terça-feira, junho 02, 2009

A coragem de Marinho Pinto

O debate no Prós-e-contras entre Marinho Pinto e os advogados mostrou isto: há um poder instalado que não quer abdicar de mordomias, estilo arcaico e dinheiro. Os advogados estabelecidos na manjedoura querem continuar a exercer a profissão como um ofício superior, bem pago e com funções que ultrapassam largamente a profissão: políticos, gestores de negócios, defensores de casos chorudos.

Todos sabemos que se precisarmos de uma mera opinião de um advogado vamos resistir a consultá-lo até à última. Sabemos que nos vai sair muito caro e que raramente teremos retorno do dinheiro gasto. Se a justiça é para os ricos, a mera consulta de um profissional é pelo menos para quem ganha bem. Ora o que se passa na Ordem dos advogados, é que há os advogados ricos e os advogados pobres. Como acontece com os palhaços nos circos. Os ricos são os senhores instalados que controlam os órgãos da Ordem. Cobram ensino, recebem subsídios, normalizam o exercício e o acesso dos pobres e jovens à profissão. E são esses que conseguiram um batalhão de advogados inúteis, cuja única utilidade foi a de terem pago a sua inútil formação à Ordem, ou melhor às sucursais da Ordem.

O debate foi esclarecedor. Estamos perante uma classe representada por cínicos, retóricos, mesquinhos e que se auto-denunciam na sua mediocridade e na sua arrogância. Rogério Alves é o exemplar típico da classe dominante: bem falante, verborreico, com a agravante lastimável que acha que tem piada, numa espécie de José Miguel Júdice dos pobres. Poupem-nos !!!

Deus nos livre de precisarmos algum dia daquela gente. Por acaso vi na plateia uma advogada que me cobrou 800 euros para chegar à conclusão que o tipo que eu queria por em tribunal por me ter pregado um calote tinha mudado de morada. E fui eu que encontrei em 5 minutos na lista telefónica o que ela não encontrara em 4 meses. Claro que desisti da queixa e da advogada. Mas lá estava ela por sinal do lado dos que acham Marinho Pinto um mau bastonário.

Também devo dizer que foi Marinho Pinto, meu ex-colega no Expresso, que ao saber por acaso que eu tinha sido apedrejado por um vizinho, que se ofereceu para me defender em tribunal gratuitamente, tendo vindo 3 ou 4 vezes de propósito de Coimbra a Cascais, e que nem sequer me deixou pagar as despesas da viagem. Percebo pois muito bem que ele tenha saído em defesa daquela mãe que perdeu o filho no Algarve e que o tenha feito de borla, o que muito preocupou aquele Cabrita de Faro que o acusava hoje de acumular o cargo com a advocacia. Grande lata! Grande descaramento!

Marinho Pinto não é o bastonário do "status quo",e em Portugal ninguém perdoa aos que avançam a têm a coragem de por em causa as regras, os costumes, os interesses. É na Ordem dos Advogados mas podia ser numa qualquer repartiçãozeca ou num microcosmo de uma empresa de vão de escada. Marinho Pinto não pode ser demitido, mas vão fazer tudo para o liquidar pelo lado do desgaste, uma velha e eficaz táctica. Talvez Deus não durma e a justiça resista.os cães ladram, a caravana passa.

6 comentários:

  1. Os que são contra o Marinho Pinto lixaram-se. Nun ca deviam ter aceite o debate e, se tivesse que ser, ao menos que tivessem mais cuidado com os representantes. Tambem conheço o Marinhohá muitos anos e sei que elede vez em quando exagera mas, em quinze dias, "encheu-me as medidas". Bastava haver mais meia dúzia e era o panico neste País.

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  2. A minha simpatia por Marinho Pinto já vem de algum tempo. E simpatizo com ele, não por o conhecer, mas porque, ao ouvi-lo falar, sinto que o faz com honestidade, com paixão pelo que acredita, com valores morais e éticos, com vergonha na cara. Ele transmite isso, sem rodeios nem falsidades. Acredita-se nele. Este "boom" mediático, dos últimos tempos, só vem aumentar a minha simpatia por ele.
    Marinho Pinto não tem a vida fácil e é provável que acabe por sucumbir à matilha feroz e desavergonhada que o rodeia e ataca sem piedade.
    Quando alguém, que lhe deve acima de tudo, RESPEITO, lhe diz "cale-se", só vem provar a pouca vergonha e o sentimento de poder adquirido que reina nestes "intocáveis".
    Mas o poleiro parte-se.....

