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segunda-feira, junho 06, 2011

Sócrates na despedida:"Fui muito feliz convosco!".

foto de Luiz Carvalho
Resisti a escrever este post. Tenho imenso trabalho e estou cansado. Mas penso que o devo fazer. 

Assisti ontem à noite, a dois metros de distância, à queda de um político que teve um raro protagonismo nos últimos anos em Portugal. Um político controverso, com o mau feitio inerente ao signo virgem (!) mas um alguém que mudou muito Portugal. Para o pior, mas também para muito melhor.

A política não é um homem. É ele e as suas circunstâncias, como diria Gasset. As circunstâncias de Sócrates nem sempre lhe foram muito favoráveis, embora a sua teimosia o tenha feito andar para a frente e resistir a campanhas caluniosas, a críticas justas e a vitórias toleradas.

Sócrates representava há 6 anos uma lufada de ar fresco na política. Um político com menos carga ideológica ( ao ponto de Soares se ter referido a ele como um político de plástico), com vontade de mudar e de mexer em interesses instalados. Com maioria absoluta, com obstinação, entrou a matar.

Logo na noite da vitória avisou as farmácias para o lobby intolerável que representam em Portugal.
Vimos como perdeu face a esta corporação.
Depois quis pôr na ordem os professores que achavam que deviam avaliar, mas não ser avaliados, os juízes que achavam que deviam ser um Estado dentro do Estado.

Mexeu na Saúde encerrando centros de saúde obsoletos e sobrepostos e maternidades sem condições, investiu na energia renovável (um caso raro de sucesso no Mundo), aplicou um plano de modernização da administração pública com a empresa na hora ( eu que usei esse serviço fiquei espantado com a eficácia), o simplex permitiu o inicio da utilização da internet na relação com o Estado (pagamentos online de impostos, certidões etc), o programa Magalhães vai ficar para a História como uma iniciativa notável (embora eu embirre com o sistema windows).

As nossas infraestruturas rodoviárias são excelentes, o interior tem hoje condições raras de conforto ao nível de estruturas sociais e culturais. Foi caro? Pois foi. Foi a crédito? Pois foi. Tal como foi a crédito barato as casas que comprámos, os carros, a segunda casa, as férias, os seguros de saúde, as escolas particulares para os nossos meninos. O paradigma desde o final dos anos 80, introduzido com Cavaco e os neo-liberais, foi gastar com crédito, passar à reforma os séniores, investir na mão de obra barata, a troco de um consumismo alienante.

Com Sócrates tivemos leis de grande alcance social e que mudaram de vez a nossa vida. O casamento entre pessoas do mesmo sexo, a lei do divórcio e do aborto. Só estas 3 leis são por si de um alcance cultural único. Histórico. Foi a ruptura com a padrelhada, os reacionários, os beatos hipócritas. Foi a afirmação de uma sociedade moderna a olhar para a frente, tal como o era a construção do TGV, pago em grande parte pelos fundos comunitários, e que no tempo de Durão Barroso, quando Ferreira Leite dizia que não havia dinheiro para nada, aprovou 6 linhas de TGV. SEIS! Quem se lembra disso? Ninguém.

O calor nos miolos dos abstencionistas, durante os dias calaceiros de praia, formata-lhes a memória!

Muitas vezes escrevi neste blogue contra Sócrates. Teve atitudes lamentáveis, chegou a ser mal educado comigo em plena campanha eleitoral de há dois anos, fila certas pessoas e não desarma, vai até ao fim do mundo atrás de um inimigo. Mas espremendo agora esses pormenores de mau feitio, a verdade é que nunca se provou nada em tribunal contra ele. Nem fora dos tribunais se pôde alguma vez dizer, por exemplo, que tivesse ganho 200 mil euros em acções que nunca se tenha sabido como foram pagas. Se as campanhas já foram o que foram imagine-se se houvesse móbil para agir!

Não esqueçamos que a frase de Sócrates que terá dito em privado e que foi soprada para o exterior que "temos de dobrar a espinha aos juízes" acabou por lhe ser fatal.

Sabemos como surgiu o Caso Freeport e quem são os nomes da pior gente do PSD que o despoletou. E sabemos bem como a imprensa é dura com os que a confrontam e suave com quem sabe fazer a coisa bem feita.

