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sexta-feira, março 23, 2007

Onde está o canudo de Sócrates?

O blogue Do Portugal profundo lançou a questão: Sócrates é mesmo engenheiro?

Depois a dúvida instalou-se na Nação: Sócrates tem canudo? Sócrates é engenheiro? Terá saído a Sócrates o Curso na Farinha Amparo?

" Quer ser engenheiro ? Simplex! faça como o engenheiro Sócrates: venha para a Independente e saia engenheiro contente!".



Na pátria dos patos bravos encartados, ser ou não ser cabouqueiro é tudo o que precisamos de saber.
Os engenheiros deixara marcas na História do país. Veja-se Guterres o engenheiro de correntes fracas, mas que em casa era incapaz de mudar um fusível !
Veja-se o "inginheiro do Norte carago" e outros ícones que têm feito deste país o clube dos amigos das secretárias e por outro lado um território construído como se fosse o somatório de muitas casas de banho com as paredes viradas para a rua.

Agora o mistério sobre a licenciatura de Sócrates na Independente no tempo em que era secretário de estado merece toda a investigação jornalística.

Quero saber se tenho mais habilitações do que o primeiro-ministro.
Quero saber se o compagnon de route de Sócrates, essa figura maior da democracia e da gestão da Caixa Geral de Depósitos, essa vara chamada Armando ( o homem que inventou as matrículas K e a data do ano de fabrico nas mesmas) e o grande idiota da tolerância zero nas estradas ( as pessoas têm memória curta é bom lembrar), o mesmo da Instituto da Prevenção Rodoviária que depois daquelas cegadas levou Sampaio a obrigar Guterres a demitir Vara, esse génio, afinal, parece que foi também encartada pela mesma Universidade!

Como querem falar de educação e de qualidade no ensino se afinal temos um Primeiro licenciado de aviário, que parece ter tanta vergonha do seu canudo que a página da Presidência do Conselho de Ministros lhe retirou o título académico desde ontem ?

Sócrates tem um curso simplex de engenheiro e pelos vistos vai querer aplicar a fórmula ao país. Imaginem uma universidade de canudos simplex: o aluno entra por um lado e sai pelo outro já formado, licenciado, apto.
Simplex
, meus caros.

Claro que ser ou não ser engenheiro não faz dele melhor ou pior Primeiro. Não ser verdadeiramente engenheiro para mim até é uma qualidade. Como arquitecto sempre detestei engenheiros em geral, gostando depois muito de alguns em particular.

Mas que tudo isto é irónico e revelador de um país não tenhamos dúvidas. Quando a credibilidade da formação académica de um primeiro-ministro anda nestes termos o que havemos de dizer dos outros que saem das faculdades ou daqueles que desistem de lá entrar ?

Depois dos jornalistas, dos médicos, dos advogados, dos políticos, da justiça, chegou a hora do descrédito das universidades. Mau, muito mau. Como sustentar uma sociedade democrático sem instituições credíveis, sem pilares ?

Ao que chegámos

Os nossos filhos vão ter de declarar às finanças a mesada que lhe damos. Vamos ser apontados a dedo na rua quando passarmos com os nossos carros que mais lançam CO na atmosfera. O charuto que apetece fumar na tranquilidades das quintas à noite nas Amoreiras vão ter que ser fumados talvez por ali perto na encosta abandonada do casal ventoso.
A piscina pequena que permite o Alentejo nas escaldantes tardes de verão será apontada do céu por um helicóptero das finanças e do Ministério do Ambiente, e da Câmara claro.

Quando passarmos os 120 na auto-estrada teremos, já temos, um besouro atrás disfarçado de Mr. Magoo, a lareira a fumegar será denunciada por uma vizinha invejosa e até namorar será um abuso considerando que só o faz quem tem tempo e como luxo pagará imposto…
Enfim: a vida não está fácil. Isto é: as nossas liberdades estão ameaçadas.

Hoje de manhã na rádio uma reportagem feita na Assembleia da República apontava os deputados prevaricadores que fumavam no corredor da Assembleia. Ontem Durão Barroso era citado na BBC porque o Tuareg da mulher era muito poluidor.
Aos poucos esta democracia vai tornando a vida cada vez mais controlada.
Os cidadãos sentem que são cada vez mais reprimidos. Lendo o relato da via verde, do Multibanco, do telemóvel, basta para se fazer o trajecto diário do cidadão, para saber dos seus defeitos e virtudes.
O governo, qualquer que seja, já percebeu que a ecologia dá dinheiro e que os contribuintes já estão preparados para pagarem mais e mais.
Portagens, parkings, multas, contribuições, todos pagam. Ainda ninguém provou que se paga para uma melhoria da igualdade social, da eficácia do Estado, do bem comum.
Pagamos para alimentar uma máquina estatal trituradora e um poder que assenta na força omnipresente do mesmo Estado.
O mercado acaba quando as OPV`s atacam as golden share do Estado, o mercado acaba quando a televisão privada ameaça crescer e pôr em causa a influência da televisão estatal.
O controle que o Estado quer fazer à imprensa com a nova lei e com a regulamentação das televisões é um exemplo claro e escandaloso de uma influência estatal que não abdica.
No fundo quem é que quer ceder poder ? Ninguém, só os parvos.

Sócrates sabe-o bem e os outros da oposição também. Aliás esta semana ouvindo falar no Pós e Contras o antigo ministro Morais Sarmento, para mim um dos mais detestáveis governantes de sempre ao lado de Bagão Félix, até gostei do que disse. O que é inacreditável para comigo mesmo. Mas lá está: o homem falava como contra-poder e ali ele estava na plenitude das suas capacidades de convencer o otário desprevenido.

Talvez nada disto ligue. Mas o que sentimos todos é que a ideologia que defendíamos nos anos setenta para uma sociedade mais justa, harmoniosa ( no sentido do planeamento urbano e da organização do trabalho), moderna, ousada, arrojada, irreverente e responsável, está cada vez mais longe. Pagamos mais, somos mais controlados do que com a PIDE, as nossas liberdades culturais de escolha aumentaram porque a cultura passou a ser um negócio de supermercados.

Talvez deprimente, mas amanhã é outro dia.

Luiz Carvalho

terça-feira, março 20, 2007

Trabalhadores de ouro


O mecânico da minha Vespa monta à minha frente um jogo de espelhos retrovisores. Antes pegara num plástico protector para proteger de óleo o banco e os punhos. Desembrulha os espelhos com cuidado, espalha os parafusos e peças por ordem em cima de uma mesa e começa com calma e atenção a montá-los. Alinha-os com precisão. Depois, sem eu pedir, verifica o óleo do motor, desaparece com a máquina e regressa com ela lavada, ainda a pingar.
Elogia o modelo e confessa que a 2oo GT tem mais raça do que a 250 i.e que tem já injecção electrónica.
Porque falo nisto? Porque o mecânico da Motor Haus é romeno, infelizmente não fixei o seu nome, e revelou-se um profissional perfeito. Trabalha com desmesurado prazer e é de uma competência e dedicação à prova de bala. Porque não encontramos portugueses assim? Ou porque quando encontramos um português assim já tem uma certa idade e se dedica a uma profissão do passado, em vias de acabar?

Mudei de cabeleireira, a minha anterior está em Lisboa e não me dá jeito nenhum lá ir. Num centro comercial de Cascais sou tosquiado por uma romena. Tem 27 anos e 4 em Portugal. Estudou matemática no país natal, aqui é uma profissional competente, sem complexos por não praticar o que aprendeu na escola. Trabalha sem pressas, é eficaz, cuidadosa, atenciosa. Aceita a gorjeta final com timidez como se isso fosse um extra de que não estava à espera.

Quantos brasileiros não se cruzam connosco diariamente e nos provam o seu profissionalismo? Que seria de Portugal sem esta troca de culturas e raças ? Esta gente que tão bem se misturou entre nós, será decerto uma das razões pelas quais Portugal não se afundou ainda mais.
Eles contribuem para a qualidade dos serviços e para uma postura de responsabilidade que infelizmente não encontramos na maioria dos portugueses, sem habilitações, sem competência e sem vontade de trabalhar.
E nem vou falar do canalizador que me apareceu à porta de Audi A4 e me queria levar 100 euros para mudar a anilha de uma torneira….

segunda-feira, março 19, 2007

O mel de Santana

Hoje Santana Lopes na Sic notícias desabafou no Dia D.

Não há dúvida: o homem tem mel e um mamar doce.
Quem o ouve não o leva preso.
Estatelado no sofá ria-me com mais vontade do que com os Gatos fedorentos. Com Santana a realidade é sempre muito mais interessante do que a ficção, pese embora as suas excelentes qualidades de actor.

Conseguiu atacar Sampaio, Cavaco Silva, Marques Mendes, Durão, Carmona Rodrigues, o homem de Gaia, Portas e poupou Fontão de Carvalho e o Major Valentim Loureiro.

Com ele a oposição a Sócrates seria dura e com números. Isto é: os números dele eram melhores no tempo dele, tirando as exportações e estas cresceram com o crescimento dos países para onde mais exportamos.

Acho que ele até tem razão. O pior é quando ele governa. Ainda teve tempo de citar de rajada a obra por ele feita entre túneis, viadutos, centros culturais, rotundas e umas gorjetas a artistas desempregados do Parque Mayer.

Foi uma hora de grande televisão.

Para acabar em grande faltou o hino do menino guerreiro.

