quarta-feira, novembro 28, 2007

Grande crónica de António Barreto

ELES ESTÃO DOIDOS


A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da "fast food", para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e "petiscos", a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios. Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados.

A SOLUÇÃO FINAL vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará. Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm Estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.

EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam às cartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar!
Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.
Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata que não sejam industriais e embalados? Proibido.
Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.
Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido. Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.
Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.

Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas.
Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido.
Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou. É proibido.
Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido.
Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais.
É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.
Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.

AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever.
Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.
Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género.
Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas.
No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta "produto não válido", mesmo que esteja vazia.

Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação.
Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.
Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.
Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido.
Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica.

As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes por dia e devidamente registadas.
As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado.
Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.
Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a hora do corte.
O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.

TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.


«Retrato da Semana» - «Público» de 25 de Novembro de 2007

23 comentários:

  1. Democracia? Liberdade? 25 de Abril? Liberdade? HAHAHAHAHA Grandes gargalhadas! Este povinho é mesmo estúpido quando acredita nessa utopia da liberdade. Ainda há-de chegar o dia em que cada cidadão será obrigado a ter um implante duma micro camara na testa para que o big brother possa ver tudo aquilo que cada um faz. Tudo para bem e protecção do cidadão. Espertos são os políticos que sabem manipular bem a mentira da liberdade.

    ResponderEliminar
  2. Eu quero dar os parabens ao autor deste texto pela visão que teve para relacionar um pouco intangívelmente , as coisas que se passam todos dias com a propaganda dos lacaios das multinacionais!
    Adianto que este texto nunca passaria pela censura do grupo do Tio Balsemão, por isso ponhas-se a pau meu caro amigo LC, se me autoriza tê-lo como tal!

    ResponderEliminar
  3. Lembrei-me agora do negocio da noite à roda das famosas casas Lisboetas , também irão fechar?
    A ASAE já terá ido ao Elefante Branco? Tou a falar em trabalho, obviamente!

    Eu dou uma ideia!
    Fechem essa porra toda! Alternativamente, podem começar a pensar em montras de gajas a pagar rendas e impostos, como em Amesterdão.
    O vosso Presidente pode criar um Red Light Distrit e resolver o problema do Chiado!Ligado ao Cais Sodré e à Zona Ribeirinha.
    Resolviam o problema dos prédios devolutos.Estimulava a economia e melhorava o déficit.
    Não era um espectáculo?

    ResponderEliminar
  4. A malta aguenta e até gosta senão as coisas nunca tinham chegado ao estado a que já chegaram.A malta gosta..

    ResponderEliminar
  5. Nós que passamos a vida a citar os exemplos vindos dessa Europa a que chamamos civilizada, deveríamos ser um pouco menos ambiciosos. Nos mercados de rua de Amesterdão vendem-se frutos secos, fruta, queijos e até "mangalhos" de chocolate a céu aberto...; isto num país onde faz sol 3 dias por ano! Lá nada amolece porque as especificidades locais mandam mais que algumas leis vindas de Bruxelas!

    http://papiroambulante.blogspot.com

    ResponderEliminar
  6. O que aí vem é o pior da globalização...

    Somos realmente cada vez mais um país governado por anormais que são apenas as sopeiras de Bruxelas.

    O nosso povo, continua a ser um dos mais acomodados, ignorantes, rudes e brutos da Europa. Como é possível continuar a votar sempre nos mesmos?

    Procura-se standartizar tudo... mas curiosamente ainda não ouvi falar num ordenado mínimo europeu, ou numa segurança social europeia, ou acabarem com as diferenças de mais de 5 mil euros entre um carro comprado aqui e em Espanha, apenas como exemplo.

    Só somos europeus para o que nos penaliza. Tenho vergonha da classe política que temos. Sócrates foi o piorzinho que nos podia ter acontecido. Por favor, nas próximas eleições não votem no engenheiro com diploma passado ao domingo!

    João V.

    ResponderEliminar
  7. A GINJINHA património nacional foi fechada e sabem porquê?

    Portugal a saque pelos lacaios de Bruxelas. Cá por mim antes morrer enojado do que asseptizado pelas sonsas prima donas do falso progresso europeu

    ResponderEliminar
  8. faltou o António Barreto falar dos mercados o ar livre em Roma na Via Venetto que as ricaças de casaco de peles Cavalli não dispensam e onde compram frutas e legumes frescos della campagna, ou em Paris ás 4ªs de enchidos no Quartier Latin ou no 17ème , ou do local nojento onde é confeccionado por uma família de pastores do país Basco francês o queijo ( aliás parecido c o nosso da Serra) que é considerado o melhor e mais caro queijo do Mundo ( O Ferran Adriá confirma) disputado por todos os melhores restaurantes de Paris Nova Iorque Londres etc.