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  3. A justiça está (mesmo!) de pantanas! Nem sei qual a ponta por onde se pode pegar. No entanto, neste ministro, ninguém lhe toca. O que tem Alberto Costa, que nem a imprensa parece conseguir atrever-se a tocar-lhe?
    Se homens como Marinho Pinto não conseguirem provocar a ruptura deste sistema social podre em que vivemos, despertando a consciência do povo e levando-o à acção...

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  4. Acerca da guerra na Ordem dos Advogados, parece que se criou a ideia de que é uma luta de classes, entre advogados ricos e advogados pobres, entre o status quo e o revolucionário do povo, entre a elite de lisboa e o advogado de provincia. Certo é que o debate de ontem não ajudou; quem olhasse para a assistência via de um lado uns senhores muito compostos e de ar arrogante e do outro gente de ar mais modesto e simpático... Que ninguém me perceba mal: sim, há interesses instalados na advocacia de topo (como em qq actividd profissional neste país), sim há advogados que cometem e ajudam a cometer crimes (uma pequenissima maioria), pois em qq sitio há bons e maus profissionais, sim Carlos Pinto de Abreu é um elitista arrogante e defensor desse status quo. E para uma sociedade que criou a imagem do advogado ladrão e de nariz empinado, o dr. Marinho Pinto deve parecer uma lufada de ar fresco na advocacia. Mas não é; pode ser uma pessoa muito bem intencionada, mas não pode vir acusar os conselhos distritais de cobrar pela formação quando ele É o bastonario, ele podia e pode pôr fim ao exagero que é cobrado aos estagiarios... mas não o faz, nem nunca fará, nem nunca teve essa intenção... limita-se a usar esse fogo de artificio como argumento contra os seus opositores, quando na verdade foi desde que ele se tornou bastonário que os estagiários (e sim, eu sou um deles) viram as suas condições piorarem ainda mais. Pois os estagiários agradecem que nada seja feito por eles, mas que estejam sempre a ser chamados para estes jogos de ping pong intelectual, sr. Bastonario.
    Meus amigos, percam essa ilusão de que Marinho Pinto é o homem da ruptura, pq não é... é um homem inteligente,cáustico e incisivo, que sabe tocar a musica como muitos a querem ouvir, mas que no fundo não é assim tão diferente dos outros como faz parecer. O Dr. Marinho Pinto ocupa um cargo em que podia fazer-se ouvir e chamar a atenção para os problemas da Justiça (que são tantos), mas em vez disso contenta-se em criar barulho e um espectaculo de ilusionismo que o povo agradece e bate palmas, mas que para quem está por dentro não é mais do que ele fazia enquanto comentador televisivo, mas numa escala muito maior. Acredito que seja um homem que se bata pelas causas que acha justas, mas não é nem santo, nem o D. Sebastião da advocacia.

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  5. O texto é lindo como a verdade que ninguém pode esconder, tarde ou cedo vem à tona. É pena que à maior parte dos cidadãos o logro da justiça portuguesa passe despercebido.

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  6. Não frase a frase, mas no sentido geral (acho que Rogério Alves tentou lançar alguma serenidade dialogante entre as partes), concordo com o que escreveste. Também conheci o António Marinho Pinto enquanto jornalista e emprestar-lhe-ia a carteira, ou o Visa, muito mais confiante do que a muitos dos que, na banca, nos negócios e nos aparelhos partidários, por aí têm andado e em alguns casos estão já na mira da justiça.
    Os partidos políticos, sobretudo os que dominam o regime,e nos quais há a tentação de evitar, com ou sem pactos, a denúncia de escândalos e ilegalidades,devem tentar auto-reformar-se. Se também nisso falharem, não é a Marinho Pinto (e outros, pois ele não está só) que devem ser pedidas responsabilidades. Ele é democrata e não um populista ou caudilhista, e a ideia de que só os dirigentes partidários e as suas clientelas defendem a democracia e combatem a corrupção e os abusos de poder é, além de equivocada, uma ameaça ao regime democrático. Marinho tem razão em tudo? Talvez não. Exprimiu as suas razões sempre da forma ideal? Talvez não, também. Deve manter a calma? Se calhar. Mas pôs pedradas em alguns charcos. Corre riscos, e sabe-o. Ignorá-lo e apedrejá-lo é um risco maior.
    Tomem juízo, pois, e sejam sérios. A economia e o regime estão em crise? Então resolve-se zurzir...Marinho Pinto. Olhe cada um para o argueiro (linguagem bíblica) e estude então a trajectória dos pedregulhos. Os portugueses não andam todos a dormir, e aqueles que andam podem uma manhã acordar muito irritados.

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