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quinta-feira, setembro 09, 2010
domingo, janeiro 24, 2010
Dennis Stock, morreu o Mestre que eternizou James Dean

Dennis Stock durante a conferência e abraçando o final um admirador. Fotos Luiz CarvalhoRecordo o post que escrevi há dois anos sobre Dennis Stock:
Era de manhã no Palácio dos Congressos de Perpignan onde decorrem os debates do Visa Pour L`Image e era o dia de Dennis Stock, o decano da Magnum aparecer para falar. Começou por fazer uma apresentação das suas fotografias projectadas, com pequenos comentários e acrescentando histórias de vida.
Começou a ser notado como fotógrafo pelo Robert Capa, nos anos 50, depois de uma reportagem sobre as entradas nas fronteiras dos Estados Unidos. Entrou logo para a Magnum, muito jovem, a sua vida atravessou a história contemporânea dos últimos cinquenta anos.
As suas fotografias do movimento Hippye, de Miles Davis, Amstrong, de Marylin Monroe...são um trabalho dos mais profundos e testemunhais. A amizade por James Dean começou no dia em que o actor o meteu atrás na sua Harley e voaram até ao alto de Los Angeles onde durante horas o puto-
" era uma criança!"-lhe contou a sua história de vida, como se Dennis fosse um pai.
Dali nasceu uma grande amizade e uma cumplicidade que permitiu fotografias tão marcantes como aquela do actor a atravessar Times Square, uma foto feita à pressa porque começara a chover e para a qual Dennis Stock utilizou apenas 5 fotogramas para escolher 1.
Hoje o mestre fotografa flores e no saber dos seus anos gosta de olhar ainda o Mundo através da sua Leica.
Está muito empenhado na internet, onde ele acha que os fotógrafos devem fazer sites onde a fotografia se destaque pela grande qualidade. "As fotografias depois de nascerem são do público e a internet é o lugar mais democrático para isso acontecer" - diz ele. Para Dennis os fotógrafos têm de ter imaginação e procurarem quem lhes possa pagar as reportagens. " Os homens ricos estão por todo o lado, só há que procurá-los e convencê-los do valor das fotografias".
Politicamente é um artista de esquerda e, como todo o bom americano, detesta Bush e pensa que o capitalismo de hoje devorou tudo e que a vida das pessoas se tornou tão desinteressante que agora só querem saber da vida dos outros, daí o sucesso das fotografias de paparazzis.
Alguém dizia por perto que é uma dádiva podermos encontrar num só fotógrafo tantas qualidades: Personalidade, carácter, rigor de enquadramentos, visão histórica e social, cultura e uma enorme generosidade.
Não fui só eu que me emocionei com a presença do mestre, e que, sinceramente, não consigo descrever neste post. Um jovem , no final da sessão, arriscou fazer uma pergunta mas a voz tremeu, o sentido das palavras tornou-se confuso. Quando Dennis pediu para repetir a pergunta o jovem teve uma branca e criou-se um eterno silêncio na sala. " Eu só queria dizer que gosto mesmo muito do seu trabalho e é uma honra enorme poder falar consigo!"- Dennis combinou com ele um abraço no final da sessão.
O dia de hoje ficará inesquecível para mim. Tal como aqueles em que estive com André Kertesz em Paris, com Koudelka e Salgado em Fátima. Mas hoje foi mais rico: as palavras e as fotos do mestre disseram-me numa voz calma e sábia que afinal o fotojornalismo, mais do que uma profissão é um acto de fé, uma vocação. Fiquei mais crente e vou fugir um destes dias com a minha Leica.
Obrigado mestre.
Também em www.expresso.pt ( Luiz Carvalho, enviado do Expresso a Perpignan)
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sábado, setembro 05, 2009
Silêncio de morte e festa em Perpignan
Talvez sejam os últimos resistentes do jornalismo empenhado, de causas.
Que leva um fotojornalista a viver 4 anos em El Salvador no meio de um gang de droga para ser morto numa emboscada? Só pode ser espírito de missão e uma atitude de total entrega ao trabalho.
Ontem o momento em que JeanFrancois- Leroy, director do Visa Pour L`Image, anunciava a morte do fotógrafo e realizador Cristian Pavaudet no El salvador, foi recebido com um longo silêncio, entre as cerca de 4 mil pessoas que estavam no auditório ao ar livre, na sessão noturna.
Tinha estado o ano passado aqui com Pavaudet e as suas fotografias impressionavam pelo envolvimento, coragem e capacidade de mostrar. O fotógrafo de imprensa é um dos alvos a abater quando os conflitos se agudizam, por ser ele o mensageiro inconveniente e credível.
Hoje o dia foi longo. Muitas fotos a ver. Impressionante o trabalho de Eugene Richards sobre as vítimas americanas do Iraque, o Irão dos anos oitenta de Burnett, as fotos de bastidores de Obama...e mais, muito mais.
Mais triste, o encontro com Marie Laure de Deker, a decana fotógrafa da Gamma, a posar com os seus colegas de agência numa fotografia de grupo no stand da Canon. A agência está a agonizar depois de uma gestão incompetente e arrogante ter levado à falência uma agência com 41 anos e que facturava uma soma soberba há anos.