Mas esperem pelos 15 minutos que ele tem na manga para intervir na Assembleia. Serão os 15 minutos de glória efémera ou eterna ? Aguardemos.

Diane Arbus, fotografia e suicidio

Diane Arbus, em cima, Nicole Kidman, em baixo, a fazer o papel da fotógrafa em Fur ( A Pele)


fotografia de Diane Arbus (1923-1971)



"Para mim o sujeito de uma fotografia é sempre mais importante que a fotografia. E mais complicado..."- Diane Arbus, fotógrafa


A fotógrafa americana Diane Arbus marcou a história da fotografia contemporânea com as suas fotografias de figuras bizarras desde os anos cinquenta até meados dos anos sessenta.

O filme que agora estreou nas salas de cinema, com Nicole Kidman no papel brilhante de Arbus é uma versão livre e delirante da vida e da personalidade da fotógrafa. A mestria do realizador, a capacidade criativa do director de fotografia, a ambiência dos cenários e o talento de Kidman tornam este filme num dos raros casos em que saímos do cinema com o alento de termos partilhado uma já rara fita de autor.

Conheci as fotografias da Diane Arbus pouco tempo depois de me ter obcecado pela obra e pelo significado de Henri Cartier-Bresson. Já lá vão seguramente mais de 30 anos. Percebi logo que o registo de Diane Arbus nada tinha a ver com o do mestre francês, o teórico do Instante Decisivo, bem pelo contrário. Em Arbus prevalecia a pose, o relacionamento directo com os personagens apanhados na rua ou nos seus habitats naturais. As fotografias dela deixavam-me uma estranha angústia, uma mescla de ironia e crueldade, de ternura sórdida. Remetiam-me aquelas fotos para um olhar próximo de Fellini, um dos meus realizadores preferidos, mas ao mesmo tempo não tinham a tolerância e o paternalismo do mestre italiano. Nem podiam: ela era uma fotógrafa realista, ele um cineasta neo-realista com todas as diferenças culturais e políticas implícitas.

As figuras de Diane Arbus são infelizes e patéticas, inofensivas, desgraçadas, marginais. A técnica fotográfica em Arbus é elementar. Usava uma câmera de película 6x6, geralmente uma Rolleiflex, usada ao nível do umbigo e que enquadrava olhando por um visor colocado no cimo da máquina. Era mais discreta, dispensava levar o visor ao olho. O flash enchia de luz o primeiro plano onde se situavam as personagens que assim ficavam mais recortadas dos fundos. Esta luz de flash permitia olhares limpos, sem sombras, luz directa, crua como o olhar da fotógrafa. A técnica não fugiria muito à usada pelos fotógrafos de casamento, os bons, do tempo da película e do preto e branco muito nítido.

No filme lá estão muitas daquelas figuras bizarras que transformaram a vida pessoal da fotógrafa e a deixaram refém desse mundo estranho, estimulante, terminal que a fotógrafa abraçou: anões e nudistas de corpos disformes em campos próprios, gigantes em casas de bonecas, famílias jovens de postura estranha com filhos estrábicos, burguesas decadentes, faquires de circo, travestis e outros cromos.
As fotografias de Arbus parecem por vezes o prolongamento de muitas das figuras de Weegee, um fotojornalista de Nova Iorque famoso nos anos vinte pela coragem e pelo desassombro das suas imagens tomadas à socapa nas ruas da cidade.
Diane Arbus começou como fotógrafa de moda, ensinada pelo marido. Mais tarde foi com o maior director de arte de sempre, Alexey Brodovitch, o criador de Harper`s Bazar e com o fotógrafo Richard Avedon que deu os passos decisivos para uma carreira profissional.
Tornou-se fotojornalista nos anos sessenta. Publicou na Esquire, no New York Times Magazine, na Harper`s Bazaar e no Sunday Times,
Teve duas bolsas Guggenheim (1962 e 1966) que lhe permitiram desenvolver melhor o seu trabalho de autora, mostrado pela primeira vez num museu em 1967 (colectiva New Documents Museum of Modern Art).
O catálogo dessa exposição que o célebre editor John Szarkowski concebeu, em 1972, tornou-se num dos mais influentes livros de fotografia. Desde então, foi reimpresso 12 vezes e vendeu mais de 100 mil cópias.
A exposição do Museu de Arte Moderna viajou por todo o país e foi vista por 7 milhões de pessoas. No mesmo ano, Arbus tornou-se a primeira fotógrafa americana a ser escolhida para a Bienal de Veneza.
Um ano antes, em 1971, tomou barbitúricos e cortou os pulsos. Como se os personagens das suas fotografias, na sua expressão sórdida e pungente, tivessem sido a premonição do seu final infeliz.

sábado, março 17, 2007

UMA FOTO POR DIA


Portas do Sol, Santarém. Foto de Luiz Carvalho

Final de fotojornalismo em Santarém


Acabou o meu work-shop sobre fotojornalismo e multimédia em Santarém, no Instituto Politécnico. Foi uma semana com trabalho nas ruas da cidade, sessões de visionamento das imagens e alguma teoria do fotojornalismo.

Conclusão: há um número significativo de fotografias muito curiosas, feitas por quem nunca tinha vindo para a rua fotografar frente-a-frente com pessoas.
Técnica à parte, as fotografias acabam por ser um relato vivo da cidade, de aspectos urbanos, património, afectos e desamores. Irónicos por vezes, ternos e realistas outras vezes.

A fotografia é hoje uma actividade possível a qualquer mortal. Pôr na mesma linha do coração o olhar, é um bom caminho para se chegar a fotos com interesse para serem vistas e recordadas.

Foi uma boa experiência e penso que ninguém que esteve nas aulas voltará a olhar a fotografia da mesma maneira. Ficaram abertos para a disciplina e podem fazer dela uma rotina e um prazer.

Todos na faixa do meio da auto-estrada

O que leva um condutor a entrar numa auto-estrada a 50 à hora e atirar-se para a faixa do meio, indiferente a quem vem a aproximar-se? E que o leva a manter-se lá, sujeito a ser empurrado, depois de levar com sinais de luzes e buzinadelas? Será o Mr. Magoo que vai ao volante?

Os portugueses cheios de «cagufa» das multas pesadas, passaram a andar mais devagar nas auto-estradas. Mas insistiram no tique antigo: faixa da direita é para esquecer, a faixa do meio é para quem paga portagem, quem vem atrás e quer ultrapassar… que passe por cima!
À noite ligam ainda os faróis de nevoeiro para impressionar.

Estes alarves conseguem circular quilómetros sem fim nesta postura ,sem que a carta lhes seja aprendida e a justa multa passada. Porquê? Porque não há pura e simplesmente fiscalização nas nossas auto-estradas. Onde pára a polícia? Está parada para poupar no combustível e nos quilómetros dos carros-patrulha.
Há radares escondidos, carros da bófia imprevisíveis, mas não há fiscalização séria e pedagógica.

Esta semana fiz mil quilómetros na A1 e não passei por uma única brigada de trânsito. Vi um daqueles Subarus pretos parados na berma à caça da multa.


Com estes teimosos da faixa do meio torna-se mais perigoso e difícil andar lá a 140 do que a 200 na faixa esquerda. Andar dentro das regras a 120 na auto-estrada implica um constante travar e passar para a faixa esquerda, voltar para a direita e ficar mais à frente entalado entre um cretino a 70 ao meio e um caracol a 90 na direita.

Resolvia-se com brigadas activas mas preferem as operações stop gigantes, à noite, nas áreas de serviço. Dá show para a tv e mais receitas.

quinta-feira, março 15, 2007

Imagens do Work-shop de fotojornalismo em Santarém

Sala de espera na Quinzena. Alunas do work-shop de fotojornalismo
Aula de fotojornalismo no Politécnico de Santarém.

Às 5 em ponto da tarde nas Portas do Sol


Mais pareço um caixeiro viajante do ensino.
De manhã tive uma das aulas mais extraordinárias que há muito tempo não tinha: os meus alunos da UAL estiveram em força na aula da manhã. Uma grande maioria de presenças femininas, atentas, interessadas e participativas. Falar de fotojornalismo para gente jovem e curiosa é sempre muito estimulante.

Ainda cheguei a Santarém para a sessão de hoje do Work-shop que amanhã termino no Politécnico com o patrocínio do Observatório de imprensa. Foi também uma oportunidade para rever a Teresa Moutinho e o meu amigo Francisco Sena Santos.

Esta semana de férias no Expresso transformou-se para mim em 5 jornadas de trabalho. Parece que a minha vida mudou e que me tornei num professor a tempo inteiro.
Já tenho saudades do jornal.

Esta introdução ( prometo que não falarei no irracional do Óscar e mesmo que me obrigassem jamais diria que pus gasóleo na Repsol da Segunda Circular) é para me dar balanço para mais umas notas soltas sobre um dia fora de portas, às 5 em ponto, nas Portas do Sol.

Um dia quente, Sol duro a pedir boné.
O jardim das Portas do Sol é dos mais belos do Mundo com aquela paisagem brutal sobre a lezíria ribatejana. Hoje à tarde Moita Flores, Mister President de Santarém, pôs musica barroca no ar, teatro invocando Afonso Henriques, e muitas crianças de escolas a verem teatro e a brincarem. Este homem vai marcar a cidade, não se esqueçam.

