terça-feira, outubro 16, 2007

Fotógrafos á solta no Congresso do PSD

foto de José Ventura

Santana Lopes chegou a meio da tarde ao Congresso rodeado de seguranças e do séquito fiel. Beijinho aqui, abraço ali, os fotógrafos iniciaram o ataque, atirando-se como gato a bofe perante as sempre surpreendentes expressões do Menino Guerreiro.

"Vocês não vão entrar ali comigo, pois não?"- perguntou, simpático, perante a possibilidade da sua entrada no Congresso poder vir a ofuscar tudo e todos com o circo da imagem atrás. Acabou por entrar pela direita baixa, com seguranças a abrirem caminho e os fotógrafos a correrem pelo corredor central para fazerem mais uma banal imagem do político a sentar-se.

Não há nada melhor para um político brilhar do que aparecer rodeado de um batalhão de fotógrafos, com flashes a luzirem e holofotes seguidores. Se um tipo é assim fotografado é porque tem carisma, fama e Poder. Portanto: nada melhor para um político em rampa de lançamento do que deixar aproximar os fotógrafos, mostrar confusão, espectáculo. Menezes já o sabe também, não estivesse ele bem rodeado de ex-jornalistas a aconselhá-lo.

No dia a seguir a ter estado no Congresso fui a um casamento e reparei como era importante para a solenidade a presença do fotógrafo e do operador de vídeo. Eles faziam parte do espectáculo, davam à cerimónia uma importância extra, eram por si só a prova de que a eternidade daqueles momentos estaria assegurada. Os noivos sentiam que também eles podiam ser vedetas por um dia, serem alvo das atenções. Tinham finalmente direito aos seus minutos de fama. Nada de mal nisto. A vida é, verdade seja dita, também feita de grandes momentos de auto-estima.

Congresso do PSD com fotógrafos à solta Menezes com o assessor da agência de comunicação Cunha Vaz
Meneses com Cunha Vaz, assessor da agência de comunicação.

A importância da imagem está mais que assimilada pelos actores políticos.

A relação destes protagonistas com a imprensa está a mudar profundamente em Portugal.

Há anos para se fotografar Soares ou Cavaco Silva, fazia-se um telefonema para o assessor, muitas vezes mesmo directamente para eles, e era fácil combinar uma sessão de fotografia numa situação exclusiva. Hoje fia mais fino. Qualquer fotografia fora do âmbito público tem de passar pela agência de comunicação que controla, até ao desespero, os passos, os gestos, as expressões, a roupa, a maquilhagem, o fundo cenográfico...tudo passa pela agência de comunicação.

Mesmo que o político esteja disponível para se deixar fotografar ao pequeno-almoço antes de ir para o Congresso, a ler jornais e a concentrar-se, o controleiro da agência de comunicação pode dizer que não, dar uma alternativa sem interesse jornalístico, propondo uma encenação com ar de propaganda. O jornalismo - verdade, aquele que pode transmitir emoções e dar o lado mais intimista (não intimo!) e humano de um político está cada vez mais difícil de praticar.

Num dos seus últimos livros, o fotojornalista francês Raymond Depardon conta que nos anos setenta conseguiu convencer Giscard D`Estaing a deixar-se seguir por ele com uma câmara de 16 mm filmando e gravando toda a campanha eleitoral, numa visão intimista. " Foi a primeira vez e a última que um político o deixou fazer em França!"- confessa o fotógrafo.


Ao longo da minha vida de fotojornalista tive momentos de grande privilégio ao poder fotografar políticos em situações exclusivas. Lembro-me de estar sentado na relva da vivenda Mariani com Cavaco Silva enquanto a Dra. Maria brincava com a neta, de poder fotografar um passeio de fim de tarde na Praia do Vau entre Soares pai e Soares filho e da viagem com Durão Barroso e Kofi Anan a bordo de um pequeno jacto de regresso da Cimeira do G8, ou mesmo a recente sessão de fotografias com Teresa Caeiro, impossíveis de fazer com um assessor de um qualquer estamine de comunicação a meter-se e a dar palpites.

Foram trabalhos possíveis devido à confiança que em mim depositaram. Mesmo nestas situações, nós jornalistas temos de aceitar que nem tudo é "on" para a fotografia e deve sempre prevalecer sempre a independência mas também a educação.