Houve três ocasiões em que estive próximo de Sócrates e me deixou impressionado. Uma, era ele ministro do ambiente, e num dia sem carros, tivemos uma discussão a bordo de um autocarro eléctrico em que ele defendia a cidade sem carros e eu lhe dizia que isso era morte das cidades. Achei notável um ministro discutir com tanta energia um tema desses com um fotógrafo armado em comentador. Por acaso no final desse dia ia eu no meu BMW, paro num semáforo e ele ia a atravessar. Viu-me e disse:"pois, pois! Já o compreendi!".

Noutra ocasião estive a fotografá-lo nos jardins de S.Bento antes de uma entrevista para o Expresso à Cândida Pinto. Passeávamos os dois à procura de um local para um retrato. Na véspera tinha sido o referendo ao aborto. Perguntei-lhe como se sentia. "Feliz por termos vencido os preconceitos da igreja e dos padres. Mas o que eu mais queria agora era ir 15 dias de férias com os meus filhos. Só isso!".

A última ocasião em que me comoveu foi ontem. Eu estava a dois metros dele. Vi como continha as lágrimas, como resistiu às perguntas provocatórias, vi como usava a frieza para controlar a emoção.
A política é das actividades humanas mais ingratas. O exercício do Poder traz sempre no fim uma pesada factura de desprezo e ingratidão. Mais ainda em política. Fez um discurso de grande elevação.

Quando saiu do Hotel Altis, a mesma saída que já deu grandes vitórias e grandes derrotas a muita gente, caminhou sorridente para o carro. Uns populares gritaram-lhe: "Obrigado, muito obrigado por tudo o que fez por nós!". Ele entrou no carro, ainda olhou antes da porta se fechar, umas mãos vindas não sei de onde apertaram as suas com força e eu disparei com a minha Canon, nervosa. Ainda ouvi as suas últimas palavras:"Obrigado eu. Fui muito feliz convosco!".

domingo, maio 15, 2011

Sócrates. Nem contigo nem sem ti.

O reformado Catroga, uma das múmias do cavaquismo em letargia, gizou um chamado programa de governo do PSD, que mais não é do que um rol de intenções economicistas neo-liberais, foi prestar vassalagem aos enviados cobradores do fraque, mandou uns palavrões de camionista na SIC, evocou o nome de Hitler em vão e... foi de férias. Mesmo reformado, e bem reformado graças a uma Segurança Social que ele contesta, fugiu para a Coelha, o tal condomínio algarvio que se tornou num ícone de protagonistas de BPN e tudo à volta. Abandonou o Coelho e foi para a Coelha:)

Tudo isto seria patético se o país não estivesse numa viagem sem regresso ao fundo de uma sociedade que nada terá a ver com aquela que a Europa democrática do pós-guerra sonhou e que nos atraiu para ela, em meados dos anos 80. E que fez com que posteriormente tivesse havido 25 de Abril.

Muito simplesmente: o povo europeu quer viver com qualidade numa sociedade que respeite quem trabalhe,que promova a igualdade de oportunidades. Uma sociedade onde o ensino público, a saúde para todos, a justiça, a segurança e a tranquilidade na velhice sejam os seus pilares.

Ora, tudo isto são aspectos que o radicalismo deste PSD põem em causa. O PSD não quer só ganhar as eleições. Quer um golpe de Estado ganho na secretaria, aproveitando o Estado de Sítio que o FMI e a Europa liderada por Merkl estão a impor aos países periféricos, apanhados no arrastão da crise financeira, provocada por eles e pela ganância.

O PSD não se contenta com as medidas demolidoras impostas pelo FMI. O PSD quer mais sangue, mais terramoto social.

Quer privatizar a televisão pública ( uma ideia de jerico que não existe na Europa), quer por os doentes a pagarem mais nos hospitais, quer o ensino privado a ser pago (ainda mais!) pelos contribuintes e quer afundar a Segurança Social mexendo na contribuição das empresas, que está a meio da tabela dos outros países europeus. Quer ainda mexer mais no código laboral, cavando mais fundo do que os credores da Troika, não deixando uma margem de sobrevivência para quem vai ficar desempregado e sem recursos nem de subsistência, nem de trabalho alternativo.

É um total bota-abaixismo, ainda por cima praticado por um líder medíocre, sem experiência governativa de qualquer espécie (nem de uma junta de freguesia), sem uma equipa coesa, sem controle verbal nos incontinentes da fala que o rodeiam. O que este PSD vem propor é um governo de vingadores do Estado Social, do progresso na saúde, na educação (uma área em que as reformas do PS foram sistematicamente boicotadas) e na obra pública feita que aproximou Portugal da Europa avançada.