Muito bom o trabalho de jovens fotógrafos (incluíndo os portugueses da kamera e da 4 See) e de sublinhar a forma atenta como o Maire de Perpignan apoia o festival, assim como a ministra da cultura que não quis faltar à sessão de hoje.
Gostava imenso de vos falar mais do festival, mas é tarde, está frio no motel, e amanhã quero estar cedo em Perpi, para a conferência do Eugene Richards.
Que leva um fotojornalista a viver 4 anos em El Salvador no meio de um gang de droga para ser morto numa emboscada? Só pode ser espírito de missão e uma atitude de total entrega ao trabalho.
Ontem o momento em que JeanFrancois- Leroy, director do Visa Pour L`Image, anunciava a morte do fotógrafo e realizador Cristian Pavaudet no El salvador, foi recebido com um longo silêncio, entre as cerca de 4 mil pessoas que estavam no auditório ao ar livre, na sessão noturna.
Tinha estado o ano passado aqui com Pavaudet e as suas fotografias impressionavam pelo envolvimento, coragem e capacidade de mostrar. O fotógrafo de imprensa é um dos alvos a abater quando os conflitos se agudizam, por ser ele o mensageiro inconveniente e credível.
Hoje o dia foi longo. Muitas fotos a ver. Impressionante o trabalho de Eugene Richards sobre as vítimas americanas do Iraque, o Irão dos anos oitenta de Burnett, as fotos de bastidores de Obama...e mais, muito mais.
Mais triste, o encontro com Marie Laure de Deker, a decana fotógrafa da Gamma, a posar com os seus colegas de agência numa fotografia de grupo no stand da Canon. A agência está a agonizar depois de uma gestão incompetente e arrogante ter levado à falência uma agência com 41 anos e que facturava uma soma soberba há anos.
Muito bom o trabalho de jovens fotógrafos (incluíndo os portugueses da kamera e da 4 See) e de sublinhar a forma atenta como o Maire de Perpignan apoia o festival, assim como a ministra da cultura que não quis faltar à sessão de hoje.
Gostava imenso de vos falar mais do festival, mas é tarde, está frio no motel, e amanhã quero estar cedo em Perpi, para a conferência do Eugene Richards.
segunda-feira, junho 22, 2009
O pior Visa Pour L`Image de sempre

O director do Visa Pour L`Image está irritado. E diz com a sua frontalidade e mau feitio que este ano o seu festival vai ser o pior de sempre. Em 20 anos nunca viu portfolios tão maus e fotógrafos tão banalizados. Aponta o dedo ao novo regime comercial das agências, que vendem por tuta e meia fotos para serem eternamente publicadas sem direitos acrescentados de autor, culpa a web por canibalizar o trabalho dos jornalistas usando amadores, culpa os fotojornalistas por terem perdido a noção de fotografia social e comprometida.
Jean Francois-Leroy tem mais que razão. A imprensa tradicional está a precisar de se deitar no divã do psicanalista para resolver os seus problemas de identidade e também a necessitar de abandonar o espírito do merceeiro achando que não há investimento na reportagem e de que o leitor compra jornais para ver bonecadas, fotografias do MacDonalds e textos escritos por analfabetos que aprenderam escrever na escola por sms.
O desinvestimento dos grupos de media nos jornais, na qualidade e no rigor, estão a transformar os jornais em papel demasiado caro (e pequeno!) para servirem de estrado no caixote dos gatos e estão a abrir as portas na net para os preguiçosos se limitarem a parar dois minutos em cada site, saltitando entre breves e brejeirices de artistas despidas. O que aliás se está a estender às televisões, agora alimentadas por idiotas úteis a debitarem postas de pescada no prime-time, quase a custos zero, em vez de investirem em histórias e em produções jornalísticas que superem a pinderiquísse das novelas e dos concursos para pategos.
Leroy tem razão, mas o problema é tê-la antes do tempo, embora talvez já seja demasiado tarde para voltarmos ao jornalismo puro e duro.
sexta-feira, setembro 12, 2008
sábado, setembro 06, 2008
Chuva acaba com Festival de fotojornalismo

A chuva raramente cai por aqui mas hoje caiu, e bem, A sessão ao ar livre nocturna foi cancelada. Os fotógrafos e afins raparam frio, e a chuva afastou muita gente no último dia. A festa contínua, no entanto, noite dentro, mas devo ficar por aqui no meu motel. Amanhã regresso à Pátria.
Depois de tanta fotografia vou ter que deixar assentar os pixels para digerir toda esta overdose visual. Correndo o risco de me repetir, pelo que disse sobre o ano passado, o Visa tem do melhor que se faz em fotojornalismo, embora muito do que se vê por aqui não seja representativo da realidade da fotografia de imprensa no Mundo.
O Jean Francois-Leroy é um "soissante-huitard" radical e o seu estilo e gosto acabam sempre por o levar a escolher certos fotógrafos e agências, em detrimento de outros e outras. Ele próprio o confessou ontem. Ele quer é os amigos. O que por um lado pode ser criticado, por outro revela bem que o festival tem um rumo, um conceito, um critério, um estilo. Para mim isso é bom pois só acredito em direcções fortes, embora fiquem de fora outras visões.
