sexta-feira, março 23, 2007

Sócrates é engenheiro ou não ?

O jornal Público de hoje, 22-3-2007, traz uma reportagem extensa da autoria de Ricardo Dias Felner, e ainda de Andreia Sanches, sobre "Falhas no dossier da licenciatura de Sócrates na Universidade Independente" . Ver este link da página 2 do jornal - os demais textos só estão disponíveis para assinantes. O que se conta é mau demais para poder ser concebível como verdade... Do Portugal Profundo analisaremos mais tarde esta reportagem, os novos elementos que revela e novas pistas de investigação.

O jornal "O Crime" de hoje, 22-3-2007, continua a explorar o tema do título de "engenheiro" do primeiro ministro e o recuo na sua utilização.

A seguir, irei analisar a reportagem do Público de 22-3-2007 (pequena entrada na capa e desenvolvimento nas pp. 2-5) sobre o percurso académico do primeiro-ministro José Sócrates e a utilização do título de "engenheiro" em sete capítulos: bacharelato no ISEC; frequência do ISEL; licenciatura na Universidade Independente; "pós-graduação na Escola Nacional de Saúde Pública"; a conexão partidária do docente de quatro das cinco cadeiras da licenciatura; a nota do primeiro-ministro ao jornal; e a ética da notícia. Depois da análise dos novos factos trazidos pelo Público, apresentarei ainda algumas pistas de investigação que faltam explorar e esclarecer.

1. O bacharelato no ISEC
Pela primeira vez é revelada a nota do bacharelato em Engenharia Civil no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC) de José Sócrates, 12 valores, e a data de conclusão em Julho de 1979.

Realmente, a história de altar "Sócrates - Da infância ao poder" publicada na revista Tabu do semanário Sol de 10-3-2007 estava incompleta nos elementos mais importantes: se lá vinham as notas de 18 a Análise Matemática I e Física II, o 17 a Física I, o 12 a Química Aplicada e a referência a mais "três 15", do primeiro ano e o 15 a Análise Numérica do segundo ano, além de "dois 17" e "míseros 10", faltava a nota do bacharelato omitida na história completa da vida do primeiro-ministro publicada no Sol.

Tendo em conta esta média de 12 e o peso das cadeiras do bacharelato do ISEC na licenciatura, para cumprir a média de 16 com que José Sócrates, segundo o reitor da Universidade Independente Luís Arouca em entrevista ao diário "24 Horas" de 28-2-2007, teria terminado a licenciatura, ameaçava atirar as notas do ISEL e da Universidade Independente para valores aritmeticamente impossíveis. No entanto - e após o post Do Portugal Profundo de 28-2-2003 "O Dossier Sócrates da Universidade Independente" que teve ampla divulgação na blogosfera e foi citado n' "O Crime" -, a autora da peça, Ana Sofia Fonseca (com base em informação do entrevistado José Sócrates) corrige a informação do reitor e publica o 14 como a média da licenciatura na Independente...





Limitação de responsabilidade (disclaimer): José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa não é arguido ou suspeito no seu percurso académico do cometimento de qualquer ilegalidade ou irregularidade.


Publicado por Antonio Balbino Caldeira em 3/22/2007 01:29:00 AM
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O papel social do Engenheiro...

Como chamou a atenção um comentador deste nosso blogue, quem sabe o que significa ser engenheiro em Portugal é a Prof. Doutora Maria de Lurdes Rodrigues, responsável da pasta da Educação do Conselho de Ministros a que preside José Sócrates. Como se pode perceber das suas publicações:


No artigo "A Profissão de Engenheiro em Portugal e os Desafios Colocados pelo Processo de Bolonha, nas jornadas «O Processo de Bolonha e as Formações em Engenharia», Universidade de Aveiro, 2003" Maria de Lurdes Rodrigues refere que:

"Toda a história da engenharia em Portugal será marcada por um conflito entre estas duas categorias de diplomados em engenharia: os engenheiros e os engenheiros técnicos. (...) (O)s engenheiros técnicos aspiram ao estatuto e título de engenheiro (...). Todo o conflito gira em torno dos títulos e dos diplomas conferidos pelas escolas"

E mais à frente, na mesma comunicação, a professora agregada de Sociologia do ISCTE, actualmente ministra da Educação, desenvolve o tema:

"A Ordem dos Engenheiros adquiriu em 1992, já portanto no quadro de regime democrático, o estatuto de associação pública e obrigatória, à qual o Estado conferiu o monopólio de representação, regulamentação, controlo do acesso e competência disciplinar sobre os licenciados em engenharia que exerçam a profissão de engenheiro. É ainda a instituição com poder de atribuição do título de engenheiro, reservado exclusivamente aos seus membros. Nos actuais estatutos da Ordem só podem ser admitidos como membros os licenciados em engenharia que exerçam profissão de engenheiro, e que além do curso realizem um estágio e prestem provas de admissão. Como, pelos estatutos, podem ser dispensados de provas de admissão os candidatos licenciados por escolas a quem a Ordem reconheça a qualidade dos cursos e dos programas de formação, esta criou e tem vindo a incrementar um sistema de acreditação profissional dos cursos de engenharia. Tal sistema sobrepõe-se ao sistema de credenciação por diploma instituído para muitas profissões, há muitos anos, nas universidades.
Na prática do total de 300 cursos existentes no país cerca de 90 estão acreditados pela ordem dos engenheiros. Aos diplomados dos cursos acreditados é permitido o acesso automático à ordem, à profissão e ao título de engenheiro. Aos diplomados dos cursos não acreditados, a admissão como membro e o acesso ao título estão condicionados pela aprovação num exame à ordem.
"


O curso de Engenharia Civil da Universidade Independente, como já provei, ainda não está acreditado pela Ordem dos Engenheiros, carecendo o candidato, que obtenha o respectivo diploma de licenciatura, de aprovação numa prova de admissão, para além do estágio obrigatório para quem possua um curso acreditado pela Ordem ou não.

