sábado, maio 19, 2007

New York Times à Jornal da Paróquia

Em 1982 estava em Harrogate, Inglaterra, a acompanhar “As Doce” no Festival da Eurovisão.
Um fotógrafo local apresentava-se então com várias Leicas R com motor, um Volkswagem Golf GTI e um rádio no carro para as suas comunicações. Eu estava embasbacado com o estilo. À minha frente via um profissional como eu achava que devia ser: apetrechado, competente, eficaz. Para mim nunca seria possível em Portugal atingir-se aquele grau de profissionalismo. E nunca foi.
Quando me cruzava com fotojornalistas europeus que vinham a Portugal achava sempre que havia uma cultura evidente na forma como se posicionavam no terreno, como escolhiam o equipamento e pela atitude séria e atenta como trabalhavam.

Lembro-me de estar ao lado do Bruno Barbey em Fátima, em 1979, ele estava a trabalhar para a National Geographic. À medida que a procissão se aproximava, ele disparava ao alto, ao baixo, aproximava-se, disparava, recuava, media a luz com o fotómetro, corrigia, disparava, disparava. Um fotógrafo da Capital, também ao lado, desabafava com alguma arrogância:” É só gastar filme !!”.

Aprendi muito vendo os repórteres estrangeiros trabalharem. Reparei que o célebre Koudelka em Fátima ( 1977) era discreto, parecia um peregrino com a sua Nikon F velhinha e as leicas onde nem se conseguia ver a côr, de tanto uso. Disparava e retirava, disparava e era engolido pela multidão. Não usava sacos de fotógrafo e vestia um blusão coçado da tropa. Mas por detrás havia técnica de ver e técnica fotográfica.

Os meios melhoraram e hoje a forma de trabalhar da imprensa europeia e mundial nada tem a ver com a da portuguesa.
Isto vem a propósito do que os meus colegas do Expresso me relataram sobre o que foi trabalhar no “Caso Madeleine”.

O que esteve no Algarve deparou com um cenário raro por cá. Os fotógrafos e cameras das televisões trabalhavam à distância, com tripés e potentes teleobjectivas, para evitarem as molhadas anárquicas com atropelos entre jornalistas e com a consequente agressão sobre os protagonistas da história.

Havia zonas interditas e foram criadas pools. Assim trabalha-se sem confusões, em ordem, com resultados finais melhores. As televisões investiram em equipas grandes, com produtores, maquilhadoras, assistentes, realizadores, vários pivots. Havia telepontos para os directos, varandas alugadas, protectores solares para os jornalistas em espera ao Sol.
Os fotógrafos transmitiam de imediato dos seus portáteis instalados nos capots dos carros, nas esplanadas, no passeio, onde desse. E todos o estavam a fazer na maior das calmas.

Mas no meio desta sofisticação, as câmeras que andavam ao ombro a fazer reportagem eram todas mini-dv, da Sony, câmeras que as televisões portuguesas teimam em não usar porque os chamados “ repórteres de imagem” ( é uma das designações mais embirrantes que eu conheço) continuam a achar que são cãmeras de amador. Portanto: os tipos da Sky, da BBC, são umas bestas.

Gastamos, nós cidadãos governados pelo engenheiro do choque tecnológico, balúrdios em investimentos da moda, por outro retiramos aos nossos profissinais a possibilidade de estarem equipados com as ferramentas justas para as tarefas que lhes são atribuídas ( para usar uma terminologia institucional!). Os instrumentos de trabalho são vistos como brinquedos, da mesma forma que numa universdade que eu bem conheço um gravador de CD`s era encarado há dois anos como justificável só na cadeira de Rádio !


Um fotojornalista sem a sua workstation digital, cãmera fotográfica e de video, gravador mp3, computador com meios de comunicação e com,programas de edição de imagem e audio, não vai a lado nenhum.
A nossa falta de ambição sente-se até na forma como aceitamos ou não também a qualidade de vida no trabalho. Há tempos acompanhei um jornalista do El pais aqui em Lisboa. Quando ele entrou no então meu 525 tds, comentou:” Hombre, que bom carro para trabalhar!”, no dia seguinte uma colega de outro jornal atirou-me: “ tens um carrão destes ? Éh pá os fotógrafos sãos uns sortudos, ganham que se fartam!”.
Somos pobrezinhos e adoramos.
Como dizia hoje alguém perto de mim: em Portugal temos sempre um pé a fugirmos para a choldrice. Podemos trabalhar num edificio sofisticado,mas enchemos as paredes de papeis colados a fita cola, só não fumamos se não pudermos no open-space, as secretárias estão atoladas em papeis como as velhas repartições públicas e se acharmos que o calor é muito porque as janelas não abrem vamos repescar uma ventoinha dos anos setenta e o ambiente retro está instalado, O ambiente, a forma de trabalhar, a atitude, o fado.

2 comentários:

  1. meu amigo carvalho, como eu o compreendo nem o meu amigo imagina ser possivel.Mas tambem parece impossivel vc não perceber que quando 50% dos poretugues tem o seu salario dependente do estado e alem disso ainda existem as comissoes e os traficos de favores, o ambiente social e profissional nao podia ser outro.

    ResponderEliminar
  2. e relativamente ao caso MAdy, a
    pj do algarve deu a iamgem daquilo que é nos primeiros dias e depois foi obrigada por pressoes politicas a trabalhar , coisa que estavam desabituados! A investigação tem falhas tremendas e com esta policia qualquer miudo brinca!
    Você tb acha que é com os 1500€ que ganha um inspector ja com uns anitos que eles compram os carros e as casas que têm?????
    Este pais esta cheio de totos!!!
    pobres dos que nele tropeçam!!!!!

    ResponderEliminar