Os meus alunos fotografavam e eu acabei com a bateria da Epson RD1. Lá em baixo passam os comboios junto ao Tejo. Há namorados jovens aos beijos, abraços, muito calor e duas jovens de ombros descobertos olham o rio, a paisagem, próximas, intimas, numa pose delicada, entregues ao tempo. Descubro que uma tem Cânon 300D, mais tarde sei que estudam e que conhecem bem os meus alunos.

O ambiente em Santarém é fabuloso. Apetecia ficar ali até o Sol se pôr e depois…Quinzena, essa tasca que me deixou a bater mal de bem.

A fotografia permite destas experiências de vida. Se não fosse pela fotografia que estaria eu ali a fazer de justificável, numa tarde de Primavera antecipada, rodeado de jovens que nasceram depois do Salgueiro Maia ter dado o golpe e que falam no capitão com a admiração e o respeito que se tem aos heróis?

Estes “putos” sabem de tudo e têm uma memória selectiva: Os Xutos são uns cotas, o Veloso um jarreta, o Variações um anarca incompreendido, a ditadura um período negro com Salazar a ser recusado mas de alguma forma entendido nos primeiros tempos de Estado Novo. Entre memórias fazem-se fotografias, filma-se com uma HD e até há quem traga um batuque. Há espaço para beijos furtivos, um namorado que aparece e desaparece. O dia, é o dia que transforma tudo em objectos de desejo.

Há anos aquele local era um ponto de encontro para mim, de encontros fortuitos, com a envolvente cénica de um filme entre o guião de um romance do Eça e uma comédia italiana à Alberto Lattuada. Fantástico! ( só conto nas confissões…ehehe!!)

Amanhã, adeus Santarém.
A vida é feita de pequenos nadas.

Rezar em Santarém

UMA FOTO POR DIA

Igreja matriz de Santarém, ontem de manhã. Foto de Luiz Carvalho

Flash com Maria das Dores e Joana Amaral Dias

As revistas do coração não param de me surpreender. Afinal é para isso que elas servem: para deixarem de boca aberta um contingente de desprevenidos.

Falo do caso da badalada figura que está presa por suspeita de ter mandado matar o marido e que tem um filho de que se suspeita de ter fanado 30 mil ao pai. Uma história triste mas que dava uma sinopse para um excelente filme português filmado pelo Almodôvar. Tem os ingredientes todos: crime, sexo, perversão, infâmia, intriga, ambição...e muito mais.

Bom, que têm feito as revistas que andaram a promover uma empregada bancária, reformada, como uma figura da mais fina casta ? Têm andado a mitificar a presa, e o filho dela mais velho, como personagens interessantes, com história para contar. Estão a ser humanizados, quase perdoados, lavados mais branco, nas páginas rosa.
Daqui a pouco, se não já, estão a torná-los nuns heróis nacionais. Haja decoro minhas senhoras directoras ! Haja bom gosto, e já agora, ética. Gostam muito da Holla, passam a vida a sonhar em fazerem hollas mas na hora...caem no estilo jornal do Crime em versão couchet.

A Flash desta semana já põe o filho a defender a mãe. A coisa está a ficar um Big Breda.

Côr-de-rosa, dois:

Aquela deputada do Bloco de Esquerda, filha do psiquiatra Amaral Dias, que um dia na AR, nos Passos Perdidos, veio ter comigo a dizer-me que estava a invadir a sua privacidade por a estar a fotografar, sendo ela deputada, aparece esta semana na Flash, também nos Passos Perdidos, a posar e a debitar umas banalidades. Uma tontaria de esquerda com laivos populistas.

Depois do fascínio do arquitecto Saraiva pelo mundanismo temos aí mais aderentes: do Bloco de Esquerda às pérfidas figuras de um jet-set decadente, nacional,a bem da Nação.

terça-feira, março 13, 2007

Santarém cresce e aparece

Impressões avulsas de um dia em Santarém:

1- Vai-se de Lisboa a Santarém tranquilamente ( obrigado Bento!) com o cruise-control nos 150 km/hora ( o limite de tolerância nos radares da BT). Passada a confusão da A5, Segunda circular, e troço da A1 até Vila Franca, depois é passeio.

2- Santarém tem novos acessos que põem a cidade mesmo no centro do país. Dali se vai para o Porto, Algarve e Lisboa, em auto-estradas magnificas.( Que diabo nem tudo é mau no burgo!)

3- A cidade está muito bem organizada, nos acessos e, lá no centro, vê-se obra feita. Há harmonia, casas velhas a serem reabilitadas. Sente-se a História e sente-se que é uma cidade habitada por gente de idade e jovens.

4- Moita Flores, Presidente da Câmara, está a arrasar os privilegios dos funcionários camarários mas os habitantes estão a gostar do estilo. Moita dá pimbas, cultura, festa brava. Este fim -de- semana há tourada, tascas improvisadas, festa. O autarca gosta de bons carros mas vai de bicicleta para a Câmara. Quem sabe, sabe...
A cidade vai crescer e parece haver planos para mudar a Praça de Touros e fazer uma nova envolvente virada para a animação. Tintól, touros e tradição. A estátua a Salgueiro Maia está de pé, depois de tirada de um armazém. Foi preciso vir um PPD para fazer o que um PS ignorou. Pagou nas urnas.

5- As igrejas de Santarém são sublimes, as ruas tranquilas, até a luz ajuda.

6- O velho e lindo Mercado Municipal agoniza com a concorrência desleal dos supermercados. SOS: vai fechar em breve, façam qualquer coisa!

7- O incêndio no teatro Damasceno (?), no passado fim-de-semana, é um crime e a recuperação devia ser feita pela câmara respeitando a traça original.

8- A tasca "A Quinzena" é a descoberta do ano ( para mim). Há muito que não comia tão bem, num ambiente tão bom, com um serviço tão bom e por... 7 euros. Verdade! Espero bem que figure no Boacama boamesa.

9- Regressar pela estrada antiga a Lisboa, via Benavente, é outra boa experiência. Os campos verdes, os agricultores a venderem à beira da estrada, as novas construções que revelam a mudança de muita gente para aquela zona está à vista.
É tudo mais barato e a qualidade de vida é muito melhor do que em Lisboa.

A província somos nós lisboetas.

Fotojornalismo em Santarém

Esta semana estou por Santarém a dar um work-shop sobre fotojornalismo e multimédia, patrocinado pelo Observatório de Imprensa. Há dois anos que não ia à cidade, desde um outro curso que ali dei para jornalistas da imprensa regional,e de que tenho agradáveis recordações. Foi uma boa experiência.

Hoje pela fresca andei pelas ruas de Santarém com os meus alunos, com uma média de 25 anos de idade. Uns já concluíram o Curso de jornalismo na Escola Superior em Lisboa, outros tiraram Marketing na Superior de Santarém.

Larguei-os de máquina fotográfica pelas ruas da cidade e passadas duas horas trouxeram-me imagens feitas com espírito critico e de observação visual atenta. Gostei muito e veio conferir o que tenho vindo a defender: a fotografia é para todos tendo cada um de ir avançando pelos vários níveis que a linguagem exige. Na técnica e na cultura de ver, de saber ver, e não ficar só pelo olhar.

Voltarei a falar aqui do curso e tenho fotos para mostrar. Hoje não tenho tempo para uploads.

segunda-feira, março 12, 2007

Há dois anos que nos vimos livres de Santana


O governo de Sócrates fez dois anos. Portugal viu-se entretanto livre dos governos de Durão e Santana. Acabaram os troliteiros da direita, o Portas, o Lampião Félix, a maga patológica das finanças. Passámos pelo vexame de sermos vistos como um país com o governo mais divertido do Mundo, quando Santana brincava a primeiro-ministro e à sua volta todos fingiam que aquilo era um governo a sério. Rábula tamanha só mesmo nos dias finais de Salazar quando ele fazia de conta que governava e os outros à volta fingiam que ele não sabia que eles sabiam.

Passados dois anos, a crise mantém-se, a falta de objectivos políticos também, navegamos como nau desgovernada mas que ainda mantém a costa à vista para se poder orientar.

Sócrates tem sabido como ninguém manter uma imagem que vende bem o governo. Isto é: ele é determinado, corta a direito, mas... para quê ? O que melhorámos ? A educação ? A saúde ? A competência ? A competitividade? As finanças ? O crescimento ? emagrecemos o Estado ? Passámos a pagar menos impostos ?
Quantos portugueses vivem melhor hoje do que há 2 anos ?

Muitas perguntas mais podía fazer e as respostas seriam bastante desoladoras.

Claro que Sócrates é inteligente, culto e veste Armani ( estilo).É uma pessoa frontal e de diálogo fácil, pese embora o seu feitio de animal feroz. Mas os resultados não são
nada animadores: estamos a meio da tabela dos países europeus, estaríamos no final não fosse a entrada dos ex-países de Leste.
Temos o melhor pagamento multibanco, a 4ª taxa de mortalidade infantil mundial, a melhor banca em eficiência, temos ilhas de sucesso que bem aproveitadas podiam fazer de nós um país com pernas para andar. Para isso não basta mudar de governos, temos de mudar todos, a começar pelos empresários, os trabalhadores, os criativos. Todos.

PS: Portas e Santana, quais mortos-vivos ameaçam saír dos caixões ! Vai ser gozar vilanagem !

