segunda-feira, janeiro 11, 2010

Pedintes groumet

Um repórter apanha de tudo na rua. Na passada semana andei pelas ruas da amargura em busca de famintos aos caixotes. Acompanhava uma colega que ia escrever sobre o tema. Eu na pele de fotógrafo observo e não faço perguntas. Mal falo com os protagonistas. Prefiro ver e calar.

Fiquei consternado com uma mulher ainda jovem, magra, com tiques de quem tinha nascido numa família burguesa. Notava-se na atitude, nas palavras bem usadas com a sua voz rouca, rufia. Abraçava um cachorro que a não largava e às malas de rodas que transportava com comida para o cão e roupas para proteger do frio. Uma figura simpática, terna, que apetecia ajudar.

Mas não era disto que eu queria falar. O que me impressionou foi o personagem de um homem novo, ar saudável, também com evidente educação escolar, que vivia de andar aos restos que lhe eram dados numa praça de Lisboa. A razão para aquela vida era justificada como uma forma de protestar contra o consumismo, o CO2 daí inerente e a sociedade cruel capitalista (era este o sentido das suas palavras).

Depois protestava contra o facto de em Portugal, ao contrário dos países nórdicos por onde já tinha mendigado, não haver ainda uma espécie de ecoponto da comida, onde os pedintes pudessem escolher entre caixotes para peixe, outros para carne e outros para legumes. Uma desorganização em forma de esmola!

A verdade é que a distribuição dos alimentos que sobram ao fim de um dia é complicada. Se os supermercados deitam fora a comida é porque ela vai deixar de estar fresca para consumir, ou porque os novos stocks terão de ser postos à venda para não se entrar num ciclo de estragos. Abrir os sacos e deixar toda a gente levar à borla criaria um caos e é impossível as instituições sociais poderem distribuir alimentos à beira do prazo.

Há lojas e mercados que regam com lixívia a comida que sobra, noutros dias fazem-se esquecidos e os pedintes pontuais acabam por levar para casa peixe e carne ainda razoáveis em qualidade para serem consumidos.

Agora que há uma multidão de mendigos profissionais, jovens, de saúde, e que não querem trabalhar que ninguém duvide. Nem toda a pobreza se traduz no folclore dos sem-abrigo que optaram por viver na rua entre bebedeiras e total desregramento de vida. É verdade que isto já se poderá considerar uma doença e casos sociais graves. Mas pelo que vi, aquela gente não quer trabalhar, vive à custa de expedientes e este intelectual da pedínchisse até já queria caixotes com produtos separados. Só faltou reivindicar frigoríficos públicos para conservar os restos da comida.

1 comentário:

  1. Conheci a Lisboa da noite e da madrugada e sei que muitos, talvez a maioria, dos sem-abrigo são pessoas que nada têm a ver com o perfil que deles faz no seu post.

    Mesmo os sem-abrigo groumet têm dependências terríveis, e não me estou a referir a dependências do álcool ou das drogas, mas sim a dependências psicológicas. Que só quem as vive, ou viveu, as sabe avaliar.

    O que escreve acaba por demonstrar alguma insensibilidade. Sendo, por isso, redutor na abordagem deste problema.

    Um problema social escondido na noite das esquinas e dos vãos de escadas. De pessoas que não conseguem voltar ao mundo dito normal e em que as pessoas ditas normais se estão cagando para eles.

    O que escreve é demasiado frio para a realidade que conheço e típico de uma mentalidade algo burguesa, muito característico daqueles que nunca sentiram o que é dar um derradeiro trambolhão e que vivem na comodidade do ar condicionado.

    Dos sem-abrigo que conheci de Lisboa, e que, certamente, são iguais em toda a parte, quando me lembro de alguns, fazem com que sinta um arrepio na espinha.


    Permita que lhe sugira que dê relevância, sem qualquer pretensiosismo da minha parte, a este meu comentário, eventualmente, a sua publicação num post em itálico.

    JJ

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