As facilidades para as fotografias nunca são ingénuas e os políticos sabem gerir bem essa dosagem de disponibilidade. Tal como os artistas de variedades.

O que há de novo é a profissionalização da imagem dos protagonistas políticos. A política entrou no espectáculo e as regras da marcação dos actores no palco não é muito diferente da praticada numa NBP. Os eleitores cada vez ouvem menos e cada dez olham mais, portanto: a imagem é tudo. Mandem entrar os fotógrafos.

( também em www.expresso.pt)

6 comentários:

  1. esse menino do Cunha Vaz, anda a ensinar os Politicos a comportarem-se.
    Ele conseguiu por o Vieira a não dizer ahmmm em cada fim de citação!
    Só não conseguiu fazer nada do Fernando Santos , com aquele tique da gravata, isto na esfera do Benfica, claro!

    Agora no Psd, parece-me que aquele Ribau Esteves tem pinta e não precisa do Vaz para nada, mas o LFM ,precisa, sem duvida!´
    É por isso que ele anda de mão dada com o rapazito.
    há-de aparecer a beijar um velhinha desdentada e depois vai pegar num bebé ao colo! E ai aparece o LC para a chapa!
    Grandes artolas!

    O coveiro da cantina é que não tem dinheiro para pagar ao Cunha Vaz , senão até subia a presidente da Camera de Lisboa e lá estava o LC a tirar uma chapa com o homem a dar a sopa aos pobres, coitadinhos deles!
    Filmes à Viriato!

    ResponderEliminar
  2. andamos nisto ha muito anos.nao percebo a novidade.P teu trabalho em geral é uma caixa de ressonancia daquilo que eles te dao.Uns fotografam melhor,outros pior.Mas,dentro deste contexto faz tudo o mesmo por um punhado de euros ao fim do mes.A unica evoluçao (e muito bem.Se estivesse no lugar deles;politicos,actores,desportistas faria o mesmo) é que ficou mais sofisticado a "foto"

    ResponderEliminar
  3. A propósito de imagem, aconselho a ver esta reportagem de "Fátima de ontem e de hoje", no site do Público:

    http://static.publico.clix.pt/docs/sociedade/fatimaontemhoje/index.html

    Muito Bom !

    E tb sobre a imagem do dia que ficou ontem, na minha retina:

    O helicóptero do INEM em Setúbal ainda com a porta aberta, já com um dos trabalhadores soterrados numa obra de construção civil.

    A médica do INEM lutava pela vida desse trabalhador (de 37 anos) fazendo compressão contínua no tórax, e o helicóptero a subir no ar, e sempre a imagem (através da janela do heli) daquela médica a pressionar ininterruptamente, para o salvar. Não conseguiu !

    Em Portugal já morreram este ano 100 trabalhadores em acidentes de trabalho. Metade na construção civil.

    A imagem é tudo.

    Bom Dia !

    ResponderEliminar
  4. O presidente da República diz sentir-se envergonhado por termos 1/5 da população com uma pobreza extrema e mais de dois milhões de pobres....Até parece que não é do PSD e que nunca teve nada a ver com isto.LOL!!!!!!

    ResponderEliminar
  5. Tantos fotógrafos a atropelarem-se para fazerem todos estas fotos clichés estafadas e completamente irrelevantes. Cuidar da imagem é uma coisa, só ter imagem e nada mais para além disso é outra e parece-me que quase todos os políticos sofrem desse mal. Não percebo porque é que os fotógrafos alinham nestas fantochadas e para além destas coisas óbvias não fazem outras que mostrem o vazio deste "Pão e circo". Talvez tenha a ver com o ordenado ao fim do mês....
    Os partidos podiam fazer umas fotos oficiais encenadas e mandarem para todos os jornais e revistas e poupava-se tempo e despesas, e era mais próximo da realidade.

    ResponderEliminar
  6. Paulo Sousa5:22 da tarde

    Toda essa encenação só é possivel porque grande parte dos fotografos vai nela. Ou assim ou nada. Pelo interesse jornalistico, claro.

    Um dia, quando os fotoreporteres também fizerem o seu trabalho como devem pensar que deve ser, a máquina controleira da imagem de A ou B também teria de se adaptar.
    Mas aqui e agora é o contrário: a agência diz e o reporter obedece.

    ResponderEliminar