50 anos, 50 reportagens

5o reportagens para 50 anos é um programa muito bom da RTP. Hoje deu a reportagem feita em Angola logo no inicio da guerra, Lá estavam as imagens notáveis do câmera António Silva. Não percebo como se fazia naquela altura televisão daquela qualidade. E, meu caros, aquilo era filmado à mão, sem tripé, em cima da acção. Neste aspecto a televisão regrediu. A forma burocrática como as televisões hoje fazem reportagem é lamentável. Perdeu-se a emoção, o sentido do momento, o risco.

O que fica dos jornais


No rescaldo do fim de semana fica-me sempre o turbilhão de notícias, reportagens, entrevistas, crónicas, fotografias, que me entram pelos olhos dos diários e semanários que junto para ler nos dois únicos dias em que ainda tenho algumas horas tranquilas.

Que retive de tanta leitura ? Pouca coisa. No New York Times fizeram a experiência de fechar numa sala 20 leitores típicos do jornal durante uma hora. No final convidaram-nos para falarem do que tinham lido. A maioria dos leitores terá fixado duas notícias no máximo.
Eu tenho um olhar mais analítico, deformado pela profissão.
Começo pelas fotografias, e sem esforço de fixar espero que alguma me prenda o olhar. Rara é a fotografia que me faz parar. esta semana senti um especial contentamento ao ver o Expresso no sábado.
Comprei-o em Estremoz no café onde para o meu ex-director. Enquanto lá estive ao balcão a comprar jornais venderam-se 3 Expressos e 1 Sol. Está mais ou menos na relação de vendas de um para o outro, com contas optimistas para o Sol.
Não vi o arquitecto Saraiva com o tal casaco amarelo oferecido na bomba da Galp da 2ª Circular e que ele confessou ( e ameaçou!) usar ao fim de semana.

Adiante. O meu contentamento ao ver o Expresso foi a magnifica mancha de fotografias ao longo de toda a edição.
Privilegiámos
a fotografia em todos os cadernos e as fotos do primeiro e da economia estavam soberbas. São boas e são grandes , não são boas porque são grandes.
Nesse aspecto acho que jornais como o Público vão no mau sentido. Usam a fotografia como uma decoração, sem edição, sem intenção, nem critério. Buscam umas fotos nas agências e toca de estender o lençol. Por outro lado a fotografia produzida pelos fotografos do Público desaparece, não funciona como informação, nem atracção.
Até o nome dos fotografos ficou tão reduzido que ninguém lê.

O guru que desenhou aquele entulho gráfico matou a fotografia.
Aliás, diga-se em abono da verdade, e será um tema muito interessante para debater, a ditadura gráfica que mete no mesmo saco fotografia, infografia e design reduz a fotografia a mais um elemento gráfico, o que não pode ser.
Fotografia é informação, não decoração.

Para não me alongar.
Gostava de referir a crónica do Miguel Sousa Tavares sobre as empresas portuguesas que ainda acham que os salários de miséria é que dão lucro ( como a Amorim),e a entrevista de José Miguel Júdice na ÚNICA.

Amanhã inicio em Santarém um Work Shop sobre fotojornalismo e multimédia. Darei aqui noticias dessa semana que vai decerto ser muito estimulante.

sexta-feira, março 09, 2007

Dia da Mulher em mini-saia


Detesto " dias internacionais de..". Pertenço a uma geração que apostou na eliminação dos dogmas, do instituído, de tudo o que cheirasse a convencional.

Cresci a contestar os pais, a família, a igreja, a autoridade, o casamento. Comecei a ser contestario quando decidi faltar à comunhão solene apesar de ainda ter feito a primeira comunhão. Via na catequese um passatempo, na missa um espectáculo, no ser menino do coro uma oportunidade para ser artista.

Os tempos eram muito diferentes: mais tristes, repressivos, intolerantes, convidando à transgressão, ao pecado. Beijar uma miúda nas escadas escondidas da Igreja S. João de Brito às sete da tarde ( hora de ponta) quando quem passava não via nada, era perigoso e excitante. Mal eu sabia que do outro lado, a 30 metros, morava o escritor José Cardoso Pires!

Adiante. Hoje é dia da Mulher e, francamente, é uma solenidade que me irrita. Dia da Mulher são todos os dias. Esta festividade começou a ser feita pelos comunas através do MDP-CDE e daquelas organizações de mulheres com buço, de esquerda, e ( vejam bem !) foi reaproveitada pelo mercado capitalista e pelos politicamente correctos do reino para fazerem da ideia uma jornada de demagogia, consumismo e a oportunidade para uns patetas comprarem umas flores à pressa nos centros comerciais para bajularem as queridas ao anoitecer.

Quando me falam de "dias de..." ponho logo a mão na carteira. Vai haver gastos extra sem retorno nem sentido afectivo.

Claro que isto cai mal naqueles que hoje se transformaram nuns piegas políticos. Trocaram a ideologia pela caridade, a coragem da contestação pela lamecha.

Mas não ficaremos por aqui este mês, vem ainda aí o Dia do Pai.

Com todo o respeito pela Mulher, que eu admiro e amo, sou mesmo crente praticante, acho que Ela merecia uma melhor forma de comemoração.

Saúdo o regresso da mini-saia, uma moda que tinha caído no esquecimento. Está de volta e recomenda-se. Faz bem ao olhar, alimenta o ego das nossas queridas mulheres. Bem o merecem.

quinta-feira, março 08, 2007

5o anos de RTP

A RTP fez 50 anos. Vi o fim do espectáculo em directo do Coliseu dos Recreios em Lisboa. Um final triste e decadente com algumas figuras do antigo regime, mas também consegui ver imagens espectaculares do passado. Aquele Citroen 2 cavalos com o logo da RTP a avançar pelo meio da enchente no Ribatejo com uma cãmera em cima a fazer um travelling é do melhor que tenho visto.Televisão com fibra.
Gosto sempre dos decanos como o Luís Andrade, um homem que me inspirou desde muito novo, depois de ter visto uma entrevista sua no ZIP-Zip, programa que ele realizava com grande mestria.
Há por ali muito talento e uma memória do país fabulosa.
Oxalá nós saibamos preservar o nosso tempo como aqueles homens o souberam fazer. Augusto Rosa, Augusto Cabrita, Fernando Lopes, António Silva ( câmera) e muitos, muitos outros.
Parabéns.

A arte do lavtatório


menosketiago disse...

É triste que uma pessoa bem formada e professor universitário comente desta forma uma noticia e insulte escabrosamente um colega docente na Faculdade de Belas Artes.

De facto entristece-me ver a ignorância revelada pelo teor dos comentários. A situação em si da pobre senhora é mais que compreensivel e expectável, visto que a arte após o seculo XX tornou-se entroptica até para pessoas educadas como o autor deste texto, quanto mais para pessoas simples e pesasorasamente excluidas da cultura.

Deixe-me só referir que a obra não é um "lavatório", é um lavtatório sim, mas onde houve uma intervenção de modo a quebrar um dos seus cantos, deixando os cacos dessa intervenção no espaço em que foi inserido esse sanitário. Ora o teor da arte neste caso não é escultorico, a arte não é o lavatório, mas sim aquilo que podemos extrapolar da colocação não funcional de um lavatorio quebrado num espaço expositivo. Não conhecendo o artista não lhe posso adiantar significados conceptuais, mas sendo este um poeta digo-lhe que o significado desse lavatório é aludir a um conceito...

Posso por exemplo sugerir que a obra simboliza o carácter decrépito dos lugares comuns em que pelos vistos você decidiu enferrujar a sua mente...

terça-feira, março 06, 2007

Monica Bellucci no seu melhor

E para desenfastear Monica Bellucci

O canto do Sardo

Icnologia - diz ele

Esta iconologia do intervalo deriva de uma necessidade de compreensão da arte como uma zona de não-fixação, entre impulso e acção, fora de qualquer fixação formal, como estigma de um movimento. No entanto, a nossa percepção do movimento não nos permite ver a impossibilidade da sua representação. Delfim Sardo


Sem comentários !!!!!!!!!!!!!

Foto do dia: O canto do Sardo apetrechado de papel para higienizar idiotas. Peça a ser exibida na Bienal de Veneza dos lobistas.

Tudo sobre Sardo, todos contra Sardo

Passo a palavra aos visitantes do Instante Fatal:

Escreveu aqui Rodrigo Cabrita:

Quero falar-vos de uma história que se passou comigo a propósito deste senhor. Um dia tinha na agenda ir fotografar o então homem-forte do CCB, Delfim Sardo. Recordo-me agora depois de ler todos estes teus posts que o mesmo, em declarações à redactora do DN, disse convictamente que iria acabar com o WPP no CCB. Disse-o com um desprezo e uma crueldade tão fria como a careca dele. E estranhei. Afinal, e pela boca dele, aquela era somente a exposição que mais visitantes dava ao CCB. Mas então o porquê de acabar? Confesso que na altura fiquei desapontadíssimo, iria deixar de ter o meu ritual anual para ver tão mediática exposição embora da mesma forma que fiquei desapontado, também pensei que o tipo não era bom da cabeça e dei-lhe o devido desconto. O facto é que a exposição por lá ficou...para bem de todos nós e provavelmente para mal dele. Nunca esqueci a forma dura como se referiu ao evento. Deparei-me hoje com estes textos e passado todo este tempo, percebo que aquilo não era inocente. Fico triste, mas enfim...são opiniões. Recordo-me posteriormente à sua entrevista, a forma como me tratou quando foi preciso fotografar uns meses depois uma artista no CCB. Disse-me: "Epa, a não sei quantas está acima de nós por isso não a incomodes, é uma grande artista". Fiquei parvo. Disse-lhe que acima de mim só Deus e que no resto somos todos seres humanos iguais, além de que se a sra é uma grande artista, então que se comporte como tal! Por várias razões: 1) Para ficar bem na foto fazendo o que lhe peço ; 2) Para quando colocarem meu nome no jornal ser associado a qualidade e não ser apenas mais uma foto e 3) Se ela e você, não estiverem de acordo, digam-me já e vou embora! Mandem CD pela minha colega e ficamos amigos! Minha colega não sabia onde se meter e ele percebeu, pelo menos naquele momento, que não estava ali para brincar. Fiz o trabalho e felizmente ficou bem, mas podia ter ficado melhor se não "falasse" com a artista de modo a ela não aceitar mais fotos. Do melhor...Estes posts apenas me reavivaram a memória para algo que até já tinha esquecido. O respeito que eu tenho pelo trabalho do Sr. Delfim é proporcional ao que ele tem pelo meu ( fotojornalismo ) ou seja 0!!! É a minha opinião, assim como ele tem a dele. Luiz, um grande abraço e continua a fazer deste blog, um GRANDE blog!