A agência NOOR (criada aqui no ano passado) é das mais expostas e este ano assistiu-se ao desaparecimento da Magnum (nem tinha pavilhão) que no entanto esteve indirectamente representada por alguns membros como foi o caso de Paulo Fusco.
Não se percebe a ausência da Magnum, muito comentada pelas esplanadas, mas não assumida por Leroy. Talvez o facto de a sua mudança de rumo editorial (para o qual contribui muito a infeliz entrada de Martin Parr, sempre rejeitado pelo Cartier-Bresson, e com que razão!) estar a ser mais virada para vertentes subjectivas da reportagem. Embora o seu site inMotion seja de uma qualidade mais que avançada.
O festival mostrou até à exaustão as zonas mais desgraçadas do Mundo, e onde é mais fácil trabalhar do ponto de vista das facilidades legais, mas a Europa, o Japão,o chamado mundo industrial fica completamente esquecido. Só há injustiças no Oriente, em África, na América Latina, o resto não existe. Parece ser este o erro do festival, ou então a prova de que os fotojornalistas só estão obcecados com a pobreza e o grau zero da dignidade humana.
Este tendência pelo miserabilismo, embora hajam por aqui reportagens punjentes e de um humanismo transcendente, é a mesma que temos sentido no Prémio Visão de fotojornalismo, onde o júri é Leroy, e os amigos que ele tem arregimentado para julgar os fotógrafos portugueses.
Claro que isto é um pouco de provocação mas não deixa de ser verdade.
O pior erro pessoal que um fotógrafo pode cometer depois de sair daqui é julgar que isto é um exemplo da imprensa internacional e que em Portugal os jornais são todos de uma total insensibilidade a este tipo de temas e imagens. É possível e verdade que o sejam,mas também é verdade que a grande maioria destas reportagens não conseguem espaço na imprensa para serem publicadas. Mesmo fotógrafos como Eugene Richards não conseguem pura e simplesmente vender temas duros sobre os lados mais escondidos da sociedade.
O melhor que um fotógrafo pode levar daqui é que só é possível fazer reportagens de qualidade com empenho e muito trabalho, dedicação exclusiva, para no final não ter retorno em dinheiro mas apenas e só em total realização profissional. É tão duro como optar em ir viver para a Cartuxa em Évora.
PS: Consta que Leroy apesar de ter anulado a festa final (0nde há sempre champagne para os convidados) acabou por se reunir à porta fechada com um grupo restrito de amigos e de fazer a festa só com eles. Não há génios sem senão. E Leroy parece que está com o Visa a bater-lhe na cabeça bem forte !
Um fotojornalista a sério, a mota de Marie e DDD


O dia foi longo em Perpignan. E a noite apoteótica quando os amigos de Jean Francois-Leroy o surpreenderam no final da projecção noturna com um portfolio de muitos fotógrafos, com as fotos assinadas, uma prenda especial para quem há 20 anos anda a divulgar o melhor que há em fotografia de imprensa.
Mas o que mais me marcou foi a sessão de autógrafos de David Douglas Duncan. DDD assina cada autógrafo como se se tratasse de uma obra gráfica, muito inspirada no seu amigo Picasso e em Matisse. A bicha engrossava para todos terem a assinatura do mestre.
Para me ir deitar deixo aqui três imagens. Uma do grande DDD, outra de Sipahioglu embevecido a ver a fotógrafa Marie Dorigny a montar na sua mota, uma lindíssima Enfield 500.
Por fim a terceira imagem: um fotojornalista da Getty (de que não fixei o nome) no Iraque, em campo de guerra, a fotografar com uma Canon Eos1 D MarkIII e com uma câmara de vídeo Canon (claro, queriam que fosse uma Nikon de bimbos?) da última geração, mínima e que consegue superar a qualidade das topo de gama actuais. Um fotojornalista multimédia. Tomem lá e embrulhem !! Eheheheh!!!...
sexta-feira, setembro 05, 2008
Afinal o fotojornalismo está na moda
O que leva empresas de informação como o Paris-Match, Time, Elle, ou marcas como Apple, Canon ou Citroen a apoiarem um festival de fotojornalismo como o Visa Pour L`Image ? Estarão fora de moda, deram em perdulários ou têm administrações que gostam de fotografia nas horas vagas ?
E aqueles 4 mil espectadores de todas as idades, muitos jovens, vão todas as noites para um anfiteatro ao ar livre para verem apresentações multimédia de fotoreportagens porquê? Não têm mais nada que fazer, não há telenovelas em França, ou descobriram que ver fotografias num écran gigante é melhor do que ir ao cinema?
A verdade é que enquanto em Portugal parece estar a pegar uma estranha moda na imprensa de que a fotografia de reportagem já não interessa e que a infografia vai salvar a imprensa escrita ou de que a bonecada vende mais, por aqui os grandes jornais (como o Le Monde!) apostam muito na fotografia para contarem histórias de vida, testemunhos de uma época, olhares indiscretos e outros discretos, sobre uma sociedade em ebulição. Nós no nosso cantinho sem rasgo nem ambição preferimos o modismo em tudo. Estamos sempre à frente mas com uma retaguarda desguarnecida, escancarada aos ventos do oportunismo e da incompetência.
O volume de negócios feitos aqui neste festival de fotojornalismo, onde há uma espécie de FIL para a representação de agências grandes e pequenas, fazem-se contratos e vendem-se fotografias, reportagens e histórias.
