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segunda-feira, setembro 21, 2009

O sufoco democrático

Confesso que não percebo a demissão de Fernando Lima, o assessor de imprensa de Cavaco. Conheço o Fernando Lima há 20 anos e tenho-o como uma pessoa séria, incapaz de tomar uma iniciativa melindrosa para Cavaco, sem que este pudesse ter conhecimento e dar o seu consentimento.

Cavaco veio dizer que nunca perturbaria a campanha eleitoral e acabou por o fazer, tirando o tapete ao PSD, esvaziando mesmo a sua estratégia, dando de bandeja um bom punhado de votos ao PS, porventura essa migalha necessária para uma vitória mesmo desconfortável.

Não percebo como pode Cavaco numa penada dispensar um dos seus mais fiéis e "assassinar" politicamente a sua amiga Ferreira Leite.

O que está em causa não me parece ser o facto de FLima ter ou não ter sugerido uma pesquisa ao Público. Ninguém é ingénuo e todos sabemos que diáriamente os assessores das mais variadas áreas políticas fazem sugestões aos jornalistas, pressionam, chantagiam por vezes, amuam....e só é pressionado quem quer, ou quem não pode ser independente. Portanto: se Fernado Lima sugeriu o que quer que fosse e se o jornalista que tratou do caso achou que não havia matéria noticiosa....a cena estava terminada. Lima não apontou nenhuma pistola para o Público publicar uma história de polícias e ladrões.

Se o meu amigo Luciano Alvarez mandou um e-mail e se este foi desviado é um caso de polícia. Luciano mandou um e-mail porque tinha receio de ser escutado pelo telefone, logo: nunca iria divulgar o mail. O receptador do mail, o correspondente do Público na Madeira, não iria divulgar um mail de serviço interno, pondo em causa a credibilidade do seu jornal e das fontes.

Portanto: não há milagres. Alguém divulgou o mail e quem o fez sabia que iria prejudicar Cavaco e beneficiar fortemente o PS, tentando demonstrar que o PS é isento e que nunca interfere na vida dos jornais, das televisões.

A publicação do mail por parte do DN é muito grave. Põe em causa a seriedade de um jornal concorrente, revela a fonte da noticia num mail pessoal (nem sei se não há aqui matéria criminal!) e limita-se a publicar tudo isto sem trabalho de investigação, sem ouvir ninguém, tal como o tinha feito antes a direcção do Público que insistia em falar de um caso de espionagem depois do seu jornalista no terreno o ter negado há meses atrás.

É tudo demasiado mesquinho e mau para ser verdade.

Se a partir de agora qualquer "off" de um assessor, ou figura institucional, aparecer escarrapachada nos jornais....a nossa imprensa está mesmo na amargura. E isso é mau para todos: jornalistas, público, democracia. Mas vai ser muito bom para os que acham que há um jornalismo de sarjeta em Portugal, um jornalismo travestido, e que o controle desta gente deve ser feito pela ASAE da liberdade de expressão, a ERC , ou se for preciso mesmo à excêntrico do euromilhões: compra os jornais e publica lá só as notícias boas da família.

Já agora, não seria "giro" fazer um perfil do tal assessor espião de Sócrates? Quem é, o que fez, o que gostaria de ter feito mas nunca conseguiu... Investiguem e falem-me dessa figura. Como leitor estou curioso.

Um abraço Fernando Lima.