Escreveu aqui Mário:

Não há problema nenhum em misturar linguagens, como não há problema nenhum em manter essas linguagens separadas. A questão aqui tem a ver com a incapacidade de muita gente de ver valor em abordagens diferentes. Não precisamos de conhecer a história da fotografia ou das artes plásticas para fotografar, embora ajude bastante, agora para comissariar exposições isso já me parece necessário, assim como uma boa dose de humildade, o que não me parece que aconteca com a pessoa em causa.O que eu vejo aqui é mais uma variante da exclusão social, neste caso aplicada à fotografia. Num plano "superior" (segundo o que se depreende) estarão os "artistas" e depois lá para baixo vêm os fotojornalistas e ainda pior os "amadores". Tudo o que se move abaixo do seu plano iluminado não existe e é apenas pó que acabará por ser soprado pelo vento.Ora assim como é possível tirar gozo estético de uma música de Perotin ou de um rock and roll dos Ramones, também é possível apreciar fotografias produzidas para objectivos muito diferentes, tal como o pepper #30 de Weston, as fotos do Ruanda de Natchway, ou os retratos de Karch.As artes não podem ser um campo de exclusão, baseado em considerações económicas ou de "classe", é o que eu defendo.Há valor em todos os campos artísticos, porque em todos há pessoas talentosas e preseverantes, mas também há muitas fraudes e vaidade humana, e é dessas que nos devemos afastar.


Escreveu aqui Bimooth:

Concordo inteiramente com o comentário de Mário. As modernas formas de expressão artística deixam-me muitas vezes com esta dúvida: sou eu que não percebo ou alguém está tentar enganar-me, sem sucesso? Penso que a melhor forma é deixarmos que a nossa intuição fale. Assim, entendo a arte como aquilo que me estimula os sentidos e a imaginação. Deixar os limites da arte no campo do subjectivo: o que é arte para mim, não será necessariamente para outros. Admito que isto se complica quando há prémios e subsídios envolvidos. E é preciso haver cuidado nos critérios a usar. Parece que hoje, em certos meios, reinam os intelectualóides, que, numa obscuridade que os esconde do cidadão comum, põem e dispõem de recursos que, melhor distribuídos, poderiam estar a fertilizar uma população que já deu grandes provas de ser criativa. E não estou a falar só de dinheiro. O mais importante seriam as oportunidades de pelo menos ser-se visto (fiquei curioso quanto ao trabalho referido da Susan Meiselas, onde poderá ser visto?). Em tempos idos, tivemos alguns grupos de pessoas, que inovaram no campo artístico. O Almada Negreiros fez umas coisas bizarras na sua juventude (aquela conferência, onde aparecia grotescamente vestido, o Manifesto, A Invenção e por aí fora. mas tinha o objectivo de interpelar a sociedade. E a coragem para o fazer. Hoje, certas correntes da «arte» parecem-se mais com pequenos parasitas discretos, que vão sugando aqui e ali...

Escreveu aqui Nuno Amaro:


Fiquei com a sensação que o próprio Delfim Sardo se arrependeu imediatamente do que disse. Mas o que não falta por aí é gente que fala sem pensar. Tenho ideia que o mundo é feito de equilíbrios e que, para existir o belo, tem de existir o feio. Se não fossem os paparazis, nunca veríamos uma Britney careca a partir um carro com um guarda-chuva. E imagens destas também têm o seu valor. Pouco, mas têm.Cumps.

212 à hora rematou:( cuidado porque este tipo é polícia!)

O meu conhecimento de fotografia vai pouco mais além de distinguir um sardo de um robalo (ou de uma tainha), como confesso abaixo.Gosto deste blogue, sobretudo, pelas "provocações com afecto" e de algumas sem afecto, diga-se em boa verdade.Por isso, parto-me a rir com alguns dos posts (por acaso, também vi o programa e o discurso cheirou a "intelectualóide"... mas, aqueles olhos da Paula Moura Pinheiro até põe um homem... cego).E porque gosto do blogue pelas provocações com, ou sem, afecto, não posso de deixar de apreciar a "bestiola" do Luís de Carvalho, já que diz o que tem a dizer, embora ás vezes passe as marcas, mas sempre de cara aberta, com frontalidade. Tomara eu poder fazer o mesmo..., sem correr o risco de me acontecer como ao Hélder Fráguas, do Aqui e Agora.


Paulo Sousa também comentou:

Isto dá pano para mangas!

É claro que existem pessoas que utilizam a fotografia como "um fim" e pessoas que utilizam a fotografia como "um meio".

E cada vez que leio mais, mais baralhado fico.

Por exemplo, como o Jorge Calado referiu numa das ultimas aparições da secção BesArte da revista do expresso, em relação a uma fotografia de Benoliel, escrevia ele que "Esta fotografia vale um tesouro. É, portanto, arte."

Recentemente tivemos a atribuição do "maior prémio de fotografia do país, o besphoto. Mas maior em que sentido? Do valor monetário, claro. E isso é Arte. Se vale tanto, é arte.
Mas este prémio também pode ser visto de outra forma: não se está a premiar arte fotográfica mas está-se a atribuir um valor a umas coisas que dizem ser "fotografia". E se aquelas "obras" valem assim tanto, então são arte, concerteza. O valor que o bes atribui é que lhe concedeu o estatuto de "arte".

Estou desgraçado. Nunca vou conseguir fazer arte. Não consigo que alguém atribua um valor monetário ao meu trabalho. Ninguém daria um chavo pelas minhas fotos...

E como escreve Alexandre Melo num dos seus livros, "Porque é que há obras de arte que custam uma fortuna? Porque há quem esteja disposto a pagar uma fortuna por elas. Pode até acontecer que um pequeno grupo de pessoas esteja disposto a pagar qualquer preço por obras que a esmagadora maioria não quereria nem dadas."

E Fernando acrescentou:

Luiz, veja então isto...o homem que pregou tanto sobre o sistema de zonas do Ansel Adams...vai-se a ver e é uma farsa...as fotos não têm preto nem branco, são apenas cinzentos vários...logo cai por terra todo aquele discurso...só dá vontade de rir (ou chorar)
Veja então aqui

E meu caros para animar a festa hoje à Blaufuks na 2 com a Ana Sousa Dias ( por acaso irmã do fotógrafo Pedro Sousa Dias e tia do Tiago, filho do Pedro).

Haja Besphoto. Amen







Não é só o Sardo que não gosta de fotojornalismo, alguns soldados americanos também não

Veja aqui.

segunda-feira, março 05, 2007

Delfim Sardo gosta de lavatórios como obra de arte


A arte que Sardo defende pode ser um...lavatório.
Tendo ele seleccionado como comissário para uma exposição sua um lavatório a empregada da limpeza não esteve com meias medidas e deitou-o para o lixo.

Mais culta do que o Sardo fez o que tinha a fazer: reduzir á sua verdadeira dimensão os critérios idiotas da bestiola.

Que nunca lhe doam as mãos !

Veja aqui a história.

Eu por mim elegia uma retrete e deitaria com um daqueles dilúvios potentes, cano abaixo, aquelas fotografias escolhidas por Sardo. Era um alívio para os olhos, claro.

Uma fotografia é uma fotografia


A fotografia não se resume ao fotojornalismo.
O exercício da expressão, o uso dos suportes disponíveis, qualquer que seja é livre.
A fotografia não é um dogma e ser fotógrafo não é seguir esta ou aquela cartilha.
É tão legítimo fazer reportagem, como retrato, fotografar em película ou em digital, usar instantes decisivos ou praticar poses longas.
A diversidade de estilos, estéticas, tendências, acabam por constituir a riqueza e o fascínio da fotografia.
Mas há uma condição para uma fotografia ser uma fotografia: coerência, estrutura narrativa, técnica, intenção, olhar, domínio da luz, cultura fotográfica.
Quando participei em 1982 no Mois de la Photo, um dos organizadores ao ver as minhas primeiras impressões não hesitou em me criticar: " podes fazer o que quiseres mas a qualidade técnica, o acabamento das fotos, tem de ser irrepreensível!". Tinha razão.

Ora, eu não critico os artistas plásticos por usarem o suporte fotográfico, tal como não critico a polícia por fotografar os suspeitos; só que uns e outros estão a usar a técnica fotográfica, não estão a usar a linguagem da fotografia.
Até podemos achar que esses retratos da polícia constituem um património valioso, e no limite artístico, como aconteceu agora com fotos antigas recuperadas, mas devemos manter alguma prudência, porque corremos o risco de perdermos critérios, referências.