Um grupo de revanchistas, de reformados do cavaquismo, de candidatos a situacionistas que vêem agora a oportunidade de singrarem na política. Comentadores de TV a quererem ser deputados, intelectuais a porem de lado um portfolio de ideias para se entregarem num discurso á la Relvas.

O problema não seria o PSD ganhar. Até seria bom uma renovação de Sócrates, desejável mesmo. Mas a velha frase dos amantes desavindos faz aqui todo o sentido, quando aplicada ao engenheiro das sete vidas. Com gente desta: nem contigo nem sem ti!

sábado, abril 17, 2010

sábado, março 20, 2010

A dízima de Sócrates, a IURD e a matilha de Lello

Hoje ao ver uma reportagem da SIC sobre a IURD, e ao confrontar minutos depois as palavras de Sócrates a falar aos peixes, não pude deixar de pensar de novo como este país é estranho, povoado por um povo pobre, amedrontado e triste.

Mas ao tropeçar mais à frente na campanha interna do PSD onde está dado como fatal a eleição dessa bela figura que é Passos Coelho, ainda me assustei mais. Isto é: mais um amedrontado portuguesinho.

Os fanáticos da IURD, cujas cabeçorras são lavadas por uma seita de brasileiros que ganham milhões sem pagarem impostos, mais uns borjeços (?) do Norte, são levados a pagarem uma dízima, dez por cento do que ganham dos rendimentos brutos, para a causa da coisa. Afinal eu não sendo iurdano também pago a minha dízima, o que atesta que a moda está a pegar nestes tempos onde o papão da palavra crise serve para os que têm algum poder de pagar a evocam como a cruz ao Diabo para ganharem mais uns cobres.

Tal como os timoneiros da IURD vangloriam a causa, também Sócrates se gaba das suas medidas de assalto à população que trabalha e paga IRS, e dispara contra a oposição como se fosse uma vizinha calhandreira que vai fazer queixa à esquadra da esquina quando ele recebe uma caneta ou um decantador em prata de ferro-velho.

A alienação popular, este fascismo mediático instalado pela democracia em que temos de viver, leva a que o povinho vote e ponha no Poder gente sem carácter (falo da classe política em geral) a quem temos de por nas mãos as nossas vidas e das nossas famílias.

É gente do nível de um José Lello, um caceteiro socialista, que se atreve a insultar e a pressionar os jornalistas porque se acha comprometido quando uma tele-objectiva lhe foca o computador. Que estará ele a ver que tanto o compromete assim?

Ele mais a matilha socialista decidem fechar com força o tampo dos computadores, pagos pelo nosso dinheiro. Meninos malcriados? Não. Apenas gente de uma laia desprezível.

São estes parasitas que se arrastam pelos cantos da AR para justificarem um salário
extraordinário
, benesses, mordomias, reformas especiais, quando no mercado do trabalho não seriam admitidos nem como limpadores de sentinas.

Qual democracia? Imagina-se uma atitude destas na velha e reumática Assembleia Nacional do tempo de Salazar?

domingo, janeiro 10, 2010

Sócrates faz-se à estrada

Sócrates adianta-se a Cavaco e retoma a estrada em grande actividade. Hoje é a Zona Centro, aquela que mais indústria activa comporta, para falar da importância das exportações. Antes foi o lançamento de duas novas estradas no valor de 1700 milhões de euros. Investimento público, embora em alcatrão, mais próximo das populações do interior. Exportar e dar infra-estruturas parece-me bem.

Cavaco que está a aquecer os motores para uma presidência aberta, porventura naquele seu estilo de primeiro-ministro que já era, bem pode preparar-se para a antecipação de Sócrates e da sua bem oleada máquina de comunicação.

E hoje Sócrates ainda oferece 400 creches. Se for verdade é muito bom. As tais creches que Cavaco no seu tempo dizia não serem necessárias porque as amas resolviam o problema. Incrível mas verdade.

PS: isto está um bocado pró-Sócrates, ou é impressão minha? Ou será influência da Clara Ferreira Alves?

sexta-feira, julho 31, 2009

quarta-feira, julho 29, 2009

Sócrates na Meditação na Pastelaria

clique na foto e entre

sábado, março 15, 2008

Sócrates levanta-se e ri !