Já expus no post de ontem (21-3-2007) que José Sócrates parece saber a diferença entre o grau de licenciado e o título de engenheiro. Mas, se permanecer com dúvidas, deve perguntar à sua ministra da Educação que ela com certeza lhe explicará. De qualquer modo, ficamos aguardar o furor do artigo da ministra "O Papel Social dos Engenheiros" no livro "A Engenharia em Portugal no séc. XX", organizado pelo secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Prof. Doutor Manuel Heitor, possa aclarar este case-study sombrio.


Limitação de responsabilidade (disclaimer): José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa não é arguido ou suspeito no seu percurso académico do cometimento de qualquer ilegalidade ou irregularidade.

Publicado por Antonio Balbino Caldeira em 3/22/2007 12:27:00 AM
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Quarta-feira, Março 21, 2007
O candidato ao título

O primeiro-ministro José Sócrates parece conhecer a diferença entre um grau de licenciado e um título profissional. Ora, veja-se este exemplo elucidativo que nos foi trazido por um comentador, com a declaração, em 3-6-2006, do primeiro-ministro sobre os 60 mil candidatos que ficaram de fora no concurso de professores:

"Desses 60 mil que referiu a maior parte deles não são professores. São pessoas que se candidataram ao lugar de professor. Nunca tinham sido professores na vida. É bom que esse esclarecimento se faça." [realce meu]


Realmente, é bom que o esclarecimento se faça sobre o seu uso do título de "engenheiro" e sobre os seus registos académicos... Continuamos à espera.


Limitação de responsabilidade (disclaimer): José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa não é arguido ou suspeito no seu percurso académico do cometimento de qualquer ilegalidade ou irregularidade.

Publicado por Antonio Balbino Caldeira em 3/21/2007 08:43:00 PM
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Terça-feira, Março 20, 2007
Engenheiro eu sou...

Além da biografia do Portal do Governo, onde até sexta-feira (16-3-2007) e no Perfil até ontem (19-3-2007), aparecia como "engenheiro", conforme apresentámos nos posts anteriores, surgem outras referências de José Sócrates a este título que não possuirá.

O Carlos da Grande Loja do Queijo Limiano encontrou duas referências nos media em que José Sócrates se terá apresentado ou assumido como "engenheiro":

uma da RTP/Lusa de 3-6-2006:

"Recordando ser também engenheiro civil, José Sócrates contou que, enquanto estudante, Edgar Cardoso foi para si e para os colegas "uma grande referência";

"Depois da experiência universitária em Coimbra regressei à Covilhã como engenheiro e trabalhei entre 1982 e 1987 na Câmara Municipal"


Mas a melhor até agora, descoberta por um leitor deste blogue, parece ser a de 5-2-2007 no DN, em que Sócrates, num comício da campanha sobre o referendo do aborto, terá dito:

"Estou aqui só como engenheiro e como político"


Palavras para quê?...

Publicado por Antonio Balbino Caldeira em 3/20/2007 03:13:00 PM
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Segunda-feira, Março 19, 2007
O "engenheiro" e a "Engenheiria"
.

Imagem picada, às 16:15 de 19-3-2007, daqui (versão provavelmente temporária)


O gabinete do primeiro-ministro não consegue acertar uma. Os assessores ou funcionários não conseguem cumprir as instruções do chefe que os manda emendar o curriculum. Na sexta-feira passada (16-3-2007) deixaram metade do trabalho por fazer: emendaram a biografia, mas não a outra página oficial do perfil do primeiro-ministro, onde ficou a constar ainda a afirmação alegadamente inválida, irregular ou ilegal, de que é "engenheiro". Até há pouco.

Fim de semana passado, os assessores - presumo - voltaram a rastrear este blogue Do Portugal Profundo e viram que tinham deixado de fora o rabo do gato. No fim da reunião de damage control marcada por terem sido apanhados com a boca na botija, devem ter concluído que não restava outra possibilidade senão emendarem-na, mesmo nas barbas do público atento. Pediram autorização - a quem manda - para alterar também essa outra página do Portal do Governo e hoje (19-3-2007) à tarde corrigiram-na - de manhã ainda estava na versão de "engenheiro", conforme consta da versão que imprimi.

Por informação de um comentador, reparamos na alteração. Mas... nova cavadela: nova minhoca. Esta tarde, o "engenheiro" passou a "licenciado em Engenheiria Civil" (sic) - página consultada e gravada às 16:15 de 19-3-2007 e aí em cima exposta. Assim seja. Aliás, depois de tantas contradições e silêncio, José Sócrates pode ser o que ele quiser.


Pós-Texto: Sugerimos aos leitores que vão consultando e imprimindo as diversas versões da página da never-ending-story da biografia do primeiro-ministro. São provas.


Limitação de responsabilidade (disclaimer): José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa não é arguido ou suspeito no seu percurso académico do cometimento de qualquer ilegalidade ou irregularidade.



Publicado por Antonio Balbino Caldeira em 3/19/2007 03:37:00 PM
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Sexta-feira, Março 16, 2007
José Sócrates já não é engenheiro...

A biografia oficial do primeiro-ministro, que consta do Portal do Governo, acaba de ser alterada: José Sócrates deixou de ser "engenheiro civil" e passou a "licenciado em engenharia civil"... Isso pode ser comprovado dentro do Portal do Governo no caminho Primeiro-Ministro> Biografia. Possuo, e creio que muitos leitores também, a prova da modificação da biografia oficial, com a mesma página impressa com versões diferentes.

Quando consultei a página da biografia do primeiro-ministro no Portal do Governo - várias vezes desde que tomou posse do Governo em 12 de Março de 2005 e nos últimos tempos em 28-2-2007, 4-3-2007 e 10-3-2007, altura em que escrevi os postes sobre o tema -, José Sócrates assumia-se como "Engenheiro civil", facto confirmado também por fac-simile da biografia oficial publicado no jornal "O Crime" de 8-3-2007. Hoje (página consultada às 10:01 de 16-3-2007, na sequência de informação de leitor atento) é... apenas "Licenciado em engenharia civil"... Peço aos leitores que imprimam a nova versão da biografia do primeiro-ministro e que se habituem a imprimir os links de informação sensível em linha, como eu tenho o hábito de fazer, para que se retenham as provas do que se afirma.