Por exemplo a Helena Almeida faz instalações muito curiosas, e que gosto, depois o marido fotografa-as mas aquilo não é fotografia. São instalações fotografadas. Ela insiste que não faz fotografia mas os critícos insistem que ela é fotografa.
O que é definitivamente aberrante é aparecerem personalidades que desconhecem a História e a linguagem da fotografia e por arrogância decidem assumir que a fotografia e o seu exercício são práticas desprezíveis porque a fotografia não deve ser a representação da realidade e qualquer realismo ou relação com a verdade do real é uma fraude.

Para estes gabarolas o que conta é a colagem da fotografia à pintura e ao lobby das artes plásticas. Veja-se o caso do Molder: um pintor frustrado que tem sabido gerir uma carreira assente nos lobbys dos comissários e que é tão fotógrafo que nem sequer tira aquilo que ele chama de suas fotografias. É caricato, ridículo, mas é o que colhe em meios tão errados como o BESphoto, outra aberração cultural. Mas pegou, é um facto.


foto de Man Ray

Quando o Sardo deita postas de pescada


Ainda a propósito do programa Câmara Clara sobre fotografia com a presença do Sardo e daquele que será o Ansel Adams dos pobres.

O Sardo é uma daquelas figuras que pululam na "cultura" portuguesa, um daqueles idiotas úteis para servirem de burocratas aos designios artisticos daqueles que têm de mandar na cultura e não sabem como.

Este Sardo veste um fato preto, monta um daqueles Land Rover que a Expo 98 gostava de dar aos burocratas ( não sei se é o caso), rapa a môna, fala entre dentes e está feito um inteligente citável. Depois de se ligar ao lobby do Molder, desata a vomitar ódio sobre a fotografia e o fotojornalismo.

Quando o Gerard Castello Lopes expôs no CCB era a bestiola director. Mas ao ter convidado várias personalidades para um debate sobre fotojornalismo, entre os quais estava eu, o Jorge Calado e o próprio Gerard, o excelentissimo faltou numa total falta de respeito e falta de coragem para participar no debate. Voilá...

Quando entrevistei a Susan Meiselas para o Expresso e lhe perguntei porque não estavam as suas melhores fotografias no CCB, sobre o trabalho que tinha feito na Cova da Moura, ela respondeu-me que a escolha tinha sido...do Sardo. Ao qu`isto chegou!

Quer dizer: o tipo não enxerga um boi à frente do que é fotografia mas tem a suprema lata de se armar em tutor, editor e censor de uma personalidade tão notável como a Susan Meiselas. Depois vem à televisão arrotar postas de pescada sobre fotojornalismo.

sexta-feira, março 02, 2007

A bestiola

Perdeu-se hoje na RTP-2 uma boa oportunidade para se falar de fotografia.
Paula Moura Pinheiro quis meter o Rossio na Betesga e fazer, em alguns minutos, um programa sobre fotografia total.
Quem convidou ?
Uma das betesgas que mais sussura sobre arte, o inefável Delfim Sardo, cúmplice de Molder, e um desconhecido: Eduardo Veloso.
Pelo que ouvi trata-se de um amador que parou no tempo do Ansel Adams e pelo que vi tira umas fotografias paradas a preto e branco, sem o rigor do mestre venerado, nem o talento que seria de supor ouvindo a sua capacidade de citador.

Depois de várias peças sobre vários géneros fotográficos, depois comentados pelas sumidades convidadas, que iam despejando banalidades ou inventando teorias como as da relação fotografia- cinema ou pintura-fotografia, a cereja em cima do bolo veio da boca de Sardo que acha que o fotojornalismo está no limbo do que os paparazis fazem. Ele que foi programador no CCB, tem o descaramento de insultar o fotojornalismo e de pôr em causa a honra e a ética de quem exerce a profissão.

Pinhólas fica ao rubro, engole em seco, e ainda consegue vir em socorro dos colegas jornalistas-fotógrafos lembrando à bestiola que muitas das fotografias do World Press Photo conseguiram com a sua força documental tornarem-se em baluartes da defesa dos Direitos Humanos.

quinta-feira, março 01, 2007

Lisboa-Coimbra on the road

A "nova" Coimbra, hoje. Foto de Luiz Carvalho
1-Hoje pela manhã calmamente saio de Lisboa a caminho de Coimbra. Junto a Vila Franca de Xira, na A1, uma bicha de quilómetros de carros e camiões para entrarem na ponte .

Os governos passaram a considerar que não vale a pena investir em estradas e pontes sem portagens para quem trabalha. A velha ponte, do tempo do Salazar, já não aguenta tanto tráfego e a recta do cabo está obsoleta. Quem se preocupa? A economia ali parada. Quantas horas não se perdem em produtividade?

2- Coimbra está cheia de circulares e pontes. Muita construção imobiliária. Uma cobertura gigante à entrada corta a tradicional vista sobre Coimbra.
Alguém se preocupa? Para quê?

3- Regresso pela N1 até Leiria. A velha estrada que tanta lembrança me traz das minhas viagens de infância no Morris 8 do meu pai entre Torres Novas e Viseu, está devotada ao abandono. Parece a terra abandonada do filme Cars, versão portuguesa. O Estado abandonou a estrada principal, a espinha dorsal do país. Se há auto-estrada para pagar para quê a N1?
E já agora: para que pagamos impostos, IA, imposto de circulação e outras alcavalas ?

4- É bom mergulhar às vezes no país real.

Do dia ficou-me a agradável estadia na Quinta das Lágrimas a fotografar José Miguel Júdice e o agradável almoço para o qual ele me convidou.
E mais não digo.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Um dia diferente dos outros

Uma manhã em exames de rotina no hospital não é muito agradável.
Primeia chatíce: tem de se entrar em Lisboa.
Uma hora aos solavancos dentro do carro.
Depois encontrar lugar para estacionar, antes uma jante cai num buraco, coisa que não me acontecia há anos.
Lisboa está escalavrada mas...calma lisboeta !! O presidente Carmona andou a lavar as paredes sujas de cartazes no Rossio. Este tipo devia ter vergonha na cara mas pelos vistos estes políticos perderam-na e continuam a gozar com os idiotas que votam neles.

Já no hospital há que esperar pela vez, mas como é um hospital particular a coisa é rápida, eficaz. Porque não são assim os públicos ? Ou não será que custam mais a sustentar que os privados ? Abstenho-me de entrar naquele tipo de pormenores que fariam as delícias do meu homólogo arquitecto.
Só vos digo que não é agradável fazer ecografias, mesmo não estando grávido, e o pior é a prova de esforço, não pelo barulho infernal de uma broca das obras que por ali trabalhava
( talvez a mesma que me ia estragando a estadia no hotel de Bombaim!) mas pela trabalheira.
Correr 15 minutos até atingir as 140 pulsações por minuto, é pior que um Porsche às 5 mil a gastar 15 !!!
Se estando saudável - ao que parece- o que será estando doente!
Deus ( esse mesmo) nos poupe a sofrimentos. Haja saúde, a coisa mais sagrada.
Desculpem a banalidade.

De regresso ao jornal assisti do alto do varandim do edificio Impresa
( belissímo) à apresentação da nova Visão. É um projecto bonito não sendo uma ruptura com o anterior. Felicidades malta e um grande abraço ao Pedro Camacho e à minha querida amiga Claúdio Lobo.

Vi o video feito pelo Marco Grieco e pelo João Carlos Santos sobre a evolução do grafismo do Expresso, que vai ser apresentado em Viena de Aústria num encontro de design onde o Expresso ganhou este ano...14 prémios e já no ano passado tinha marcado pontos.
É espantoso como nós no Expresso já conseguimos os meios humanos, conhecimentos, entusiasmo e paixão por esta linguagem. Claro que fui eu que comecei, mas a coisa já anda por si, o que não deixa de ser gratificante para mim.

Deu ainda para ver o resultado final da ÚNICA já fechada. Linda a capa com...senhoras e senhores a grande atracção Paula Lee fotografada pelo Jordi Burch! Foi um trabalho que me fez ganhar a semana.

Acabei o dia na minha aula de fotojornalismo. Falei da coisa em si e das ligações perigosas às outras plataformas.

Amanhã Coimbra comigo, para um dia diferente.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Porque devem os jornalistas ter blogues

Listam-se aqui algumas razões para que os jornalistas escrevam blogues:

- Melhora a escrita.

- Atrai e envolve o público.

- Oferece um melhor entendimento do mundo digital.

- Ajuda a desenvolver alguns conhecimentos técnicos.

- É divertido.

Concordo com tudo. Mas, do que tem sido a minha experiência, acrescentaria:

- Ajuda a mantermo-nos a par dos assuntos que se desenrolam gradualmente. Já várias vezes publiquei no blogue informação que recuperei para escrever um artigo.

- Traz à atenção (através de comentários dos leitores, de referências cruzadas ou simplesmente da procura de algo sobre que escrever) assuntos que passariam despercebidos. Escrever um blogue e estar atento à blogosfera é uma excelente forma de descobrir estórias interessantes ou de obter algumas pistas úteis.

- Permite conhecer possíveis fontes. Ter um blogue permite-nos conhecer outras pessoas e permite que elas nos conheçam. É mais fácil abordar alguém que pode ser uma fonte quando esta pessoa segue aquilo que escrevemos - mesmo que nunca tenha havido um contacto directo.