    ResponderEliminar
  9. Será que temos mesmo de seguir o que em Bruxelas se resolve sem olhar à cultura do país alvo?
    Será que nós estamos condenados por Bruxelas a sermos encarneirados?
    Será que a ASAE recebe ordens directamente de Bruxelas?
    Finalmente quem é que manda "nisto"?

    ResponderEliminar
  10. no problem
    vou montar um negocio paralelo de tudo o que for proibido pelos mangas de alpaca da ASAE ajudados pelos policias imcompetentes - sito o chefe deles in Expresso - e envio pela UPS ou pela Fedex directamente ao domicilio , qual AGEL

    ResponderEliminar
  11. Só por acaso,são horas de jantar e esqueci-me novamente de ir comprar vinho,habitualmente nesta situação,ia aqui à tasca do lado e o problêma estava resolvido.A tasca sempre impecávelmente limpa,além de sala de jantar era um espaço de convivio de dezenas de reformados e de idosos sem familia,perante a avalanche destas novas regras,os proprietários desistiram,encerraram portas.Menos um contribuinte,as pessoas ficaram sem lugar para ir jantar,os proprietários ficaram sem o seu ganha pão, e eu sem vinho.
    O que é que Portugal ganhou com isto?
    Isto é de uma violência!Estão a lançar milhares de famílias para a miséria e a modificar o modo de vida de centenas de mihares,com que direito?
    roxy | 11.29.07 - 4:23 pm | #

    ResponderEliminar
  12. Gostaria de acrescentar que esta furia da ASAE contra os estabelecimentos de restauração, visa, tanto e tão só, criar o medo nos empresarios e obrigar à redução dos estabelecimentos até ao máximo, para rentbilizar melhor as cadeias de fast food.
    Vejam lá se já fecharam algum Mcdonalds ou Pizza Hut ou o Fried chiken ?
    Não! esses não!Ai tá tudo limpinho!
    Mas também digo que à margem desta descarada perseguição, há muita tasca do Manel e do Zé , que com franqueza , precisavam de uma desinfestação!

    ResponderEliminar
  13. Esta crónica é algo de genial. Apesar disso, concordo que há por aí muito sítio de muita boa gente (isso não está em causa) que precisa urgentemente de uma desinfestação!!

    ResponderEliminar
  14. Até aposto que a mulher de algum inspector da ASAE tem a representação dos copos de plástico que vão ser homologados para as esplanadas......

    Just a thought....

    ResponderEliminar
  15. meninos e meninas façam como eu que quando me apresentam um copo de plastico para beber café,vinho, ou agua. não bebooooooooooo! e se for de borla digo a quem fez a festa que são todos um bando de pelintras perigosos! e se for a pagar deixo servir e depois digo ..desculpe só tem café em copo de plastico? então olhe fique com ele que eu não bebo e muito menos pago!!! cruzessssssssss.
    mas tb digo: há muito sitio do mais tasco ao mais in que devia ser encerrado e encarcerado!
    já agora ouvi dizer por reputados senhores do LNEC que o predio que explodiu em setubal tinha uma caixa que era essencial para a estrutura e segurança do edificio que devia estar cheia de betão e estava! mas de tijolos. alguem viu o contrutor ser preso?por tentativa de homicidio nigligente.NÃO! ouvi foi uma senhora responsavel... dizer que a segurança dos moradores estava assegurada ao não lhes permitir a entrada no edficio e muito bem! agora a senhora levantar o dedo e voz contra o POLVO isso não! que o peixe é caro e de dificil captura. vi dias e dias de reportagens sobre o assunto mas.. os "profissionais" de informação tb comem peixinho e não convem mexer no buraco da rede. aiiiiii que quero fugir pa ilha.
    mami

    ResponderEliminar
  16. A privaçao da liberdade já acontece há muito tempo. O que existe hoje em dia é uma falsa liberdade. Aquela que nos querem incutir...

    Sugiro para melhor compreensao:
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Clube_de_Bilderberg

    http://www.webboom.pt/ficha.asp?ID=113704

    E vejam este documentário:
    http://www.zeitgeistmovie.com/

    Bem haja

    ResponderEliminar
  17. Até agora não havia controlo de nada, era um forrobodó e ninguém gostava nada da falta de higiene.