Eu, e muitos portugueses - porque coloquei nos posts o link do Portal do Governo para que fosse verificado o que digo -, guardamos prova daquilo que creio ser a utilização do título de engenheiro, regulado pelo Estatuto da Ordem dos Engenheiros, aprovado pelo decreto-lei 119/92 de 30 de Junho, publicado no Diário da República n.º 148, I Série A, de 30 de Junho de 1992. Tendo em conta esta mudança, parece cair a argumentação da absoluta regularidade ou legalidade da utilização do título de "engenheiro" pelo primeiro-ministro - de outro modo não se compreenderia que arrepiasse caminho. Creio que uma explicação e um pedido de desculpas se justifica por ter dito que era o que já não diz ser. Além dos esclarecimentos devidos sobre o seu percurso académico.

Uma questão já está, portanto resolvida: José Sócrates, ao contrário do que afirmava, não é engenheiro - como o próprio admite, indirectamente, ao modificar a sua biografia oficial. Mas o assunto não está encerrado, pois permanecem outras dúvidas. Falta responder às outras questões, que colocámos, e prestar os esclarecimentos sobre as lacunas pendentes no seu percurso académico, que identificámos, como é obrigação de um primeiro-ministro.

Do Portugal Profundo temos informação e documentação ainda não publicada e continuamos a investigar de forma lícita e legítima. Solicito aos leitores que possuam informação sobre este assunto público (registos académicos) e aos contemporâneos do curso de Engenharia Civil (e de Engenharia de Recursos Naturais) da Universidade Independente de 1995/96 ou que tenham sido contemporâneos de José Sócrates na dita pós-Graduação em "Engenharia Sanitária na Escola Nacional de Saúde Pública" (ano indeterminado) me forneçam informação para o endereço a.b.caldeira@gmail.com, que eu prometo investigar, no respeito da lei, e publicar aquilo que apurar ser verdadeiro e for lícito fazer. Nada mais, nem nada menos, do que a verdade.


Pós-Texto 1 (15:48 de 16-3-2007): Porém, alertou-me há pouco outro leitor, neste outro caminho do mesmo Portal do Governo - Governo> Composição> Perfil> Área Primeiro-Ministro - às 15:48 de hoje, 16-3-2007, ainda constava como "Engenheiro civil". O pessoal da Presidência do Conselho não deve ter conseguido cumprir discretamente a ordem e o gato parece ter ficado entalado com o rabo de fora... Convinha emendar rapidamente também esse perfil...

Pós-Texto 2 (20:35 de 16-3-2007): Na Voz Surda pode ver-se o fac-simile das duas versões da biografia do primeiro-ministro: antes, em 10-2-2006 ("engenheiro") e depois, 16-3-2006 ("licenciado em engenharia civil").


Limitação de responsabilidade (disclaimer): José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa não é suspeito no seu percurso académico do cometimento de qualquer ilegalidade ou irregularidade.

Publicado por Antonio Balbino Caldeira em 3/16/2007 11:07:00 AM

Onde está o canudo de Sócrates?

O blogue Do Portugal profundo lançou a questão: Sócrates é mesmo engenheiro?

Depois a dúvida instalou-se na Nação: Sócrates tem canudo? Sócrates é engenheiro? Terá saído a Sócrates o Curso na Farinha Amparo?

" Quer ser engenheiro ? Simplex! faça como o engenheiro Sócrates: venha para a Independente e saia engenheiro contente!".



Na pátria dos patos bravos encartados, ser ou não ser cabouqueiro é tudo o que precisamos de saber.
Os engenheiros deixara marcas na História do país. Veja-se Guterres o engenheiro de correntes fracas, mas que em casa era incapaz de mudar um fusível !
Veja-se o "inginheiro do Norte carago" e outros ícones que têm feito deste país o clube dos amigos das secretárias e por outro lado um território construído como se fosse o somatório de muitas casas de banho com as paredes viradas para a rua.

Agora o mistério sobre a licenciatura de Sócrates na Independente no tempo em que era secretário de estado merece toda a investigação jornalística.

Quero saber se tenho mais habilitações do que o primeiro-ministro.
Quero saber se o compagnon de route de Sócrates, essa figura maior da democracia e da gestão da Caixa Geral de Depósitos, essa vara chamada Armando ( o homem que inventou as matrículas K e a data do ano de fabrico nas mesmas) e o grande idiota da tolerância zero nas estradas ( as pessoas têm memória curta é bom lembrar), o mesmo da Instituto da Prevenção Rodoviária que depois daquelas cegadas levou Sampaio a obrigar Guterres a demitir Vara, esse génio, afinal, parece que foi também encartada pela mesma Universidade!

Como querem falar de educação e de qualidade no ensino se afinal temos um Primeiro licenciado de aviário, que parece ter tanta vergonha do seu canudo que a página da Presidência do Conselho de Ministros lhe retirou o título académico desde ontem ?

Sócrates tem um curso simplex de engenheiro e pelos vistos vai querer aplicar a fórmula ao país. Imaginem uma universidade de canudos simplex: o aluno entra por um lado e sai pelo outro já formado, licenciado, apto.
Simplex
, meus caros.

Claro que ser ou não ser engenheiro não faz dele melhor ou pior Primeiro. Não ser verdadeiramente engenheiro para mim até é uma qualidade. Como arquitecto sempre detestei engenheiros em geral, gostando depois muito de alguns em particular.

Mas que tudo isto é irónico e revelador de um país não tenhamos dúvidas. Quando a credibilidade da formação académica de um primeiro-ministro anda nestes termos o que havemos de dizer dos outros que saem das faculdades ou daqueles que desistem de lá entrar ?

Depois dos jornalistas, dos médicos, dos advogados, dos políticos, da justiça, chegou a hora do descrédito das universidades. Mau, muito mau. Como sustentar uma sociedade democrático sem instituições credíveis, sem pilares ?

