido tratado no seu país no tempo do cavaquismo.

Não gosto da obra de Saramago e há atitudes que ele tomou como director do Diário de Notícias que nunca esquecerei. Sanear 25 jornalistas por razões políticas foi miserável. Mas entre o homem, a obra e os actos há por vezes um abismo.

Não era uma figura simpática e nem me parece que mereça honras especiais de Estado só porque recebeu o Nobel. Deve ser respeitado e lembrado como um escritor que projectou a língua portuguesa no Mundo. E isso deve ser praticado por todos os portugueses patriotas. Isso nada tem de político nem de pessoal. Por tal o Presidente Cavaco deveria ter sido mais enfático nas homenagens de Estado e menos ou nada enfático nos comentários e apartes menores.

Recordo a última vez em que fotografei Saramago, na Biblioteca Nacional ao lado de Maria Kodama, a viúva de Jorge Luis Borges. A dada altura Saramago não queria ser fotografado e até se gerou um ambiente hostil aos fotógrafos (éramos uns quatro!).

Mas também me lembro de um encontro a que assisti por acaso há muitos anos, frente ao Café Nicola no Rossio. Ainda não se falava publicamente do seu romance com a jornalista do ElPais Pilar del Rio. Vejo chegar Saramago com um ramo de flores, do outro lado aproxima-se Pilar, abraçam-se, beijam-se e Saramago oferece-lhe as flores. Desapareceram abraçados em direcção à Rua do Ouro.

* tinha 2005 por engano. Queria ter escrito 1995.

2 comentários:

  1. "A única vez em que estive talvez meia-hora a sós com ele, foi por volta de 2005, ainda não era Nobel."

    Creio que ele foi nobel em 1998 ou 1999, não me lembro ao certo

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  2. Luiz, sabes que conheci bem o Saramago e que, ao contrário de ti, estive muito próximo do homem e das suas posições (se calhar mais do que de alguns livros que escreveu), ao longo dos seus últimos anos. Por isso, se calhar, sou suspeito, mas acho que: 1) o Aníbal não tem nada que homenagear o escritor de quem não gosta, que não conhece, que não atinge; mas 2) o PR Cavaco deve, porque representa a República e é para isso que lhe pagamos. Estou completamente de acordo contigo, portanto. Este PR arrepia-me, quando o oiço. Faz-me vergonha e isso é estranho porque não votei nele. Mas é aquela vergonha que se sente por conta de outrem, tu percebes. Ah, e o Saramago era, no convívio, um tipo simpático, generoso, divertido, porreiro, um bocado tímido, mas excelente companhia. Mas isso não interessa, claro. Até podia ser uma besta. Abraço A.CostaSantos

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