O jornalismo é um negócio e o fotojornalismo tem um valor acrescentado enorme: qualquer director de jornal ou revista sabe que só chegará ao público se puder apresentar fotografias que possam contaminar com curiosidade e surpresa gráfica os leitores.
Mas se o fotojornalismo é um negócio também é cultura. E antes de ser negócio é na verdade uma cultura com História,mestres, escolas e referências. O património da Humanidade seria bem mais pobre sem esses testemunhos feitos ao longo dos últimos 150 anos.
Hoje ao cumprimentar Sipagliou o meu antigo "patrão" que fez SIPA e que hoje aos 83 anos entrou numa merecida reforma não pude deixar de me emocionar. Este homem chegou a Paris nos anos sessenta, fotografou o Maio de 68 (tem aqui uma excelente exposição sobre o tema), fez uma agência de renome, promoveu fotógrafos e manteve sempre uma humildade exemplar. Aos 25 anos telefonei para a SIPA e ele passadas horas recebeu-me e quando viu o meu portfolio sobre uma reunião da Internacional Socialista em Lisboa onde estavam o Comandante Zero, o Willy Brandt, o Gonzalez e muitos outros, decidiu convidar-me para ser correspondente da sua SIPA em Lisboa, onde o fui durante os anos de brasa da revolução. Tinha-lhe de lhe falar hoje. Tenho por ele uma eterna gratidão.
E aqueles 4 mil espectadores de todas as idades, muitos jovens, vão todas as noites para um anfiteatro ao ar livre para verem apresentações multimédia de fotoreportagens porquê? Não têm mais nada que fazer, não há telenovelas em França, ou descobriram que ver fotografias num écran gigante é melhor do que ir ao cinema?
A verdade é que enquanto em Portugal parece estar a pegar uma estranha moda na imprensa de que a fotografia de reportagem já não interessa e que a infografia vai salvar a imprensa escrita ou de que a bonecada vende mais, por aqui os grandes jornais (como o Le Monde!) apostam muito na fotografia para contarem histórias de vida, testemunhos de uma época, olhares indiscretos e outros discretos, sobre uma sociedade em ebulição. Nós no nosso cantinho sem rasgo nem ambição preferimos o modismo em tudo. Estamos sempre à frente mas com uma retaguarda desguarnecida, escancarada aos ventos do oportunismo e da incompetência.
O volume de negócios feitos aqui neste festival de fotojornalismo, onde há uma espécie de FIL para a representação de agências grandes e pequenas, fazem-se contratos e vendem-se fotografias, reportagens e histórias.
O jornalismo é um negócio e o fotojornalismo tem um valor acrescentado enorme: qualquer director de jornal ou revista sabe que só chegará ao público se puder apresentar fotografias que possam contaminar com curiosidade e surpresa gráfica os leitores.
Mas se o fotojornalismo é um negócio também é cultura. E antes de ser negócio é na verdade uma cultura com História,mestres, escolas e referências. O património da Humanidade seria bem mais pobre sem esses testemunhos feitos ao longo dos últimos 150 anos.
Hoje ao cumprimentar Sipagliou o meu antigo "patrão" que fez SIPA e que hoje aos 83 anos entrou numa merecida reforma não pude deixar de me emocionar. Este homem chegou a Paris nos anos sessenta, fotografou o Maio de 68 (tem aqui uma excelente exposição sobre o tema), fez uma agência de renome, promoveu fotógrafos e manteve sempre uma humildade exemplar. Aos 25 anos telefonei para a SIPA e ele passadas horas recebeu-me e quando viu o meu portfolio sobre uma reunião da Internacional Socialista em Lisboa onde estavam o Comandante Zero, o Willy Brandt, o Gonzalez e muitos outros, decidiu convidar-me para ser correspondente da sua SIPA em Lisboa, onde o fui durante os anos de brasa da revolução. Tinha-lhe de lhe falar hoje. Tenho por ele uma eterna gratidão.
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quinta-feira, setembro 04, 2008
A morte de Fifi e os 20 anos do Visa Pour L`Image


Viveu a fotografar a morte dos outros, o sofrimento, as injustiças. Morreu hoje. Chamava-se Francoise Demulder e foi uma das fotojornalistas mais marcantes desde a Guerra do Vietname aos nossos dias. Fifi era assim que os amigos a tratavam e o "petit nom" nada tem de coquette pois a fotógrafa sempre se afirmou de uma coragem fisíca e determinação jornalística no campo de batalha de grande força.
Foi a primeira mulher a ganhar o World Press Photo, em 1976, com a fotografia em anexo, uma cena em que mostra as milicias falangistas em acção no Líbano e que acabou por ter um significado político muto relevante na época.
Francoise morreu na miséria num hospital de Paris onde estava internada desde Outubro passado.
Aqui em Perpignan, onde me encontro no Festival Visa Pour L`Image, que este ano faz 20 anos sempre com a direcção de Jean Francois-Leroy, já bem conhecido dos portugueses pela sua participação habitual no júri do Concurso Visão, houve um momento solene durante a sessão da noite em homenagem à fotojornalista. Passaram no grande écran, ao ar livre, algumas das suas fotografias mais célebres e foi referida a coragem e envolvimento nos conflitos onde fotografou. No Médio Oriente acabaria por se tornar amiga e confidente de Arafat.