Ao que chegámos

Os nossos filhos vão ter de declarar às finanças a mesada que lhe damos. Vamos ser apontados a dedo na rua quando passarmos com os nossos carros que mais lançam CO na atmosfera. O charuto que apetece fumar na tranquilidades das quintas à noite nas Amoreiras vão ter que ser fumados talvez por ali perto na encosta abandonada do casal ventoso.
A piscina pequena que permite o Alentejo nas escaldantes tardes de verão será apontada do céu por um helicóptero das finanças e do Ministério do Ambiente, e da Câmara claro.

Quando passarmos os 120 na auto-estrada teremos, já temos, um besouro atrás disfarçado de Mr. Magoo, a lareira a fumegar será denunciada por uma vizinha invejosa e até namorar será um abuso considerando que só o faz quem tem tempo e como luxo pagará imposto…
Enfim: a vida não está fácil. Isto é: as nossas liberdades estão ameaçadas.

Hoje de manhã na rádio uma reportagem feita na Assembleia da República apontava os deputados prevaricadores que fumavam no corredor da Assembleia. Ontem Durão Barroso era citado na BBC porque o Tuareg da mulher era muito poluidor.
Aos poucos esta democracia vai tornando a vida cada vez mais controlada.
Os cidadãos sentem que são cada vez mais reprimidos. Lendo o relato da via verde, do Multibanco, do telemóvel, basta para se fazer o trajecto diário do cidadão, para saber dos seus defeitos e virtudes.
O governo, qualquer que seja, já percebeu que a ecologia dá dinheiro e que os contribuintes já estão preparados para pagarem mais e mais.
Portagens, parkings, multas, contribuições, todos pagam. Ainda ninguém provou que se paga para uma melhoria da igualdade social, da eficácia do Estado, do bem comum.
Pagamos para alimentar uma máquina estatal trituradora e um poder que assenta na força omnipresente do mesmo Estado.
O mercado acaba quando as OPV`s atacam as golden share do Estado, o mercado acaba quando a televisão privada ameaça crescer e pôr em causa a influência da televisão estatal.
O controle que o Estado quer fazer à imprensa com a nova lei e com a regulamentação das televisões é um exemplo claro e escandaloso de uma influência estatal que não abdica.
No fundo quem é que quer ceder poder ? Ninguém, só os parvos.

Sócrates sabe-o bem e os outros da oposição também. Aliás esta semana ouvindo falar no Pós e Contras o antigo ministro Morais Sarmento, para mim um dos mais detestáveis governantes de sempre ao lado de Bagão Félix, até gostei do que disse. O que é inacreditável para comigo mesmo. Mas lá está: o homem falava como contra-poder e ali ele estava na plenitude das suas capacidades de convencer o otário desprevenido.

Talvez nada disto ligue. Mas o que sentimos todos é que a ideologia que defendíamos nos anos setenta para uma sociedade mais justa, harmoniosa ( no sentido do planeamento urbano e da organização do trabalho), moderna, ousada, arrojada, irreverente e responsável, está cada vez mais longe. Pagamos mais, somos mais controlados do que com a PIDE, as nossas liberdades culturais de escolha aumentaram porque a cultura passou a ser um negócio de supermercados.

Talvez deprimente, mas amanhã é outro dia.

Luiz Carvalho

terça-feira, março 20, 2007

Trabalhadores de ouro


O mecânico da minha Vespa monta à minha frente um jogo de espelhos retrovisores. Antes pegara num plástico protector para proteger de óleo o banco e os punhos. Desembrulha os espelhos com cuidado, espalha os parafusos e peças por ordem em cima de uma mesa e começa com calma e atenção a montá-los. Alinha-os com precisão. Depois, sem eu pedir, verifica o óleo do motor, desaparece com a máquina e regressa com ela lavada, ainda a pingar.
Elogia o modelo e confessa que a 2oo GT tem mais raça do que a 250 i.e que tem já injecção electrónica.
Porque falo nisto? Porque o mecânico da Motor Haus é romeno, infelizmente não fixei o seu nome, e revelou-se um profissional perfeito. Trabalha com desmesurado prazer e é de uma competência e dedicação à prova de bala. Porque não encontramos portugueses assim? Ou porque quando encontramos um português assim já tem uma certa idade e se dedica a uma profissão do passado, em vias de acabar?

Mudei de cabeleireira, a minha anterior está em Lisboa e não me dá jeito nenhum lá ir. Num centro comercial de Cascais sou tosquiado por uma romena. Tem 27 anos e 4 em Portugal. Estudou matemática no país natal, aqui é uma profissional competente, sem complexos por não praticar o que aprendeu na escola. Trabalha sem pressas, é eficaz, cuidadosa, atenciosa. Aceita a gorjeta final com timidez como se isso fosse um extra de que não estava à espera.

Quantos brasileiros não se cruzam connosco diariamente e nos provam o seu profissionalismo? Que seria de Portugal sem esta troca de culturas e raças ? Esta gente que tão bem se misturou entre nós, será decerto uma das razões pelas quais Portugal não se afundou ainda mais.
Eles contribuem para a qualidade dos serviços e para uma postura de responsabilidade que infelizmente não encontramos na maioria dos portugueses, sem habilitações, sem competência e sem vontade de trabalhar.
E nem vou falar do canalizador que me apareceu à porta de Audi A4 e me queria levar 100 euros para mudar a anilha de uma torneira….

segunda-feira, março 19, 2007

O mel de Santana

Hoje Santana Lopes na Sic notícias desabafou no Dia D.

Não há dúvida: o homem tem mel e um mamar doce.
Quem o ouve não o leva preso.
Estatelado no sofá ria-me com mais vontade do que com os Gatos fedorentos. Com Santana a realidade é sempre muito mais interessante do que a ficção, pese embora as suas excelentes qualidades de actor.

Conseguiu atacar Sampaio, Cavaco Silva, Marques Mendes, Durão, Carmona Rodrigues, o homem de Gaia, Portas e poupou Fontão de Carvalho e o Major Valentim Loureiro.