A cambalhota que Sócrates deu esta semana é notável. Passou de besta a bestial fez dos 100 mil contestários a purga, o antídoto, para reencontrar um povo desiludido que ainda pode ver nele não o Salvador da Pátria mas o tipo que ainda pode evitar o pesadelo que seria ter Meneses como chefe da Nação.

O Homem é o Homem e as suas circunstâncias. Sócrates tem tido a sorte de estar no sítio certo na hora certa. É que o seu povo chama " ter nascido com o cu virado para a Lua".

Confesso que depois ter conhecido a família de Meneses, de ter seguido durante a semana as tropelias do líder do PSD, até melhorou a minha opinião de Sócrates. Ele recuou bem, muito bem, no meio da trapalhada criada pela ineficácia política da ministra. Explicou que avaliações sim ( todos concordamos) mas que pode alterar os critérios. Fez-se de sonso e pós uma carinha de menino envergonhado quando lamentou ter aumentado impostos, veio para o meio da rua no Porto enfrentando o povo e as câmaras da TV. Voltou o Sócrates da campanha eleitoral de há 3 anos. Agora que já nos lixou as reformas, aumentou o desemprego, piorou ainda mais a justiça, tornou a saúde mais cara e burocrática e menos eficaz, agora que nos taxou por todo o lado e fez do Estado um monstro que atropela direitos dos cidadãos e ainda é menos pessoa de bem, depois de tudo isto e muito mais, começou a época doce, tolerante, democrática.

Abriu a caça ao papalvo, ao voto.

PS: A crónica de hoje no Público de Vasco Pulido Valente coincide muito com o que escrevi em cima. Nós os pessimistas compulsivos (!) somos assim.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Foi mau pá! Sócrates esquece vítimas das cheias

A ENTREVISTA ROSA DE SÓCRATES NUM PAÍS QUE NÃO EXISTE

Há uma ironia na triste noite de ontem, entre o país que voltou a meter água por todos os lados e a arrogância de José Sócrates que no final da sua entrevista à SIC reconheceu ser não só o responsável como também o autor dos famigerados projectos de casas estilo maison com janelas do género fenêtre.
O que impressiona é que no meio de uma sessão de marketing político televisivo, onde Sócrates é na verdade bom, não tenha havido uma palavra para com os portugueses que sofreram perdas e danos com a noite do temporal.
Estamos perante um ministro frio, o tal desalmado como já lhe chamam dentro do seu próprio partido.
Temos um primeiro-ministro que decora números e se marimba nas pessoas.
Mas a ironia da coisa está em que aquelas casas projectadas por ele há 20 anos são o ícone de um território desordenado, de um a política urbana inexistente. Os projectos de Sócrates são por si o seu retrato e podemos aqui dizer que a obra consegue superar o autor em medíocridade.

As chuvadas que levaram o país a desaparecer pelo cano abaixo são as mesmas que há 40 anos espalharama a morte na grande Lisboa. São as mesmas que as más infraestruturas não estancaram, são as mesmas que varreram a miséria social e descobrem o entupimento das adiadas obras de conservação que as autarquias deviam fazer, mas não podem porque estão ocupadas a fazer rotundas ou a multar cidadãos indefesos como o faz a Câmara de Lisboa.

Há 40 anos a desgraça aconteceu porque os clandestinos e os subúrbios se davam mal com a força da natureza. Hoje nos mesmos locais de há 4 décadas sucedeu o mesmo. Nada mudou.

Só Sócrates é que está contente. Estancou o déficit, o país cresceu umas décimas e o desemprego passou de 8,4 para 7,9. Genial. E está confiante que vai ser reeleito.
Quem não está ?

sábado, fevereiro 09, 2008

O canto e as armas de Alegre contra Sócrates

Foto de Luiz Carvalho
As declarações de hoje de Manuel Alegre trazem um novo fôlego à política. Sócrates pelos vistos não conseguiu calar Alegre mesmo pondo os patins ao nefasto ministro Correia de Campos. ( a propósito: que será feito dele ? Onde andará ?). O buraco negro que há no PS e a afirmação de que o povo português anda triste e desalentado ( cito de cor) é de uma força política notável. Na mouche. É o instante decisivo que faltava para abanar um PS moribundo, fanático com o chefe. Vejam-se as arrogantes declarações de António Costa ao dizer que oPúblico persegue o pobre Sócrates porque este não lhe "deu" a PT. Só uma mente doentia podia dizer tal disparate. O melhor é ele ir fazer queixinhas à ERCS.