O Festival revelou também hoje ao público aqui presente, mais de quatro mil visitantes entre fotógrafos profissionais, amadores e público fiel, a obra do Moçambicano Ricardo Rangel, um fotógrafo que entre os anos sessenta e setenta e cinco documentou com grande talento a sociedade moçambicana urbana no tempo do colonialismo português. Uma obra que já era conhecida, dispersa por várias publicações, e que hoje aqui foi dada a ver com grande pujança.
Até domingo Perpignan deve ser o lugar do Mundo com mais fotorepórteres por metro quadrado. E se as fotografias duras de carácter social são as mais vistas, por vezes até à exaustão, os fotojornalistas aqui presentes não parecem muito preocupados em fotografar nas ruas de Perpignan. Um suicida lançou-se de uma torre histórica para a praça onde os fotógrafos se reunem para conversar, e beber copos, e só dois deles entre centenas pegaram na câmara e foram fazer uma foto do acidente. E mesmo esses fizeram-no ao longe com algum recato.
Entre os fotógrafos mais conhecidos de sempre está David Douglas Duncan (DDD) o mítico fotógrafo da LIFE e amigo de Picasso a quem tirou algumas das fotos mais emblemáticas do pintor.
( também em WWW.expresso.pt)
segunda-feira, setembro 10, 2007
O balanço do Festival de Perpignan
O balanço em directo do Festival de fotojornalismo Visa pour L`Image por Luiz Carvalho, enviado do Expresso
domingo, setembro 09, 2007
O fim da festa com champagne magnum

Foi bonita a festa pá, mas acabou. Para o ano são os vinte anos do Festival Visa Pour L`Image, uma bonita idade e um orgulho para Jean François Leroy ,o papa militante do fotojornalismo.
Neste rescaldo, e atendendo ao adiantado da hora, gostava de deixar para já um resumo do que para mim foi este festival e onde estive pela primeira vez
( lamentável meus caros!).
Aspectos positivos: a grande mobilização das agências, grandes e minúsculas, a presença de editores dos principais jornais e revistas de todo o Mundo, a peregrinação dos jovens a tentarem a sorte, de poderem mostrar os seus portfolios aos mestres. Muitos sonham com a frase mágica do mestre:" Levanta-te e fotografa" ou na pior das hipóteses:" vai ver se chove que isto da fotografia não é para ti!".
É um festival que dá prémios atribuídos com raro rigor, incentiva à produção de novas reportagens, debate questões éticas do jornalismo e deixa a fotografia de imprensa funcionar no registo exacto: no contar histórias, denunciar situações, homenagear a vida.
O Festival cria competição, emoção e é também um imensa feira de vaidades, o que não é de estranhar sendo os fotógrafos uns praticantes do super-ego, o que só lhes fica bem atendendo ao talento emergente. ( Quando há talento um pouco de ego não faz mal e quando não há disfarça!).
O pior do festival é o matraquear constante nos temas desgraçados da actualidade, o Afeganistão, o Darfur, as prisões no Mundo, o Iraque, os imigrantes...tudo isto em várias versões, formatos e doses, o que deixa o espectador extenuado. Hoje a sessão da noite era só miséria, desgraça, grande angular, preto e branco, fotos quadradas, tremidas, paradas, outras agressivas e de olhar para o lado pela violência mostrada.
Voltarei a este tema com menos sono. Na verdade, os clássicos que por aqui passaram revelaram um pudor, uma educação, uma estética e um respeito pelos temas que muitos fotógrafos jovens não mostram. Esta é a discussão também: como fotografar a desgraça alheia, se é legitimo receber por tais trabalhos chorudos prémios e depois ir festejá-los noite dentro com champagne magnum e engate.
Também em www.expresso.pt ( Luiz Carvalho enviado do Expresso a Perpignan)
sábado, setembro 08, 2007
A festa do fotojornalismo
Este fim de semana chega ao fim o Festival Visa Pour L`Image de Perpignan. Amadores e profissionais, aprendizes e mestres, grandes agências e pequenas associações de fotógrafos de imprensa, tudo aqui converge para verem e darem a ver o melhor que se faz no mundo em fotojornalismo.
Também em www.expresso.pt ( Luiz Carvalho, enviado do Expresso a perpignan)
Também em www.expresso.pt ( Luiz Carvalho, enviado do Expresso a perpignan)
quinta-feira, setembro 06, 2007
Quem matou o (foto)jornalismo ?

Jane Evelyn Atwood, prémio Eugene Smith, no meio de um debate onde os homens imperavam e os franceses de "gauche" dominavam, foi a presença mais eloquente e afirmativa do colóquio de hoje no Palácio dos Congressos, aqui em Perpignan.
Estava em cima da mesa a discussão sobre se o fotojornalismo chegara ao fim ou se tinha desabado às costas do jornalismo. A predica com mais de duas horas foi polémica, mas afinal percebeu-se que nem o jornalismo sucumbiu nem a fotografia de imprensa faliu.