Com ele a oposição a Sócrates seria dura e com números. Isto é: os números dele eram melhores no tempo dele, tirando as exportações e estas cresceram com o crescimento dos países para onde mais exportamos.

Acho que ele até tem razão. O pior é quando ele governa. Ainda teve tempo de citar de rajada a obra por ele feita entre túneis, viadutos, centros culturais, rotundas e umas gorjetas a artistas desempregados do Parque Mayer.

Foi uma hora de grande televisão.

Para acabar em grande faltou o hino do menino guerreiro.

Mas esperem pelos 15 minutos que ele tem na manga para intervir na Assembleia. Serão os 15 minutos de glória efémera ou eterna ? Aguardemos.

Diane Arbus, fotografia e suicidio

Diane Arbus, em cima, Nicole Kidman, em baixo, a fazer o papel da fotógrafa em Fur ( A Pele)


fotografia de Diane Arbus (1923-1971)



"Para mim o sujeito de uma fotografia é sempre mais importante que a fotografia. E mais complicado..."- Diane Arbus, fotógrafa


A fotógrafa americana Diane Arbus marcou a história da fotografia contemporânea com as suas fotografias de figuras bizarras desde os anos cinquenta até meados dos anos sessenta.

O filme que agora estreou nas salas de cinema, com Nicole Kidman no papel brilhante de Arbus é uma versão livre e delirante da vida e da personalidade da fotógrafa. A mestria do realizador, a capacidade criativa do director de fotografia, a ambiência dos cenários e o talento de Kidman tornam este filme num dos raros casos em que saímos do cinema com o alento de termos partilhado uma já rara fita de autor.

Conheci as fotografias da Diane Arbus pouco tempo depois de me ter obcecado pela obra e pelo significado de Henri Cartier-Bresson. Já lá vão seguramente mais de 30 anos. Percebi logo que o registo de Diane Arbus nada tinha a ver com o do mestre francês, o teórico do Instante Decisivo, bem pelo contrário. Em Arbus prevalecia a pose, o relacionamento directo com os personagens apanhados na rua ou nos seus habitats naturais. As fotografias dela deixavam-me uma estranha angústia, uma mescla de ironia e crueldade, de ternura sórdida. Remetiam-me aquelas fotos para um olhar próximo de Fellini, um dos meus realizadores preferidos, mas ao mesmo tempo não tinham a tolerância e o paternalismo do mestre italiano. Nem podiam: ela era uma fotógrafa realista, ele um cineasta neo-realista com todas as diferenças culturais e políticas implícitas.

As figuras de Diane Arbus são infelizes e patéticas, inofensivas, desgraçadas, marginais. A técnica fotográfica em Arbus é elementar. Usava uma câmera de película 6x6, geralmente uma Rolleiflex, usada ao nível do umbigo e que enquadrava olhando por um visor colocado no cimo da máquina. Era mais discreta, dispensava levar o visor ao olho. O flash enchia de luz o primeiro plano onde se situavam as personagens que assim ficavam mais recortadas dos fundos. Esta luz de flash permitia olhares limpos, sem sombras, luz directa, crua como o olhar da fotógrafa. A técnica não fugiria muito à usada pelos fotógrafos de casamento, os bons, do tempo da película e do preto e branco muito nítido.

No filme lá estão muitas daquelas figuras bizarras que transformaram a vida pessoal da fotógrafa e a deixaram refém desse mundo estranho, estimulante, terminal que a fotógrafa abraçou: anões e nudistas de corpos disformes em campos próprios, gigantes em casas de bonecas, famílias jovens de postura estranha com filhos estrábicos, burguesas decadentes, faquires de circo, travestis e outros cromos.
As fotografias de Arbus parecem por vezes o prolongamento de muitas das figuras de Weegee, um fotojornalista de Nova Iorque famoso nos anos vinte pela coragem e pelo desassombro das suas imagens tomadas à socapa nas ruas da cidade.
Diane Arbus começou como fotógrafa de moda, ensinada pelo marido. Mais tarde foi com o maior director de arte de sempre, Alexey Brodovitch, o criador de Harper`s Bazar e com o fotógrafo Richard Avedon que deu os passos decisivos para uma carreira profissional.
Tornou-se fotojornalista nos anos sessenta. Publicou na Esquire, no New York Times Magazine, na Harper`s Bazaar e no Sunday Times,
Teve duas bolsas Guggenheim (1962 e 1966) que lhe permitiram desenvolver melhor o seu trabalho de autora, mostrado pela primeira vez num museu em 1967 (colectiva New Documents Museum of Modern Art).
O catálogo dessa exposição que o célebre editor John Szarkowski concebeu, em 1972, tornou-se num dos mais influentes livros de fotografia. Desde então, foi reimpresso 12 vezes e vendeu mais de 100 mil cópias.
A exposição do Museu de Arte Moderna viajou por todo o país e foi vista por 7 milhões de pessoas. No mesmo ano, Arbus tornou-se a primeira fotógrafa americana a ser escolhida para a Bienal de Veneza.
Um ano antes, em 1971, tomou barbitúricos e cortou os pulsos. Como se os personagens das suas fotografias, na sua expressão sórdida e pungente, tivessem sido a premonição do seu final infeliz.

sábado, março 17, 2007

UMA FOTO POR DIA


Portas do Sol, Santarém. Foto de Luiz Carvalho

Final de fotojornalismo em Santarém


Acabou o meu work-shop sobre fotojornalismo e multimédia em Santarém, no Instituto Politécnico. Foi uma semana com trabalho nas ruas da cidade, sessões de visionamento das imagens e alguma teoria do fotojornalismo.

Conclusão: há um número significativo de fotografias muito curiosas, feitas por quem nunca tinha vindo para a rua fotografar frente-a-frente com pessoas.
Técnica à parte, as fotografias acabam por ser um relato vivo da cidade, de aspectos urbanos, património, afectos e desamores. Irónicos por vezes, ternos e realistas outras vezes.