    Graças à ASAE, nem que seja apenas graças à "sombra" da ASAE, muitos restaurantes e cafés já se puseram a pau e já começam a ligar a "essa coisa chamada de higiene".

    Quer dizer, antes da ASAE, toda a gente protestava porque as chávenas do café tinham bâton, as colheres estavam sujas, o azeite adulterado, os sumos "de copo" fora do prazo, peixe fresco/congelado/descogelado/congelado/descongelado/servido, tudo numa balbúrdia tremenda...

    Agora, com a ASAE, a malta reclama porque "até nem se importava com essas pequenas falhas de higiene"... só digo isto: HIPOCRISIA!

    Eu por mim só vejo benefícios com a acção da ASAE pois podemos estar mais confiantes na restauração e nos cafés, e vamos deixar o nosso dinheiro nos melhores. A isto chama-se concorrência, e concorrência desleal é um estabelecimento oferecer tudo como deve ser e o outro que corta caminho por todo o canto possível e nada lhe acontece.

    Quer dizer, só falta vocês virem para aqui dizer "o trabalho infantil é proibido? Eu trabalho desde os 12 e não morri por causa disso"...

    Com ideias assim vamos para a frente como país, ai vamos, vamos...

    Força ASAE! É das poucas coisas que parecem FUNCIONAR no nosso país!!!

    ResponderEliminar
  18. Há coisas importantes de resolver na restauração mas deixemo-nos de extremismos, porque é isto que esse pessoal da inspecção é, uma quantidade de extremistas que estavam frustados porque tiraram os cursos superiores e não tinham emprego que agoram moralizam tudo quanto é etiqueta e rótulo que se pode trocar em qualquer altura, ou seja nem é eficaz... Mas o nosso país é assim, temos acções de formação para todos os gostos só não temos para civismo e bom senso é Pena!!!

    ResponderEliminar
  19. Estou a olhar para os meus tomates, fresquíssimos, naturais como atestam as cores fantásticas e reais e estou preocupado...não passaram pela balança, não foram devidamente analisados e avaliados pelos funcionários desta fabulosa comunidade em que nos enfiámos...será que vão ser aprovados ?....

    ResponderEliminar
  20. Mariana C. Cruz2:53 da tarde

    Tem de haver um meio termo. Há coisas que fazem parte da nossa cultura. Beber em copos de plástico é uma coisa horrorosa! Para além do que só faz lixo. Por outro lado, não há nada pior que os copos que nos servem nos cafés, com marcas e manchas duvidosas, que não se sabe se são de água, de dedos, do pano que o enxugou (bah!)... para não falar do baton. Eis a minha utopia: formar as pessoas que estão nos cafés em princípios básicos de microbiologia, de forma a que percebam como é que a porcaria se propaga, e como se limpa. O problema é muito mais fácil resolver indo para o drástico da descaracterização industrial, que é mais segura, (ou antes, mais fácil de controlar) do que garantir a qualidade das produções não industriais. Onde é que isto é utópico? É que ninguém quer ter trabalho. Ninguém quer aprender o que é correcto. Será que é necessária uma esterilização implacável de tudo o que é público? A primeira reacção é dizer sim. Mas se a senhora Maria faz uns brigadeiros que vendem até esgotar e ninguém, até hoje, teve diarreia por os comer (não digo por abusar deles...), será que vão ser banidos porque se desconhece o seu método de fabrico? Porque não deixar ao critério do proprietário do estabelecimento decidir, já que na utopia, ele é formado e sabe avaliar os riscos?

    Estas questões não são fáceis, e não sei se é correcto tomar decisões como as que foram tomadas. Resolveu-se o assunto da saúde pública, mas há uma organicidade que morreu com esta esterilização maciça.

    ResponderEliminar
  21. Sempre ouvi dizer que no meio é que está a virtude. Atitudes extremistas são sinonimo de ditadura. Higiéne sim, exageros não. Por este andar teremos de dizer aos senhores da ASAE que as esposas deles não podem confeccionar a comida para eles comerem, sabe-se lá que germes andam nas suas cozinhas ... eles que bebam em copos de plástico, e que vejam se gostam de comer bolos industriais ...

    ResponderEliminar
  22. É tudo muito lindo! Mas o MANTÓRRAS NÃO É CÔUXO. No entanto já está podre como muita coisa neste País tal como os grandes pensadores.

    Enfim!... perdoai-lhes SENHOR

    ResponderEliminar