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domingo, janeiro 24, 2010

Dennis Stock, morreu o Mestre que eternizou James Dean


Dennis Stock durante a conferência e abraçando o final um admirador. Fotos Luiz Carvalho

Recordo o post que escrevi há dois anos sobre Dennis Stock:

Na vida poucas vezes nos confrontamos com os nossos mestres. Passámos anos a admirar uma obra, vi-mo-la de trás para a frente, sabemos pormenores dela, devoramos os escritos do autor, imaginá-mo-lo fisicamente e há um dia em que ele nos aparece pela frente, tocamos-lhe e na hora do aperto de mão, a voz embarga-se, baixamos os olhos e resumimos a admiração a uma frase idiota que o mestre nem ouviu. "Obrigado Dennis !"- ele ainda se virou para trás, acenou a toda a gente em volta e atirou-me um:" Adeus homem da GAP!" - referindo-se ao meu boné.

Era de manhã no Palácio dos Congressos de Perpignan onde decorrem os debates do Visa Pour L`Image e era o dia de Dennis Stock, o decano da Magnum aparecer para falar. Começou por fazer uma apresentação das suas fotografias projectadas, com pequenos comentários e acrescentando histórias de vida.

Começou a ser notado como fotógrafo pelo Robert Capa, nos anos 50, depois de uma reportagem sobre as entradas nas fronteiras dos Estados Unidos. Entrou logo para a Magnum, muito jovem, a sua vida atravessou a história contemporânea dos últimos cinquenta anos.

As suas fotografias do movimento Hippye, de Miles Davis, Amstrong, de Marylin Monroe...são um trabalho dos mais profundos e testemunhais. A amizade por James Dean começou no dia em que o actor o meteu atrás na sua Harley e voaram até ao alto de Los Angeles onde durante horas o puto-
" era uma criança!"-lhe contou a sua história de vida, como se Dennis fosse um pai.
Dali nasceu uma grande amizade e uma cumplicidade que permitiu fotografias tão marcantes como aquela do actor a atravessar Times Square, uma foto feita à pressa porque começara a chover e para a qual Dennis Stock utilizou apenas 5 fotogramas para escolher 1.

Hoje o mestre fotografa flores e no saber dos seus anos gosta de olhar ainda o Mundo através da sua Leica.
Está muito empenhado na internet, onde ele acha que os fotógrafos devem fazer sites onde a fotografia se destaque pela grande qualidade. "As fotografias depois de nascerem são do público e a internet é o lugar mais democrático para isso acontecer" - diz ele. Para Dennis os fotógrafos têm de ter imaginação e procurarem quem lhes possa pagar as reportagens. " Os homens ricos estão por todo o lado, só há que procurá-los e convencê-los do valor das fotografias".

Politicamente é um artista de esquerda e, como todo o bom americano, detesta Bush e pensa que o capitalismo de hoje devorou tudo e que a vida das pessoas se tornou tão desinteressante que agora só querem saber da vida dos outros, daí o sucesso das fotografias de paparazzis.

Alguém dizia por perto que é uma dádiva podermos encontrar num só fotógrafo tantas qualidades: Personalidade, carácter, rigor de enquadramentos, visão histórica e social, cultura e uma enorme generosidade.
Não fui só eu que me emocionei com a presença do mestre, e que, sinceramente, não consigo descrever neste post. Um jovem , no final da sessão, arriscou fazer uma pergunta mas a voz tremeu, o sentido das palavras tornou-se confuso. Quando Dennis pediu para repetir a pergunta o jovem teve uma branca e criou-se um eterno silêncio na sala. " Eu só queria dizer que gosto mesmo muito do seu trabalho e é uma honra enorme poder falar consigo!"- Dennis combinou com ele um abraço no final da sessão.

O dia de hoje ficará inesquecível para mim. Tal como aqueles em que estive com André Kertesz em Paris, com Koudelka e Salgado em Fátima. Mas hoje foi mais rico: as palavras e as fotos do mestre disseram-me numa voz calma e sábia que afinal o fotojornalismo, mais do que uma profissão é um acto de fé, uma vocação. Fiquei mais crente e vou fugir um destes dias com a minha Leica.

Obrigado mestre.

Também em www.expresso.pt ( Luiz Carvalho, enviado do Expresso a Perpignan)