A fotografia é hoje uma actividade possível a qualquer mortal. Pôr na mesma linha do coração o olhar, é um bom caminho para se chegar a fotos com interesse para serem vistas e recordadas.

Foi uma boa experiência e penso que ninguém que esteve nas aulas voltará a olhar a fotografia da mesma maneira. Ficaram abertos para a disciplina e podem fazer dela uma rotina e um prazer.

Todos na faixa do meio da auto-estrada

O que leva um condutor a entrar numa auto-estrada a 50 à hora e atirar-se para a faixa do meio, indiferente a quem vem a aproximar-se? E que o leva a manter-se lá, sujeito a ser empurrado, depois de levar com sinais de luzes e buzinadelas? Será o Mr. Magoo que vai ao volante?

Os portugueses cheios de «cagufa» das multas pesadas, passaram a andar mais devagar nas auto-estradas. Mas insistiram no tique antigo: faixa da direita é para esquecer, a faixa do meio é para quem paga portagem, quem vem atrás e quer ultrapassar… que passe por cima!
À noite ligam ainda os faróis de nevoeiro para impressionar.

Estes alarves conseguem circular quilómetros sem fim nesta postura ,sem que a carta lhes seja aprendida e a justa multa passada. Porquê? Porque não há pura e simplesmente fiscalização nas nossas auto-estradas. Onde pára a polícia? Está parada para poupar no combustível e nos quilómetros dos carros-patrulha.
Há radares escondidos, carros da bófia imprevisíveis, mas não há fiscalização séria e pedagógica.

Esta semana fiz mil quilómetros na A1 e não passei por uma única brigada de trânsito. Vi um daqueles Subarus pretos parados na berma à caça da multa.


Com estes teimosos da faixa do meio torna-se mais perigoso e difícil andar lá a 140 do que a 200 na faixa esquerda. Andar dentro das regras a 120 na auto-estrada implica um constante travar e passar para a faixa esquerda, voltar para a direita e ficar mais à frente entalado entre um cretino a 70 ao meio e um caracol a 90 na direita.

Resolvia-se com brigadas activas mas preferem as operações stop gigantes, à noite, nas áreas de serviço. Dá show para a tv e mais receitas.

quinta-feira, março 15, 2007

Imagens do Work-shop de fotojornalismo em Santarém

Sala de espera na Quinzena. Alunas do work-shop de fotojornalismo
Aula de fotojornalismo no Politécnico de Santarém.

Às 5 em ponto da tarde nas Portas do Sol


Mais pareço um caixeiro viajante do ensino.
De manhã tive uma das aulas mais extraordinárias que há muito tempo não tinha: os meus alunos da UAL estiveram em força na aula da manhã. Uma grande maioria de presenças femininas, atentas, interessadas e participativas. Falar de fotojornalismo para gente jovem e curiosa é sempre muito estimulante.

Ainda cheguei a Santarém para a sessão de hoje do Work-shop que amanhã termino no Politécnico com o patrocínio do Observatório de imprensa. Foi também uma oportunidade para rever a Teresa Moutinho e o meu amigo Francisco Sena Santos.

Esta semana de férias no Expresso transformou-se para mim em 5 jornadas de trabalho. Parece que a minha vida mudou e que me tornei num professor a tempo inteiro.
Já tenho saudades do jornal.

Esta introdução ( prometo que não falarei no irracional do Óscar e mesmo que me obrigassem jamais diria que pus gasóleo na Repsol da Segunda Circular) é para me dar balanço para mais umas notas soltas sobre um dia fora de portas, às 5 em ponto, nas Portas do Sol.

Um dia quente, Sol duro a pedir boné.
O jardim das Portas do Sol é dos mais belos do Mundo com aquela paisagem brutal sobre a lezíria ribatejana. Hoje à tarde Moita Flores, Mister President de Santarém, pôs musica barroca no ar, teatro invocando Afonso Henriques, e muitas crianças de escolas a verem teatro e a brincarem. Este homem vai marcar a cidade, não se esqueçam.

Os meus alunos fotografavam e eu acabei com a bateria da Epson RD1. Lá em baixo passam os comboios junto ao Tejo. Há namorados jovens aos beijos, abraços, muito calor e duas jovens de ombros descobertos olham o rio, a paisagem, próximas, intimas, numa pose delicada, entregues ao tempo. Descubro que uma tem Cânon 300D, mais tarde sei que estudam e que conhecem bem os meus alunos.

O ambiente em Santarém é fabuloso. Apetecia ficar ali até o Sol se pôr e depois…Quinzena, essa tasca que me deixou a bater mal de bem.

A fotografia permite destas experiências de vida. Se não fosse pela fotografia que estaria eu ali a fazer de justificável, numa tarde de Primavera antecipada, rodeado de jovens que nasceram depois do Salgueiro Maia ter dado o golpe e que falam no capitão com a admiração e o respeito que se tem aos heróis?

Estes “putos” sabem de tudo e têm uma memória selectiva: Os Xutos são uns cotas, o Veloso um jarreta, o Variações um anarca incompreendido, a ditadura um período negro com Salazar a ser recusado mas de alguma forma entendido nos primeiros tempos de Estado Novo. Entre memórias fazem-se fotografias, filma-se com uma HD e até há quem traga um batuque. Há espaço para beijos furtivos, um namorado que aparece e desaparece. O dia, é o dia que transforma tudo em objectos de desejo.

Há anos aquele local era um ponto de encontro para mim, de encontros fortuitos, com a envolvente cénica de um filme entre o guião de um romance do Eça e uma comédia italiana à Alberto Lattuada. Fantástico! ( só conto nas confissões…ehehe!!)

Amanhã, adeus Santarém.
A vida é feita de pequenos nadas.

Rezar em Santarém

UMA FOTO POR DIA

Igreja matriz de Santarém, ontem de manhã. Foto de Luiz Carvalho

Flash com Maria das Dores e Joana Amaral Dias

As revistas do coração não param de me surpreender. Afinal é para isso que elas servem: para deixarem de boca aberta um contingente de desprevenidos.