O debate trouxe duas evidências: uma, é que o facto de o exercício da fotografia se ter banalizado com o digital qualquer careta é fotógrafo e toda a gente nas redacções, e fora delas, se acha competente para decidir do destino das fotografias, de as escolher e manipular, como se se tratasse de material moldável. A outra evidência é a atitude do fotógrafo, da sua opção pela verdade e seriedade e da sua competência ao ser fotojornalista.
É impossível conciliar a validade do bom fotojornalismo com a pressa em despachar trabalho, com as contas de merceeiro de muitas administrações, com o modismo estético, com a falta de necessidade de quem se intitula fotojornalista em dizer o que quer que seja aos leitores, em dar uma visão pessoal do Mundo.
Jane começou a sua carreira há 30 anos e foi Leonard Freed quem mais a apoiou; ela diz dever o que é aos seus ensinamentos. A primeira reportagem que Jane fez foi sobre as prostitutas de Paris e não o fez para denunciar ou criticar, foi pela curiosidade de ver e entender como aquelas mulheres viviam e davam o corpo. Recusa a militância jornalística e considera que nunca uma fotografia mudou o que quer que fosse na sociedade. Dá o exemplo, como excepção, de uma fotografia sua feita numa prisão dos Estados Unidos que poderá ter influenciado uma nova lei no Estado do Ilhinois.
As fotografias quando são verdadeiramente boas permanecem no tempo e conseguem ultrapassar as circunstâncias. Para Jane, os retratos que a imprensa usa e abusa não acrescentam nada e são uma forma de decorar páginas e nada contarem sobre a sociedade. São fotos que desmotivam os leitores e tiram veracidade narrativa às histórias.
Outro dos intervenientes, o filósofo Michaux disse que," vivemos um tempo em que a imprensa prefere ilustrar a mostrar". Para ele há uma banalização dos retratos e das imagens de arquivo em detrimento das fotos de reportagem, da imagem informativa. Os jornais preferem fazer bonito, elegante e evitar a realidade.
Há uma demagogia galopante das imagens, das fotografias. Fazer rápido e vender rápido não permite ir até ao fundo dos temas. Prefere-se sempre mostrar imagens mesmo que nada digam.
Jane publica esta semana no Paris-Match uma longa reportagem sobre o Haiti, cujas fotos estão nas paredes de Perpignan, vai mais longe e afirma que " cada fotógrafo tem uma visão própria e não deve seguir aquilo que os outros fazem ou acham que é moda fazer".
Quando lhe perguntei o que achava de os fotojornalistas hoje terem à sua disposição novas ferramentas digitais que lhes permitem usar o vídeo e a web, ela mostrou-se irritada e disparou contra mim:" fotografar é um acto demasiado sério para se misturar com outras coisas. Quando estou a fotografar, estou sozinha, telemóvel desligado e nem vejo os meus mails. Se um editor exigir que eu trabalhe em digital fá-lo-ei mas só o fiz uma vez e detestei. Até o visor electrónico atrás da câmara me perturbava. Desliguei-o.
Conseguir-se uma boa foto é muito duro, não é compatível com pressa, desconcentração.Um dos problemas do fotojornalismo de hoje é que toda a gente faz tudo e não acrescenta nada".
O fotojornalismo não está morto. A prova está neste festival que este ano recebeu recebeu mais de 30 mil fotos para selecção e envolveu 4 mil fotógrafos candidatos a serem aqui mostrados. Claro, o digital trouxe mais fotógrafos, mais entulho, mas também novos talentos.
O problema é o de sempre: encontrar fotógrafos com personalidade, sensibilidade e entrega total. Num Mundo cheio de imagens o desafio é cada um encontrar o seu caminho e com isso surpreender editores e, por conseguinte, leitores que possam reparar e memorizar as imagens entre milhares.
Jane deixou a sua lição:" Quando a LIFE recusou publicar o meu ensaio fotográfico sobre os cegos fiquei muito desanimada. Era jovem e aquela recusa abateu-me. Mas eu sabia que tinha fotografado na direcção certa. Anos mais tarde foi o editor Robert Delpire que reparou no trabalho, publicou-o em livro e ganhei um dos prémios mais honrosos do jornalismo. Valeu a pena ter sido persistente e não ter mudado o meu rumo".
Também em www.expresso.pt ( Luiz Carvalho enviado do Expresso a Perpignan)
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quarta-feira, setembro 05, 2007
A fotografia é uma arma
O dia de hoje em Perpignan teve demasiada fotografia para a minha camioneta. Ontem estava um pouco desanimado e escrevi que isto estava tudo a puxar para a desgraça e para a foto do coitadinho. Hoje levei com a minha presunção toda em cima. Bem feito.
Foi um dia arrasador de fotografias. Uma overdose de imagens, fotógrafos e entusiasmo visual. Não sei por onde começar. Talvez pelo principio. E no princípio era a foto, as fotos do russo Sergey Maximishin, uma viagem profunda ao país de Putin, fotografada sem preconceitos, testemunhando, mostrando a Rússia pobre mas também rica, saudosista e marginal, luxuosa e degradante. Fixem este nome e procurem no Google ( vem lá tudo!).
As exposições sobre as crianças no Mundo ou o Suweto dos novos tempos, são fortes e as das crianças, feitas por fotógrafas, demolidoras.
Ontem mostrava-me irritado pelo facto de aqui só se dar a ver miséria e violência.
