
A chuva raramente cai por aqui mas hoje caiu, e bem, A sessão ao ar livre
nocturna foi cancelada. Os fotógrafos e afins raparam frio, e a chuva afastou muita gente no último dia. A festa contínua, no entanto, noite dentro, mas devo ficar por aqui no meu motel. Amanhã regresso à Pátria.
Depois de tanta fotografia vou ter que deixar assentar os
pixels para digerir toda esta
overdose visual. Correndo o risco de me repetir, pelo que disse sobre o ano passado, o Visa tem do melhor que se faz em
fotojornalismo, embora muito do que se vê por aqui não seja representativo da realidade da fotografia de imprensa no Mundo.
O Jean
Francois-
Leroy é um
"soissante-
huitard" radical e o seu estilo e gosto acabam sempre por o levar a escolher certos fotógrafos e agências, em detrimento de outros e outras. Ele próprio o confessou ontem. Ele quer é os amigos. O que por um lado pode ser criticado, por outro revela bem que o festival tem um rumo, um conceito, um critério, um estilo. Para mim isso é bom pois só acredito em direcções fortes, embora fiquem de fora outras visões.
A agência
NOOR (criada aqui no ano passado) é das mais expostas e este ano assistiu-se ao desaparecimento da
Magnum (nem tinha pavilhão) que no entanto esteve indirectamente representada por alguns membros como foi o caso de Paulo Fusco.
Não se percebe a ausência da
Magnum, muito comentada pelas esplanadas, mas não assumida por
Leroy. Talvez o facto de a sua mudança de rumo editorial (para o qual contribui muito a infeliz entrada de Martin
Parr, sempre rejeitado pelo
Cartier-
Bresson, e com que razão!) estar a ser mais virada para vertentes subjectivas da reportagem. Embora o seu site
inMotion seja de uma qualidade mais que avançada.
O festival mostrou até à exaustão as zonas mais desgraçadas do Mundo, e onde é mais fácil trabalhar do ponto de vista das facilidades legais, mas a Europa, o Japão,o chamado mundo industrial fica completamente esquecido. Só há injustiças no Oriente, em África, na América Latina, o resto não existe. Parece ser este o erro do festival, ou então a prova de que os
fotojornalistas só estão obcecados com a pobreza e o grau zero da dignidade humana.
Este tendência pelo
miserabilismo, embora hajam por aqui reportagens
punjentes e de um humanismo transcendente, é a mesma que temos sentido no Prémio Visão de
fotojornalismo, onde o júri é
Leroy, e os amigos que ele tem arregimentado para julgar os fotógrafos portugueses.
Claro que isto é um pouco de provocação mas não deixa de ser verdade.
O pior erro pessoal que um fotógrafo pode cometer depois de
sair daqui é julgar que isto é um exemplo da imprensa internacional e que em Portugal os jornais são todos de uma total insensibilidade a este tipo de temas e imagens. É possível e verdade que o sejam,mas também é verdade que a grande maioria destas reportagens não conseguem espaço na imprensa para serem publicadas. Mesmo fotógrafos como
Eugene Richards não conseguem pura e simplesmente vender temas duros sobre os lados mais escondidos da sociedade.
O melhor que um fotógrafo pode levar daqui é que só é possível fazer reportagens de qualidade com empenho e muito trabalho, dedicação exclusiva, para no final não ter retorno em dinheiro mas apenas e só em total realização profissional. É tão duro como optar em ir viver para a Cartuxa em Évora.
PS: Consta que Leroy apesar de ter anulado a festa final (0nde há sempre champagne para os convidados) acabou por se reunir à porta fechada com um grupo restrito de amigos e de fazer a festa só com eles. Não há génios sem senão. E Leroy parece que está com o Visa a bater-lhe na cabeça bem forte !