sábado, outubro 21, 2006

Fotojornalistas de olho no vídeo

O editor executivo de fotografia do Daily Telegraph acaba de chegar à chefia do jornal ( desde o passado dia 16) e está decidido a fazer uma revolução multimédia.
" O futuro dos fotógrafos do telegraph é o vídeo" - disse Stuart Nicol fazendo uma previsão do que será no futuro próximo a relação do fotojornalismo do telegraph com a fotografia e o vídeo, a edição em papel e edição online.

Na Associação de Imprensa, de que Stuart Nicol foi presidente até janeiro passado, 42 fotógrafos estão já equipados com as novas Canon S3, uma pequena câmera de 500 euros que permite fazer num cartão de 2 gigas 16 minutos de vídeo com qualidade óptima para a internet e ao mesmo tempo fotografar numa resolução superior para se obter uma fotografia com definição suficiente para publicar no papel.

O que o novo editor de fotografia do telegraph pretende é introduzir um novo conceito multimédia no fotojornalismo, o que me deixa muito entusiasmado.
Sinto que não estou só.
Quando estive de editor multimédia no EXPRESSO, antes do cargo que agora ocupo de coordenador-geral de fotografia, introduzi algumas experiências com fotógrafos que resultaram. Uma delas foi feita por António Pedro Ferreira durante uma entrevista a Bill Gates. A meu pedido ele fez um pequeno vídeo com uma câmera amadora, mas de excelente qualidade, e pusemos o vídeo a correr online anunciando a entrevista de Sábado no papel. Eu mesmo filmei a apresentação da candidatura de Cavaco em vídeo e transformei um pequeno vídeo que passou online numa versão em slideshow a preto e branco feita com frames do filme e passados a preto e branco.
Algumas vezes fotógrafos em reportagem enviaram-me fotos feitas com telemóvel, em cima do acontecimento, ultrapassando a agilidade das agências, da rádio e das televisões. O online permite este desafio e é uma das características que me leva a adorar este meio.

Mas o que está a mudar no fotojornalismo é muito relevante.
Fotógrafos como Cristopher Morris e Nachtwey da Agência Seven ( verdadeiros gurus do fotojornalismo) já falam em audio e video para ilustrarem melhor as suas fotografias e o melhor exemplo, sublime mesmo, é o site Magnum inmotion que sendo produzido pela mais prestigiada agência de fotojornalismo, criada em 1946 por Henri Cartier-Bresson, é o mais avançado em expressão multimédia tendo como base as fotografias e os fotógrafos mais ortodoxos da história do fotojornalismo.

A relação entre técnica e estética ( um dos temas caros para mim nas minhas aulas na Universidade Autónoma) não pode ser alienado. A nova tecnologia digital, barata, eficaz, acessível para o utilizador está a abrir novos horizontes para o fotojornalismo.
A convergência da fotografia com o video e o audio na mesma câmera e na mesma work station, com ferramentas que se cruzam e completam é o verdadeiro mundo multimédia.
Se cruzarmos as edições tradicionais de jornais em papel com as edições online então percebemos como o fotojornalismo tão ligado ao papel tem agora o seu golpe de asa: o vídeo e o audio como complemento para o online.

Este é um grande desafio de futuro que precisa de fotojornalistas abertos e entusiastas pelas novas linguagens e de jornais onde se sinta a necessidade inevitável de apostarmos no futuro. Não no descrédito do papel.
Mas sim no entendimento que uma marca vende no papel, na net, nos telemóveis, nos outdoors, nos ipods, na televisão ou até em sinais de fumo se os leitores preferirem esta forma de comunicação.

11 comentários:

  1. Não é de admirar que seja a Magnum a erguer a tocha e a arrepiar caminho. A excelência é sempre uma conjugação da novidade com a experiência. Usar a novidade como base experimental é que conduz a resultados medíocres.

    And the world spins round and round. Again...
    :)

    Abraço,
    RS

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  2. exacto, é precisamente nisso que ultimamente (http://www.nelsondaires.net/index/2006/10/pregrinos_na_tr.html) que ando de olho. afinal de contas a web 2.0 está aí, e quem lhe virar as costas, corre o sério risco de vir a ser ultrapassado num ápice.