Hoje pergunto-me depois de ver estas exposições, tão fortes, dramáticas e profundamente sérias na abordagem jornalística, que outro meio que não a fotografia, seria capaz, competente, para testemunhar perante todos nós este inferno, estes infernos, da humanidade contemporânea?
Se não forem os fotógrafos a denunciar, a mostrar até à saciedade esta vergonha, quem o poderá fazer? E com que veracidade ?
É aqui que nós fotojornalistas temos esta missão, esta obrigatoriedade ética: dar a ver aos outros aquilo que não pode ser calado, escondido, disfarçado. São realidades brutais: os asilos para crianças deficientes no Brasil e na Índia, o trabalho escravo, a doença no seu estado mais desprotegido. O Bairro a 20 quilómetros da Torre Eiffel onde ali encontramos o germinar da violência urbana, da descriminação, dos excluídos.
O dia acabou com a projecção da noite. Hoje cheguei a horas e pude entrar com centenas de pessoas, a maioria nem sequer seriam fotógrafos, para uma sessão multimédia, onde as fotos contam histórias, com movimento, som, musica e edição jornalística. Confesso que esta sessão me arrebatou e reforça aquilo que defendo, mesmo correndo sempre o risco de ter razão antes de tempo: o fotojornalismo não vive só no papel, nem está condenado ao favorzinho gráfico de mais coluna menos coluna, mais página, menos texto. Há outros carris para o comboio andar.
Para terminar: visitei o stand da Apple e foi mais uma vez uma grande respiração de profissionalismo e tecnologia. Quando vemos um conceito posto amigavelmente ao serviço dos fotógrafos que mais podemos querer ? Os detractores do sistema ( porque na verdade nunca experimentaram, fazendo-me sempre lembrar aqueles tipos que só gostam de carros sul-coreanos porque nunca conduziram um alemão!) deviam passar umas horas naquele stand. Verem como funciona o Aperture e como o sistema Tiger OsX cruza as plataformas multimédia de forma a dialogarem. Depois disto ver trabalhar nos computadores para fieis de armazém só dá vontade rir. Claro que respondem que " não é compatível e é caro!"...
Vou dormir e sonhar a preto e branco.
PS: Metam-se a caminho e ainda vêm a tempo de ver muito no fim-de-semana. Cá vos espero.
Também em www.expresso.pt ( Luiz Carvalho, enviado do Expresso a Perpignan)
Foi um dia arrasador de fotografias. Uma overdose de imagens, fotógrafos e entusiasmo visual. Não sei por onde começar. Talvez pelo principio. E no princípio era a foto, as fotos do russo Sergey Maximishin, uma viagem profunda ao país de Putin, fotografada sem preconceitos, testemunhando, mostrando a Rússia pobre mas também rica, saudosista e marginal, luxuosa e degradante. Fixem este nome e procurem no Google ( vem lá tudo!).
As exposições sobre as crianças no Mundo ou o Suweto dos novos tempos, são fortes e as das crianças, feitas por fotógrafas, demolidoras.
Ontem mostrava-me irritado pelo facto de aqui só se dar a ver miséria e violência.
Hoje pergunto-me depois de ver estas exposições, tão fortes, dramáticas e profundamente sérias na abordagem jornalística, que outro meio que não a fotografia, seria capaz, competente, para testemunhar perante todos nós este inferno, estes infernos, da humanidade contemporânea?
Se não forem os fotógrafos a denunciar, a mostrar até à saciedade esta vergonha, quem o poderá fazer? E com que veracidade ?
É aqui que nós fotojornalistas temos esta missão, esta obrigatoriedade ética: dar a ver aos outros aquilo que não pode ser calado, escondido, disfarçado. São realidades brutais: os asilos para crianças deficientes no Brasil e na Índia, o trabalho escravo, a doença no seu estado mais desprotegido. O Bairro a 20 quilómetros da Torre Eiffel onde ali encontramos o germinar da violência urbana, da descriminação, dos excluídos.
O dia acabou com a projecção da noite. Hoje cheguei a horas e pude entrar com centenas de pessoas, a maioria nem sequer seriam fotógrafos, para uma sessão multimédia, onde as fotos contam histórias, com movimento, som, musica e edição jornalística. Confesso que esta sessão me arrebatou e reforça aquilo que defendo, mesmo correndo sempre o risco de ter razão antes de tempo: o fotojornalismo não vive só no papel, nem está condenado ao favorzinho gráfico de mais coluna menos coluna, mais página, menos texto. Há outros carris para o comboio andar.
Para terminar: visitei o stand da Apple e foi mais uma vez uma grande respiração de profissionalismo e tecnologia. Quando vemos um conceito posto amigavelmente ao serviço dos fotógrafos que mais podemos querer ? Os detractores do sistema ( porque na verdade nunca experimentaram, fazendo-me sempre lembrar aqueles tipos que só gostam de carros sul-coreanos porque nunca conduziram um alemão!) deviam passar umas horas naquele stand. Verem como funciona o Aperture e como o sistema Tiger OsX cruza as plataformas multimédia de forma a dialogarem. Depois disto ver trabalhar nos computadores para fieis de armazém só dá vontade rir. Claro que respondem que " não é compatível e é caro!"...