- Permite um registo diferente do da escrita profissional.

- Ensina a comunicar eficazmente na Web.

João Pedro Pereira

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Um Óscar para Alberto João Jardim, JÁ!...

Foto de Luiz Carvalho, 2005.

Em 1989 fui à Madeira fotografar Alberto João Jardim.

A primeira foto começou bem: o chefe do governo regional ia inaugurar uns metros de estrada que acabavam em nenhures. Havia uma banda de música à espera, crianças vestidas de domingo, povo real. Alberto João andou uns metros a pé, cortou uma fita e, sem pejo, emborcou directamente da garrafa um espumante de método champagnês.

Fiz uma sequência fotográfica sem que ele tivesse tido qualquer complexo em posar naqueles propósitos mesmo sabendo que eu era do Expresso, portanto: um fotógrafo cubano. A foto foi capa da revista do Expresso ainda no tempo do grande formato. Lá dentro havia fotos da realidade social madeirense, imagens de uma Madeira rural e pobre onde o folclore para turista ver se misturava com miséria. O Jorge Van Krieken, que escreveu a reportagem - e de quem Jardim dizia que tinha um nome pornográfico – não desarmava enquanto não encontrasse vestígios bárbaros da governação madeirense. Na altura, era fácil encontrar na Madeira trabalho infantil, pedofília, bairros miseráveis, pobreza mesmo. Mas o Continente também não fugia à regra.

Anos depois ainda o fotografei para uma entrevista, que ele acedeu em dar com relutância ao Expresso, depois do trauma que lhe terá deixado aquela reportagem do Krieken.

Quando Sampaio visitou a ilha em 1997 numa Presidência Aberta, Jardim mandava-me bocas pelo facto de ser do EXPRESSO, provocatório mas também divertido, o que para certos jornalistas teria sido uma ingerência intolerável na liberdade de imprensa.

Eu ria e respondia-lhe com sorrisos, enquanto o ia apanhando em poses caricatas.


Chegou a pedir-me para o fotografar ao lado de Sampaio num instante de convivência institucional eterno.

Há dois anos voltei para uma entrevista de vida para a ÚNICA. Ao propor-lhe segui-lo num dia de inaugurações, aceitou de imediato.

Já me conhecia e, talvez pelo facto de eu nunca ter afinado com as suas provocações, permitiu logo uma certa empatia. No final da entrevista, ao saber que gosto de charutos, ofereceu-me um cubano (dos verdadeiros, do Fidel) com uma cinta em que estava gravado o seu nome. Simpático. (Oxalá o Óscar Mascarenhas, que é o controleiro do sindicato, não leia esta crónica !!).

No dia seguinte viajei no lugar do morto no seu Mercedes E320.

O motorista acelerava bem, mostrando um perfeito conhecimento das curvas e contracurvas da ilha, num rally que nos levou a lugarejos perdidos, em escarpas como presépios.

Durante a viagem falou-me na sua admiração por Fidel e Chavez e da embirração antiga pelo cavaquismo. “ O Cavaco sempre se fez rodear por uns tipos pretensiosos e carreiristas. Um dia em S. Bento veio um engravatado ter comigo, apresentou-se dizendo que já tinha sido secretário de estado, que tinha feito um doutoramento no estrangeiro, todo basófias em bicos de pés. Eu disse-lhe: você não tem idade para ser governante! Sabe porquê? Porque com essa idade ainda não deve ter aprendido a beijar uma mulher como deve ser! O tipo desapareceu logo dali”.

Ao longe, já se avistava uma multidão. A banda arrancou com o fungagá e ele, saindo do carro em passo firme, começa a cumprimentar toda a gente, tratando muitos dos presentes pelo nome próprio. Quando sente o cheiro do povo parece que se transfigura. Passa de um discurso afável e confessional para uma atitude tensa, controlada e certeira.


Trata todos por tu, pergunta por familiares, refere pormenores que mostram estar a par de pequenas coisas do dia- a -dia da comunidade. Aproveita para dizer mal do oposicionista local, gozando-o. Bebe uma cerveja, petisca um pastél de bacalhau, arranca para pregar noutra freguesia.

“Nunca dou dinheiro a ninguém para esbanjar em tabaco e bebedeira. Esta gente acaba por perceber que assim pode viver melhor”. As palavras faziam este sentido e na verdade tudo o que ele inaugurava ia ter um reflexo real na vida real das pessoas. Habitação social, estradas, lotes para novas casas, escolas.

Desenvolvimento. Parece ser a obsessão dele, mesmo que cobre isso caro, com controle na liberdade de expressão, na imprensa local, nos organismos governamentais. É o conformismo subserviente do padrinho mas que emprega milhares. É o populismo em forma de Jardim.

A oposição encolhe-se, perde margem de manobra, parece que Jardim tem um ascendente sobre quem o rodeia. A verdade é que a oposição fica às aranhas com a sua descontracção, à vontade, e arrogância natural.

Numa das paredes do Palácio do Governo um mapa com todas inaugurações previstas até ao dia das eleições mostrava o plano da pólvora para ganhar. Tudo preparado ao pormenor, assessorado por uma equipa eficaz que na sombra não falha nada.

O homem que gosta de noitadas confessava-me que era uma "chatice" ter de ir visitar Mota Amaral aos Açores, quando este era seu homónimo. “ O Mota Amaral quase não me deixava sair do palácio. Eu saía na mesma. Um dia queria jantar às dez da noite e estava tudo fechado em Ponta Delgada. Comecei a andar pelas ruas e descobri uma tasca, bati à porta, e fiquei lá a petiscar com uma malta divertida da TAP.
O Mota Amaral se soubesse!”. Depois referiu o célebre trocadilho da «Opus Day» e do «Copus Night».

Fotografar Alberto João Jardim é estimulante. Comporta-se frente às câmeras como Mário Soares: nada o inibe e acaba por ficar sempre bem no retrato. Tem outra característica comum ao seu ex-arqui-rival: sente a câmera, e sem a olhar sabe onde está. Como os grandes actores.

Um Óscar para ele, já !...

Carolina Salgado em poses eróticas

O autor das fotos é Pedro Ferreira que eu muito prezo e admiro. A modelo é uma surpresa. Depois destas fotos palavras para quê ? Carolina corre o risco de se ultrapassar a si própria. Com imagens destas quem vai ter tempo para ler as suas tiradas ? Vejo eu de que...

domingo, fevereiro 25, 2007

UMA FOTO POR DIA


Helmut Newton porque hoje é sábado.

Um poema por dia


Podia disparar ao foco de mar,
apenas porque o frio desenhava o azul.
Voltaria depois da madrugada,
da geada e da canção, com maçãs de amar.
Encartado na doce voz de quem pariu sem prazo
e voltou num som fundo e cavo.
Chorando, chorando, como na canção, na fita curta.
Abandono sórdido e total,
na pérfida cantiga de embalar com cães danados ao acordar.
Havia uma negra de poema aberto,
como tudo o que acaba numa fraga.

Judite Cascais

sábado, fevereiro 24, 2007

À primeira qualquer cai, à segunda cai quem quer


Hoje de manhã fui atacado em pleno Oeiras Shopping por dois vigaristas, à luz do dia com o consentimento do Centro. Um era do Citibank tentando pela enésima vez que eu subscreve-se um desses malfadados cartões de crédito, o outro era uma simpática menina que me pedia dinheiro para uma causa nobre, sabendo nós para onde vão a maioria dessas colectas. Recusei logo as duas abordagens.
Já é mais irritante andar nos centros comerciais do que na Rua Augusta.
Pedintes não faltam.

Por princípio nunca aceito propaganda que me dão quando estou parado nos semáforos, recuso falar ao telefone quando me ligam para casa sem conhecer a pessoa em causa,( ameaço mesmo fazer queixa da TV Cabo, bancos e outros que me ligam usando a minha ficha de cliente), não respondo a inquéritos na rua nem pelo telefone, desconfio dos carros que se colam ao meu na auto-estrada, sobretudo à noite, pois pode ser a bófia ou outra malandragem, qualquer carro parado numa berma pode ser radar da polícia, logo travo, tranco as portas do carro, quando ando de máquina fotográfica na rua tenho o hábito de controlar quem vem atrás de mim, nunca passo um sinal verde sem confirmar que não há um louco a passar com o vermelho ( essa precaução já me evitou dois ou três acidentes de mota) mas... nunca se sabe quando se poderá caír na esparrela de polícias, ladrões ou congéneres. E não sou paranóico !! Verdade.

Hoje em dia somos assaltados pela Tv Cabo, pelo nosso banco ( o BES teve a lata de me debitar 15 euros por mês por um VISA que não lhes pedi nem os autorizei a cobrar),
pela EMEL ( um escândalo este das multas e bloqueadores que ninguém contesta, onde estão os cidadãos deste país?), pela BRISA ( pago tanto para saír no Estoril como em Cascais!), pelo Estado etc, etc, etc...