Falo do caso da badalada figura que está presa por suspeita de ter mandado matar o marido e que tem um filho de que se suspeita de ter fanado 30 mil ao pai. Uma história triste mas que dava uma sinopse para um excelente filme português filmado pelo Almodôvar. Tem os ingredientes todos: crime, sexo, perversão, infâmia, intriga, ambição...e muito mais.

Bom, que têm feito as revistas que andaram a promover uma empregada bancária, reformada, como uma figura da mais fina casta ? Têm andado a mitificar a presa, e o filho dela mais velho, como personagens interessantes, com história para contar. Estão a ser humanizados, quase perdoados, lavados mais branco, nas páginas rosa.
Daqui a pouco, se não já, estão a torná-los nuns heróis nacionais. Haja decoro minhas senhoras directoras ! Haja bom gosto, e já agora, ética. Gostam muito da Holla, passam a vida a sonhar em fazerem hollas mas na hora...caem no estilo jornal do Crime em versão couchet.

A Flash desta semana já põe o filho a defender a mãe. A coisa está a ficar um Big Breda.

Côr-de-rosa, dois:

Aquela deputada do Bloco de Esquerda, filha do psiquiatra Amaral Dias, que um dia na AR, nos Passos Perdidos, veio ter comigo a dizer-me que estava a invadir a sua privacidade por a estar a fotografar, sendo ela deputada, aparece esta semana na Flash, também nos Passos Perdidos, a posar e a debitar umas banalidades. Uma tontaria de esquerda com laivos populistas.

Depois do fascínio do arquitecto Saraiva pelo mundanismo temos aí mais aderentes: do Bloco de Esquerda às pérfidas figuras de um jet-set decadente, nacional,a bem da Nação.

terça-feira, março 13, 2007

Santarém cresce e aparece

Impressões avulsas de um dia em Santarém:

1- Vai-se de Lisboa a Santarém tranquilamente ( obrigado Bento!) com o cruise-control nos 150 km/hora ( o limite de tolerância nos radares da BT). Passada a confusão da A5, Segunda circular, e troço da A1 até Vila Franca, depois é passeio.

2- Santarém tem novos acessos que põem a cidade mesmo no centro do país. Dali se vai para o Porto, Algarve e Lisboa, em auto-estradas magnificas.( Que diabo nem tudo é mau no burgo!)

3- A cidade está muito bem organizada, nos acessos e, lá no centro, vê-se obra feita. Há harmonia, casas velhas a serem reabilitadas. Sente-se a História e sente-se que é uma cidade habitada por gente de idade e jovens.

4- Moita Flores, Presidente da Câmara, está a arrasar os privilegios dos funcionários camarários mas os habitantes estão a gostar do estilo. Moita dá pimbas, cultura, festa brava. Este fim -de- semana há tourada, tascas improvisadas, festa. O autarca gosta de bons carros mas vai de bicicleta para a Câmara. Quem sabe, sabe...
A cidade vai crescer e parece haver planos para mudar a Praça de Touros e fazer uma nova envolvente virada para a animação. Tintól, touros e tradição. A estátua a Salgueiro Maia está de pé, depois de tirada de um armazém. Foi preciso vir um PPD para fazer o que um PS ignorou. Pagou nas urnas.

5- As igrejas de Santarém são sublimes, as ruas tranquilas, até a luz ajuda.

6- O velho e lindo Mercado Municipal agoniza com a concorrência desleal dos supermercados. SOS: vai fechar em breve, façam qualquer coisa!

7- O incêndio no teatro Damasceno (?), no passado fim-de-semana, é um crime e a recuperação devia ser feita pela câmara respeitando a traça original.

8- A tasca "A Quinzena" é a descoberta do ano ( para mim). Há muito que não comia tão bem, num ambiente tão bom, com um serviço tão bom e por... 7 euros. Verdade! Espero bem que figure no Boacama boamesa.

9- Regressar pela estrada antiga a Lisboa, via Benavente, é outra boa experiência. Os campos verdes, os agricultores a venderem à beira da estrada, as novas construções que revelam a mudança de muita gente para aquela zona está à vista.
É tudo mais barato e a qualidade de vida é muito melhor do que em Lisboa.

A província somos nós lisboetas.

Fotojornalismo em Santarém

Esta semana estou por Santarém a dar um work-shop sobre fotojornalismo e multimédia, patrocinado pelo Observatório de Imprensa. Há dois anos que não ia à cidade, desde um outro curso que ali dei para jornalistas da imprensa regional,e de que tenho agradáveis recordações. Foi uma boa experiência.

Hoje pela fresca andei pelas ruas de Santarém com os meus alunos, com uma média de 25 anos de idade. Uns já concluíram o Curso de jornalismo na Escola Superior em Lisboa, outros tiraram Marketing na Superior de Santarém.

Larguei-os de máquina fotográfica pelas ruas da cidade e passadas duas horas trouxeram-me imagens feitas com espírito critico e de observação visual atenta. Gostei muito e veio conferir o que tenho vindo a defender: a fotografia é para todos tendo cada um de ir avançando pelos vários níveis que a linguagem exige. Na técnica e na cultura de ver, de saber ver, e não ficar só pelo olhar.

Voltarei a falar aqui do curso e tenho fotos para mostrar. Hoje não tenho tempo para uploads.

segunda-feira, março 12, 2007

Há dois anos que nos vimos livres de Santana


O governo de Sócrates fez dois anos. Portugal viu-se entretanto livre dos governos de Durão e Santana. Acabaram os troliteiros da direita, o Portas, o Lampião Félix, a maga patológica das finanças. Passámos pelo vexame de sermos vistos como um país com o governo mais divertido do Mundo, quando Santana brincava a primeiro-ministro e à sua volta todos fingiam que aquilo era um governo a sério. Rábula tamanha só mesmo nos dias finais de Salazar quando ele fazia de conta que governava e os outros à volta fingiam que ele não sabia que eles sabiam.

Passados dois anos, a crise mantém-se, a falta de objectivos políticos também, navegamos como nau desgovernada mas que ainda mantém a costa à vista para se poder orientar.