Vou dormir e sonhar a preto e branco.
PS: Metam-se a caminho e ainda vêm a tempo de ver muito no fim-de-semana. Cá vos espero.
Também em www.expresso.pt ( Luiz Carvalho, enviado do Expresso a Perpignan)
segunda-feira, setembro 03, 2007
Silêncio! Está-se a ver fotojornalismo.

O primeiro dia do Festival Visa Pour L`Image começou calmo, ainda à espera de grande parte dos cerca de 4 mil visitantes.Perpignan é uma cidade com edifícios muito antigos e é nessas verdadeiras catedrais góticas que algumas das exposições são dadas a ver.
A acreditação profissional exige um pagamento e em troca uma pulseira ( um bocado "veada" como diria o Marco Grieco, o meu director de arte que me acompanha) que nos acorrentará para toda a semana. Depois foi a hora de tomar o meu primeiro café oferecido pela revista Photo. Mereço-o: há mais de trinta anos que sou leitor! Passados alguns minutos era abordado, mais o Marco, por um casal turco que nos queria mostrar um portfolio da agência Narphotos. Era um belo trabalho com várias reportagens de jovens foto-repórteres.
O ambiente acolhedor da cidade, ruas estreitas, pequeno comércio, praças com esplanadas e muitos namorados aos beijos, ajudam o festival a ser também uma festa.Há por aqui gente de todas as idades. Há mestres do fotojornalismo, mas também aparecem curiosos como uma senhora que há 10 anos aqui vem porque acha importante ver estas fotografias que lhe abrem janelas para a vida.
Para as primeiras impressões passei no Palais des Congrés, onde a partir de amanhã vão estar representadas as agências fortes de imprensa, da Magnum à Getty, passando por outras mais pequenas. O stand da Canon já estava aberto com um estúdio fotográfico a funcionar com manequins e material cedido a quem o quisesse utilizar. Havia também um estúdio de televisão equipado com câmeras HD de pequeno formato, tudo apoiado pelos computadores e monitores Apple. Qualidade meus caros !
Um mundo perfeito de tecnologia paraa profissionais esclarecidos e que podem ali encontrar uma work station digital onde se cruzam as linguagens visuais e sonoras que hoje estão a marcar as plataformas da TV, da NET e dos jornais.
Das exposições vistas, houve duas que me impressionaram. A do fotógrafo Ian Berry -o decano da Magnum que fez a célebre foto nos anos 70 do oficial branco Sul Africano e dos alunos negros atrás de si - dá agora a ver uma reportagem p/b sobre as crianças que no Ghana são vendidas pelos pais para trabalharem como escravos para os pescadores, trabalhando nas redes.
É um olhar objectivo e terno, sem deformações visuais, com respeito pelos protagonistas, com a educação que os mestres da Magnum dos tempos de ouro, souberam e sabem ainda mostrar.
Outra das exposições foi a de Dennis Stock, o fotógrafo de James Dean que fez a célebre foto do actor a atravessar Times Square sob chuva, sozinho, foto que pude ver hoje pela primeira vez no original. As fotografias de Dennis conseguem reunir rigor gráfico com esmero técnico, humanismo com sentido de humor, documentarismo com visão de autor.
Este fotojornalismo de há 50 anos mantém a modernidade do olhar e apresenta-se ainda hoje sem a demagogia, o efeito fácil, o descuido técnico, a militância óbvia política do fotojornalismo produzido nos dias de hoje.
Percebe-se que este festival é " engagé" com temas que gostam de explorar a pobreza, o drama palestiniano, o inferno africano, o Afeganistão ( já não há pachorra, desculpem!), os imigrantes... é tudo fotográficamente correcto.
Parece que os fotógrafos vivem obcecados por mostrar o horror, o drama, e que à sua volta não existe mais nada na sociedade. Nem tendências, nem alegrias, nem glamour, nem luxo, nem ricos, nem viciosos...são imagens que dão a ver só uma parte do nosso tempo. Ao contrário das fotos de Stock, onde está o actor mítico, Marylin, as noites de jazz, as sombras de Miles Davis, as velhas senhoras a jurarem que não são comunistas na fronteira dos Estados Unidos...o fotojornalismo precisa de se virar também para a rua. Por exemplo: os namorados que se beijam na esplanada do Café Flore em Paris, enquanto o empregado varre e arruma as últimas cadeiras, é uma crónica notável de Stock sobre a cidade.
Voltarei a este tema.
Amanhã é o arranque a sério. E há que ser pontual. Por exemplo na sessão da noite ao ar livre não se entra depois de começar o slideshow gigante.
Os franceses são uns maçadores mas aqui o ritual tem de ser cumprido a preceito.
Silêncio!.. Estão fotos a passar.
Também em www.expresso.pt ( Luiz Carvalho, enviado do Expresso a Perpignan)
segunda-feira, agosto 27, 2007
domingo, agosto 26, 2007
O Festival de Cannes do fotojornalismo

O melhor do Visa Pour L`Image o grande encontro de fotojornalismo, onde eu vou estar a partir de domingo próximo em Perpignam.
(Vão poder seguir aqui todos os dias no Fatal e no Expresso online).
Para já deixo-vos aqui uma fotogaleria do melhor que lá vai estar.
Cliquem na foto para ver mais.
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