segunda-feira, setembro 17, 2007

Professores, resistir no meio das incertezas

Hoje começou o novo ano escolar e com ele as habituais barracadas do governo. Confesso que a classe dos professores me motivava alguma animosidade até há pouco tempo. Conhecia gente amiga professora que não fazia puto, ganhava mais do que eu quando era arquitecto num ministério ( e eu era do topo da carreira) e que mostrava um permanente frete em ensinar. Alguns eram uns copofónicos que preparavam as aulas entre uma jantarada bem regada no Bairro Alto e uma ressaca a Guronzan para animar alunos.
Portanto, eu achava que os professores se classificavam entre os chatos que me tinham dado aulas no Camões e no Padre António Vieira ( com as honrosas e saudosas excepções de sempre) e a geração do 25 de Abril que tirara o curso com passagens administrativas, apesar de terem ido ás aulas e saberem mais do que o desgraçado Sócrates.

Hoje a realidade dos professores é muito diferente. Tenho um familiar que me conta as suas desventuras na escola onde trabalha há anos: desprezo pelas novas tecnologias, burocracia, alunos vadios sem controle, ambiente de caserna, insegurança, uma classe de velhadas obsoleta, falta de responsabilidade, por ai fora. A burocracia é de tal ordem que um professor para usar um computador tem de o requisitar com 48 horas de antecedência e o data show tem de ser com requerimento especial. Bem pode o primeiro- ministro fazer aquelas palhaçadas de se exibir num palco em forma de PC, a realidade é dura, triste, pacóvia.

Uma professora que conheci esta semana dizia-me com ar resignado que andou 15 anos com a trouxa às costas, longe dos filhos e da família para poder sobreviver a uma profissão, paga à hora como uma mulher a dias, sem recompensas nem dignificação. Como pode um professor ser livre, independente, culto e amar a sua profissão quando ganha uns trocos, está longe dos seus e tem o fantasma da precariedade permanentemente ?

Que faz o Estado para premiar e classificar os competentes, premiar a excelência em detrimento dos instalados, os do quadro, dos velhadas manhosos que depois de conseguirem um lugar cativo se entretêm a riscar dia-a-dia o que falta para a reforma ?

Um país onde os professores, os juízes, os jornalistas, as autoridades, os médicos, os quadros, ganham uma miséria não pode ir longe. São as elites avançadas que fazem os povos avançar. Ora sem uma classe média responsável, dignificada, paga com rigor, não se pode fazer nada.

O miserabilismo que se instalou no Estado, mas também nas empresas com as suas gestões de merceeiro são o cavar de uma sociedade medíocre, sem ambição, sem visão, sem nada.

Este é o Portugal dos pequeninos que os nossos governantes e gestores ( a única classe que em Portugal deu um salto enorme em honorários, superior à Europa), os socialistas e os neo-liberais criaram.
Uma apagada e vil tristeza.

6 comentários:

  1. Meu caro Lc,
    Fazer uma analise da classe profissional da forma como a fez é como analisar o ser humano só pelos anos da sua juventude onde só se pensa em sexo!come-se sexo e vive-se sexo!
    Eu vi professores que para além dos 300 cts tiravam + 400 cts nas explicaçoes limpinhos sem irs nenhum.
    vi professores que tinham o 5º de angola a fazerem oitos e noves.
    E vi jovens professores que mal ganhavam para comer!

    pode-se dizer que nos professores há de tudo! tal é a confusão!NoS ultimos anos já não tenho acompanhado, mas o ensino sempre foi o escape para os recem licenciados ganharem uns trocos!

    ResponderEliminar
  2. tb é verdade. Uma desgraça. Hoje apeteceu-me falar dos pobres. LC

    ResponderEliminar
  3. Pois é, há de tudo na classe docente.
    Mas os instalados na poltrona do sistema, que se perpetuavam nos cargos para beneficiar de horas de redução e leccionar menos, para poderem dar mais horas de explicação, os que fogem dos alunos como o diabo da cruz, foram colocados na categoria de titular onde continuam a poder ascender ao topo da carreira, e agora ainda levam o bónus de avaliar os outros. A escumalha que anda de escola em escola durante 10 ou 15 anos, que passa 25 e mais horas na escola com alunos, mais duas ou três de reuniões, todas as semanas, que vai para casa preparar as aulas, fazer e corrigir testes e fichas de avaliação, elaborar materiais pedagógicos, etc., a esses está vedado o acesso ao topo da carreira e os vencimentos chorudos de 300 ou mais contos no final do mês. Até a redução da componente lectiva, por idade foi diminuída, mas quem já dela beneficiava, mantém-na, que somos todos iguais mas alguns são mais iguais que outros. No Portugal de hoje, o mérito é a esperteza e a democracia é a arte da manipulação.

    ResponderEliminar
  4. O Paris Match actual já não é revista de culto nenhum, a não ser o culto de Sarkozy e amigos.
    Se tirassem uma rugazita á Sego eu aceitava porque mesmo com rugas é lindona de morrer, agora sacar pneu ao "emigrante" só pode lembrar a esta geração de europeus empaspalhados com as mariquices metrosexuais bushistas.
    O Match já foi de culto dos fotógrafos, para ganharam uns milhares de francos quando conseguiam uma dupla ou central e pouco mais.

    ResponderEliminar
  5. apache, para ficar certinho direitinho , só faltou dizer que a poltrona é entregue aos "mainatos" dos partidos e sindicatos para poderem controlar o sistema. não é apache?

    ResponderEliminar