Não me admira portanto a confissão do meu antigo director, um reincidente em aventuras recambolescas.
É fácil ser-se vitíma.
Há uns 15 anos em Paris caminhava à noite sózinho perto da Ópera. Ia calmamente para o meu hotel. Um taxista pára e pergunta-me para onde vou, digo-lhe que não preciso de táxi, estou a 500 metros do hotel. Ele insiste. Entro e ele convida-me de seguida para beber uma "biére" num bar ali perto que diz ter muito bom ambiente.
Nunca me imaginei a ir beber um copo com um taxista, mas o tipo era simpaítico e tinha um ar civilizado. Porquoi pas ?Açeito por não ter nada que fazer. No fundo andava a pé para me distraír. Entramos num bar com um porteiro que simpáticamente nos recebe e quando acabo de descer a escadaria até à cave percebo que é um bar de alterne. Calmo, reparo logo nas putas ao balcão. O taxista pede duas cervejas, há uma puta que me pede uma bebida enquanto me passa o braço à volta do pescoço.Recuso, digo-lhe que só estou ali para beber e ir embora, ela insiste abraça-me, eu rejeito outra vez pois já estava a ver o filme todo e sabia que isso me iria custar muito caro.
Quando olho em volta o taxista desaparecera. Peço a conta para me pirar. Quando o empregado do balcão vê que não vai conseguir mesmo que eu pague bebidas às putas traz-me uma conta de 15 contos. Era o consumo mínimo da entrada. Reclamo, digo que não pago, mando chamar o gerente e este diz-me com grande cinismo que me pode fazer um desconto de 50 por cento. Para evitar chatíces pago, peço a factura, e saio sem sequer ter acabado a cerveja. Foi a cerveja mais cara da minha vida. Bem feita !
À saída confirmei: havia na verdade uma tabuleta com o consumo mínimo o que blindava a atitude deles e me impedia de participar às autoridades. O esquema montado era simples: o taxista levava para lá otários como eu e receberia depois uma percentagem pelo frete. Perfeito.

Bruna Surfistinha fala a Jô Soares

O conto do vigário a José António Saraiva


Passo a transcrever esta crónica de José António Saraiva, publicada no Sol. E esta hein ?...

CONTEI nesta coluna que no Natal tive um acidente de automóvel que deixou o meu carro muito amolgado. Ao fim da tarde de quinta-feira da semana passada, após várias peripécias relacionadas com o seguro, fui informado de que o carro estava pronto. Estabeleci então o programa para a manhã seguinte: como não iria trabalhar, dado o SOL ter antecipado o dia de saída por causa do referendo do aborto, levaria a minha mulher ao emprego (junto à Avenida da República), passaria depois pela António Augusto de Aguiar para devolver o veículo de aluguer que entretanto tinha usado, meter-me-ia a seguir no Metropolitano na estação do Parque e sairia no Jardim Zoológico – que fica a dois passos da Mercauto, onde o meu carro fora reparado.

CUMPRI o programa à risca, com uma pequena alteração: depois de entregar o carro de aluguer fui comprar o jornal e sentei-me a lê-lo numa pastelaria da António Augusto de Aguiar, enquanto tomava o pequeno--almoço (um chá e uma torrada). O dia estava a correr bem.
Chegado à Mercauto, porém, tive a primeira surpresa: o automóvel não estava lá. Telefonemas para baixo e para cima, contactos pelo intercomunicador, mas nada: o carro tinha saído sem ser, sequer, reparado! A recepcionista, diligente, fazia-me perguntas:
Com quem é que falou? Quem lhe disse que o seu carro estava pronto?

Mas eu não sabia dizer nada: fora a minha secretária quem tratara de tudo. A senhora tirou então a única conclusão lógica (a que eu, aliás, já chegara):
– Então telefone à sua secretária.
Assim fiz. Expliquei-lhe a situação, pedi-lhe para tentar perceber o que acontecera e sentei-me num sofá à espera. Passados longos minutos, lá veio a explicação: o carro fora, de facto, transferido para outra oficina, por opção da seguradora, e tinham-se esquecido de nos avisar. A outra oficina ficava no Prior Velho. Pedi desculpa à recepcionista da Mercauto pela maçada que lhe dera e meti-me num táxi a caminho da nova morada.

A RUA que me indicaram ficava numa daquelas zonas industriais incaracterísticas que existem em todos os subúrbios, onde a fealdade impera e é quase impossível encontrar uma morada, porque os nomes das ruas não são visíveis, e as portas, em regra, não têm números. Vêem-se portões, barracões, rampas, letreiros comerciais – mas como descobrir uma vulgar morada no meio desta floresta? Como o chofer do táxi também não conhecia a zona, andámos às apalpadelas e eu tive de sair do carro para pedir ajuda.

Finalmente lá descobrimos a oficina – e aí, para compensar, as coisas revelaram-se surpreendentemente fáceis: mal entrei, dei de caras com o meu automóvel. Não posso dizer que o reencontro tenha sido comovente (como seria com o Paco, se não o visse há três semanas) mas é consolador uma pessoa voltar a sentar-se ao volante do seu carro após um tempo de separação forçada. É um ‘regresso a casa’ em ponto pequeno.

QUANDO, a caminho do sítio onde moro, passava na 2.ª Circular, verifiquei que tinha pouca gasolina e parei num posto da Repsol para abastecer. Mal tinha saído do carro, pára ao meu lado outro Mercedes e o condutor chama por mim, enquanto abre o vidro. Aproximo-me e ele diz-me de dentro:
– Então, estás mesmo bom? Sabes, eu já não estou na Mercedes... Estou no Corte Inglés. Sou director do Corte Inglés... Então, como se tem portado a máquina? – e apontou para o meu carro.
Eu não me lembrava nada daquela cara. Mas, dada a conversa, admiti que fosse o homem que me tinha vendido o Mercedes. Ainda que estranhasse o tratamento por tu...
O fulano continuou:
– Por que é que não foste ao desfile de moda no Corte Inglés? Mandei-te o convite... Estava lá toda a gente! – Balbuciei uma explicação mas o homem não quis ouvir. Disse-me, em contrapartida, para apontar um número de telefone que me ia dar. Respondi-lhe que não tinha caneta. Ele perguntou-me então, como se tivesse tido uma súbita lembrança: – Qual é a altura da tua mulher? – Disse-lhe que era a normal (o que não era exactamente verdade). Nesse momento ele abriu a porta do carro, saiu, disse para mim «abre a bagageira», foi à bagageira dele, tirou dois sacos de plástico, meteu-os na minha.

Eu assistia a tudo, atónito. Não percebia o que estava a acontecer. Admiti que, sendo director do El Corte Inglés, teria certos artigos de promoção para oferecer a clientes especiais. Mas ele atalhou:
– É um casaco de pele para a tua mulher e outro para ti. Custam 870 euros cada, mas se te perguntarem diz que custaram mil. Não digas menos de mil!
O homem fechou então a porta traseira da minha carrinha e fez menção de se ir embora. Era agora o que eu mais desejava: que se fosse embora. Não sabia o que estava dentro dos sacos nem isso tinha qualquer importância. O importante era acabar com aquela situação insólita.

Ao estender-me a mão para se despedir, o homem acrescentou: – Se fores ao Corte Inglés, não te esqueças de pedir para falar com o Vieira. Eu ajudo-te no que for preciso –. E mesmo a finalizar:
– E dá aí qualquer coisa para o IVA.
Os casacos são oferta minha, mas é preciso pagar o IVA.
Com alguma relutância fui puxando da carteira, enquanto ele debitava: – Algumas pessoas dão mil euros... – Mil euros para o IVA? – estranhei, escandalizado. – Dás o que for possível – tranquilizou-me. Consultei a carteira, tirei quase todo o dinheiro que lá tinha (apenas deixei uma nota de 5 euros) e estendi-lho: –- É o que tenho – rematei, enquanto ele agarrava as cinco notas de 20 euros, antes de se meter no carro e arrancar velozmente.

SÓ AQUI tive a suspeita de que poderia ter caído no conto do vigário.
Se o homem fosse o que me vendera o carro nunca me trataria por tu. Se fosse director do El Corte Inglés e andasse com artigos na bagageira para oferecer a clientes ‘especiais’ nunca lhes pediria depois o dinheiro do IVA (que às tantas já ia em mil euros!). E os próprios modos do homem não eram os de alguém habituado a lidar com pessoas de certo nível mas sim os de um frequentador de bas-fonds e ambientes suspeitos.
Quando cheguei a casa já não tinha dúvidas de que fora enganado. Os casacos não eram obviamente ‘amostras’ do El Corte Inglés mas sim retalhos a fingir de casacos ou, na melhor das hipóteses, roupa dos ciganos. Estava tão irritado que não abri sequer o porta-bagagens para ‘tirar a limpo’ o que se passara.

Apenas o fiz umas horas mais tarde, depois de refeito da irritação. E tive uma surpresa: os casacos eram mesmo casacos! A imitar pele. Ambos castanhos-claros, o de senhora mais amarelado, com o pêlo da parte de dentro, excepto na gola e em baixo, na bainha, a formar um debrum. O meu era um casaco-blusão normalíssimo, de corte razoável, perfeitamente utilizável aos fins-de-semana.
A etiqueta, porém, revelava o ‘pecado original’: a origem chinesa. Por baixo da informação «100 % Polyester», figurava um importador de Madrid com nome chinês. Os casacos estão certamente à venda, portanto, nas lojas chinesas. Por 15 euros cada ou menos – e eu passara voluntariamente 100 euros para as mãos do homem para pagar o IVA!
Embora mantenha grande estima pelo meu automóvel, tenho de reconhecer que anda azarado. No Natal veio para cima de nós um carro com dois ucranianos, que fugiram depois do acidente; no dia em que vou buscá-lo à oficina sou descaradamente vigarizado por um burlão. Qual será a terceira?