terça-feira, agosto 07, 2007

Da Zitadura ao Vodka com laranja


Leio o livro da Zita Seabra sobre a sua aventura e desventura comunistas.
Vou no princípio, mas desde logo se sente que aquilo se vai arrastar por páginas e páginas. Para já percebo que a sua entrada no Partido Comunista foi um acto de fé, uma jura por uma sociedade utópica. De certo modo um capricho adolescente criado no mito das sociedades justas e perfeitas. Compreendo-a: nessa idade eu queria ser cançonetista e ganhar o Festival da Canção. Acabei, à falta de melhor oportunidade, no coro da igreja !...
A jovem Zita sinhava com a sociedade operária cantada pelos arautos da igualdade. A URSS que irradiava o Leste do Paraíso, chegava e bastava para alimentar a alma igualitária. E se Salazar prometia o Céu na Terra, Cunhal prometia a felicidade na Terra do Sol nascente. Salazar tinha uma mocidade cantante, Cunhal punha os amanhãs a cantarem. Entre a saudação de braço estendido e de punho no ar ficava um tempo triste, contido, sofrido. Os anos quarenta-setenta foram dos mais cinzentos, uma sociedade reprimida, amedrontada. Reguadas, chicotadas psicológicas, mocidade portuguesa, alegria no trabalho, de joelhos em Fátima, marchar para Angola e do outro lado, do reviralho, clandestinidade, prisões, Tarrafal, Aljube, Avante. Uma chatíce. Não admira que nos anos setenta não se tenham começado todos a charrar para esquecer a coisa.
Salazar seráfico, Cunhal de perfil a olhar para o Céu ( Santana seguir-lhe-ia o gesto ao citar Sá Carneiro).

Zita Seabra conta muito bem o que era ser comunista. Começou por se armar em menina de esquerda depois foi só um dos controleiros universitários reparar nela e convida-la a seguir o caminho da fé. O primeiro controleiro, Edgar Correia acabou por ainda a namorar, na boa tradição " o que é teu é meu, o que é nosso é do povo".

A vida desta comunista não foi fácil e acabou mal. A sua expulsão do PCP foi das coisas mais farisaicas que já se viram em política. Embora, verdade seja dita, que quem ser comunista não vai tomar cházadas para a Versailles, assim como quem quer ser fascista não vai de férias para o parque de Campismo do Inatel.
A sua entrada no PSD também não se pode considerar uma operação muito encantatória. Zita acabou por dar uma das maiores cambalhotas políticas que já se deu em Portugal.

Quando vi Zita Seabra na Sé de Coimbra no funeral da Irmã Lúcia, não queria acreditar. O que a vida nos traz ! Esta cena por mim fotografada é completamente oposta às fotografias que fiz dela no inicio dos anos 80, na piscina do Clube Atlético de S. Bento. Disfarcei-me de utente, armei-me em paparazzi, e fotografei a turma comunista da AR a fazer piscinas à hora do almoço. Vital Moreira, Alda Nogueira e Carlos Brito, o então marido de Zita, na maior. Foi primeira página do Tal & Qual, jornal onde trabalhei no seu melhor período e para onde fiz algumas reportagens sensacionais como a da D. Branca.

Até amanhã camaradas.

2 comentários:

  1. A luta comunista foi pela libertação do proletariado!
    Nesse tempo fazia sentido apelar ao sentimento daqueles que vendiam o seu trabalho de sol a sol por meia duzia de tostoes, nos paises do capitalismo ou nas colonias desses paises, para ascender ao poder politico.
    Hoje vejam como está o proletariado na China,Russia,India, Corea , vietname,cambodja, etc .
    Porquê que o movimento não vai libertar esses trabalhadores da ditadura do capital.Pois é !
    Hoje , surge um apelo parecido à ecologia ( all gore ) , para alcançar o poder. Aparecem ai uns tipos a defender para mudarmos as lampadas, carros hibridos etc , e eles andam em chevrolets de 500cv e tem mansões de 2000m2.
    Há muitas Zitas neste mundo! Que o livro dela sirva para evitar aparecer mais Zitas.
    Não há, ninguem mais libertador, do que nós próprios e a nossa consciencia.Viva a Liberdade!
    Viva o LC! Vivam Todos!

    ResponderEliminar