Manuel Alegre é a voz da autenticidade e será dos últimos políticos a fazerem política com uma ideia, um objectivo, uma ideologia.
Curiosamente na sua crónica de hoje no Sol, Vicente Jorge Silva falava em como as eleições americanas estão a trazer de volta a política com causas, ideais, ideologia. O tempo do neo-liberalismo, dos políticos de plástico, da predominância da imagem em detrimento da essência, está a acabar. O eleitor, o contribuinte, já percebeu que os últimos anos de espectáculo na política só trouxeram desemprego, o fim das regalias sociais, a falta de crescimento económico, o aumento das desigualdades sociais. Nasceram mais ricos e aumentaram os pobres, enquanto a classe média agonizou.
A três anos das presidenciais e a dois das legislativas, a voz de Alegre é já o canto e as armas para tirar a Sócrates o que ele tem a mais: a arrogância e a maioria.

Luiz Carvalho

sábado, fevereiro 02, 2008

São casas portuguesas com certeza !

Palavras para quê ? São casas portuguesas com certeza projectadas por um artista português. Estranho é um branco ter carapinha e um preto cabelo oleoso ! Estranho seria termos um mestre de obras, um engenheiro com aspirações a arquiteto na governação e não sabermos tirar partido desta oportunidade para a arquitetura portuguesa desemborrar! A obra escondida de Sócrates, o espólio que estava escondido foi agora descoberto e podemos dizer que o país está hoje mais rico. Vai passar a partir de hoje a haver a arquitetura de Sócrates nos anos 80, a de Taveira nos anos 90 e a dos outros. Sócrates é o continuador de Raúl Lino numa vertente ainda mais popular. O engenheiro soube casar o conceito de casa de banho com o de habitação usando sempre soluções geniais. Chegou ao ponto de ter aproveitado num dos projectos o bafo dos animais, dos bois e vacas, para aquecerem o andar de cima da habitação.
Foi aqui que se revelou o espirito ecológico do pai da co-incineração.


SÓCRATES PROJECTOU HABITAÇÃO POR CIMA DE CURRAL DE VACAS


O primeiro-ministro e ex-ministro do ambiente, José Sócrates, projectou uma casa, enquanto exerceu funções privadas de projectista de edifícios, na década de 80, por cima de um curral de vacas «sem drenagem de esgotos», segundo criticou a arquitecta que apreciou o projecto.

Um dos projectos consultados pelo jornal Público diz respeito a uma habitação na aldeia de Rapoula projectada, em 1983, em cima de uma «loja de vacas». A arquitecta, Maria José Abrunhosa, já falecida critica o projecto do primeiro-ministro e explica porquê: «A habitação projectada sobre a palheira existente apresenta as divisões anti-regulamentares, bem como janelas e beirados para terrenos particulares, além de, por se tratar de um prédio muito estreito, resultar esteticamente feio».

Sócrates: nova polémica
«Se vasculharem, arranjam mais manchetes»

O parecer aponta mais erros: «Também não pode sanitariamente aceitar-se uma habitação sobre uma loja de vacas, sem drenagem de esgotos (...)». Segundo o jornal, a licença da casa nunca terá sido emitida, mas acabou por ser construída em cima do curral, com o aval de Sócrates.

Projectos com «pouco cuidado»

No ano anterior, a mesma arquitecta atacou o «pouco cuidado» os projectos do primeiro-ministro: «Julgo de deferir o projecto, devendo no entanto chamar-se a atenção do técnico autor para o pouco cuidado manifestado na elaboração do mesmo». «Todas as peças têm de ser assinadas pelo autor do projecto. Não se aceitam rabiscos que não são nada em folhas de responsabilidade», lê-se numa informação de 1985, relativa a um projecto seu.

Novamente, em 1983, Sócrates autorizou a construção de uma moradia em terrenos agrícolas e fora do perímetro urbano, junto ao Mondego, em Porto da Carne. O projecto, da autoria de Sócrates, que viria a ser ministro do Ambiente, foi aprovado pela câmara contra os pareceres dos seus serviços e ainda dos ministérios da Agricultura e das Obras Públicas - estes últimos vinculativos.

O director regional de Coimbra dos serviços de Planeamento Urbanístico (Ministério das Obras Públicas) escreveu várias vezes a Abílio Curto a exigir o embargo e demolição da casa, mas a câmara nada fez. Pelo contrário, três anos depois aprovou uma ampliação da moradia com 168 m2. O projectista voltou a ser Sócrates, segundo o jornal Público.