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  3. Pois... a internet também ia acabar com os livros e com os jornais, o vídeo e depois o DVD iam terminar com o cinema...
    Modas, marketing e mais maneiras de pôr toda a gente à roda de mariquices modernas.

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  4. Há muito que penso isso! Só ainda não o adoptei para o blogue por causa da falta do material para o fazer...

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  5. A "writing on the wall" já aí está para quem não anda a dormir.

    Embora até agora não tenha conjugado o som dos concertos com as imagens, por não ter meios de captação sonora dignos, já estou a produzir apresentações dessas como forma de divulgação do meu trabalho fotográfico.

    No entanto as ferramentas mais simples têm limitações como se pode infelizmente ver no slideshow dos dazkarieh, cujas transições não fluem como deviam. A solução para isso será utilizar ferramentas de software mais poderosas, mas que têm o inconveniente de serem de mais dificil aprendizagem.


    Dazkarieh:

    http://www.youtube.com/watch?v=MrK6r-DiIzc

    Uxukalhus:

    http://www.youtube.com/watch?v=_-B9J9MQ72Q

    A Naifa:

    http://www.youtube.com/watch?v=pqI-X1rNAY4

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  6. Por aquilo que pude entender o que o senhor Stuart Nicole tenta fazer é um pouco diferente da abordagem discutida pelos fótografos da agência Seven. Aliás, o fótografo Eugene Richards, que já utilizou os dois formatos no seu trabalho, fala sobre a desvantagem da utilização da fotografia e do vídeo em simultaneo. Diz mesmo que isso é o afastamento do trabalho principal dos fotojornalistas: fotografar.
    Natchwey diz que quem quer o complemento do audio, quere-o com qualidade. Para isso, o fotojornalista tem que se concentrar no audio, ou então tem que ter alguém que o faça por ele (coisa que, tendo em conta o panorâma da indústria dos media no nosso país, dificilmente acontecerá), caso contrário, provalvelmente, ele vai descurar a imagem. Não me parece viável acreditar que uma só pessoa possa “tocar todos os instrumentos” com a qualidade desejável. Ou seja, quando em Portugal o fotojornalismo vive de uma forma geral na mediocridade, vamos criar um produto ainda mais fraco.

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  7. Ricardo, a ideia aqui é "adpapt or die". Se para uma reportagem forem destacados fotógrafo e redactor, este último pode desempenhar o papel de recolha de sons. Talvez os jornais devam dar cursos de audio e/ou recrutar reporteres da rádio que já têm esse treino.
    Se o fotógrafor for sózinho é mais uma competência que ele tem de adquirir, mas o melhor é começar a praticar.

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  8. Para a net um gravador digital sony p.ex. faz tudo bem num clique. A formação técnica é menor do que aquela que tivemos para começar mos a trabalhar com um computador.

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  9. Paulo Sousa10:08 da tarde

    Bolas.
    este tempo que corre freneticamente deixa-nos "de fora" a todo o momento.

    ... Pensava eu em investir agora numa máquina fotográfica novinha, para os próximos anos e...

    Mas, quando iremos ao CCB apreciar o World Press Video?

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  10. Acho que vai haver sempre fotografia, video, cinema, teatro, tudo. Mas tb devemos estar abertos a usarmos as ferramentas ao dispôr sem tábus ( tábu já basta a outra e não parece ter grande cara) Abraço

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  11. A introdução do áudio é um pequeno grande passo para o fotojornalismo divulgado via web - basta ver alguns dos ensaios do Mediastorm ou Camera Works.

    A simples captura de sons ambientes agregada a um slideshow com imagens desse mesmo ambiente faz toda a diferença no produto final.

    Eu uso regularmente uma mkIIN e já por algumas vezes usei a gravação de som (embora por outros motivos) - parece-me que é uma característica sub-aproveitada da máquina. Provavelmente não por muito tempo...

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