É a maior praça do país, um terreiro, e foi mandado fazer pelo Marquês de Pombal. Em 1956, numa manhã de sábado e de feira, Henri- Cartier Bresson fez lá uma fotografia notável. Gosto de pisar o sítio onde o mestre disparou a Leica com uma 50 milímetros. Falo de Estremoz onde vou sempre que venho para a minha casa de pastor no Carrascal. Um dos locais que mais gosto é o Café Alentejano. Tem todo o sabor dos anos 50 na sua arquitectura muito Estado Novo. Por lá param homens de chapéu, burguesia rural. Por vezes o arquitecto Saraiva. Há sempre barulho e uns pastéis de nata deliciosos. Num vidro pintado está escrito:Pensão. Uma palavra do meu imaginário infantil.Hoje lá voltei. A feira estava animada. Avistei o Manuel Serra, o histórico líder rebelde do PS. Em vésperas de Páscoa havia mais feirantes. Estranhei ver demasiadas esculturas barrocas de igrejas à venda, muito suspeito. Os enchidos e os queijos provocavam, embora ( atenção à desilusão) no Pingo Doce local sejam muito mais baratos e de qualidade nada inferior.
As cidades vivem destes eventos e destas tradições. Era bom que os autarcas e outros decisores entendessem que só a vida espontânea pode permitir a sobrevivência das cidades. Foi o que os autarcas de Lisboa nunca entenderam. E nem querem entender. Ainda ontem lá veio o arquitecto Manuel Salgado ameaçar taxar a entrada de carros em Lisboa. Quer dizer: o tipo projectou um hotel horrendo em cima do Tejo. Ninguém o criticou porque é um génio de esquerda. Mas os carros não podem entrar sem serem taxados ( já são nos parques, na EMEL).
Em Estremoz ainda se pode andar à vontade, embora a Câmara comunista não tenha acarinhado com qualidade a cidade. Mas quanto menos mexem, por vezes melhor.
Manuel Serra, o revolucionário esquecido do PS hoje em Estremoz. Foto: Luiz Carvalho