Sócrates tem sabido como ninguém manter uma imagem que vende bem o governo. Isto é: ele é determinado, corta a direito, mas... para quê ? O que melhorámos ? A educação ? A saúde ? A competência ? A competitividade? As finanças ? O crescimento ? emagrecemos o Estado ? Passámos a pagar menos impostos ?
Quantos portugueses vivem melhor hoje do que há 2 anos ?

Muitas perguntas mais podía fazer e as respostas seriam bastante desoladoras.

Claro que Sócrates é inteligente, culto e veste Armani ( estilo).É uma pessoa frontal e de diálogo fácil, pese embora o seu feitio de animal feroz. Mas os resultados não são
nada animadores: estamos a meio da tabela dos países europeus, estaríamos no final não fosse a entrada dos ex-países de Leste.
Temos o melhor pagamento multibanco, a 4ª taxa de mortalidade infantil mundial, a melhor banca em eficiência, temos ilhas de sucesso que bem aproveitadas podiam fazer de nós um país com pernas para andar. Para isso não basta mudar de governos, temos de mudar todos, a começar pelos empresários, os trabalhadores, os criativos. Todos.

PS: Portas e Santana, quais mortos-vivos ameaçam saír dos caixões ! Vai ser gozar vilanagem !

50 anos, 50 reportagens

5o reportagens para 50 anos é um programa muito bom da RTP. Hoje deu a reportagem feita em Angola logo no inicio da guerra, Lá estavam as imagens notáveis do câmera António Silva. Não percebo como se fazia naquela altura televisão daquela qualidade. E, meu caros, aquilo era filmado à mão, sem tripé, em cima da acção. Neste aspecto a televisão regrediu. A forma burocrática como as televisões hoje fazem reportagem é lamentável. Perdeu-se a emoção, o sentido do momento, o risco.

O que fica dos jornais


No rescaldo do fim de semana fica-me sempre o turbilhão de notícias, reportagens, entrevistas, crónicas, fotografias, que me entram pelos olhos dos diários e semanários que junto para ler nos dois únicos dias em que ainda tenho algumas horas tranquilas.

Que retive de tanta leitura ? Pouca coisa. No New York Times fizeram a experiência de fechar numa sala 20 leitores típicos do jornal durante uma hora. No final convidaram-nos para falarem do que tinham lido. A maioria dos leitores terá fixado duas notícias no máximo.
Eu tenho um olhar mais analítico, deformado pela profissão.
Começo pelas fotografias, e sem esforço de fixar espero que alguma me prenda o olhar. Rara é a fotografia que me faz parar. esta semana senti um especial contentamento ao ver o Expresso no sábado.
Comprei-o em Estremoz no café onde para o meu ex-director. Enquanto lá estive ao balcão a comprar jornais venderam-se 3 Expressos e 1 Sol. Está mais ou menos na relação de vendas de um para o outro, com contas optimistas para o Sol.
Não vi o arquitecto Saraiva com o tal casaco amarelo oferecido na bomba da Galp da 2ª Circular e que ele confessou ( e ameaçou!) usar ao fim de semana.

Adiante. O meu contentamento ao ver o Expresso foi a magnifica mancha de fotografias ao longo de toda a edição.
Privilegiámos
a fotografia em todos os cadernos e as fotos do primeiro e da economia estavam soberbas. São boas e são grandes , não são boas porque são grandes.
Nesse aspecto acho que jornais como o Público vão no mau sentido. Usam a fotografia como uma decoração, sem edição, sem intenção, nem critério. Buscam umas fotos nas agências e toca de estender o lençol. Por outro lado a fotografia produzida pelos fotografos do Público desaparece, não funciona como informação, nem atracção.
Até o nome dos fotografos ficou tão reduzido que ninguém lê.

O guru que desenhou aquele entulho gráfico matou a fotografia.
Aliás, diga-se em abono da verdade, e será um tema muito interessante para debater, a ditadura gráfica que mete no mesmo saco fotografia, infografia e design reduz a fotografia a mais um elemento gráfico, o que não pode ser.
Fotografia é informação, não decoração.

Para não me alongar.
Gostava de referir a crónica do Miguel Sousa Tavares sobre as empresas portuguesas que ainda acham que os salários de miséria é que dão lucro ( como a Amorim),e a entrevista de José Miguel Júdice na ÚNICA.

Amanhã inicio em Santarém um Work Shop sobre fotojornalismo e multimédia. Darei aqui noticias dessa semana que vai decerto ser muito estimulante.

sexta-feira, março 09, 2007

Dia da Mulher em mini-saia


Detesto " dias internacionais de..". Pertenço a uma geração que apostou na eliminação dos dogmas, do instituído, de tudo o que cheirasse a convencional.

Cresci a contestar os pais, a família, a igreja, a autoridade, o casamento. Comecei a ser contestario quando decidi faltar à comunhão solene apesar de ainda ter feito a primeira comunhão. Via na catequese um passatempo, na missa um espectáculo, no ser menino do coro uma oportunidade para ser artista.

Os tempos eram muito diferentes: mais tristes, repressivos, intolerantes, convidando à transgressão, ao pecado. Beijar uma miúda nas escadas escondidas da Igreja S. João de Brito às sete da tarde ( hora de ponta) quando quem passava não via nada, era perigoso e excitante. Mal eu sabia que do outro lado, a 30 metros, morava o escritor José Cardoso Pires!

Adiante. Hoje é dia da Mulher e, francamente, é uma solenidade que me irrita. Dia da Mulher são todos os dias. Esta festividade começou a ser feita pelos comunas através do MDP-CDE e daquelas organizações de mulheres com buço, de esquerda, e ( vejam bem !) foi reaproveitada pelo mercado capitalista e pelos politicamente correctos do reino para fazerem da ideia uma jornada de demagogia, consumismo e a oportunidade para uns patetas comprarem umas flores à pressa nos centros comerciais para bajularem as queridas ao anoitecer.

Quando me falam de "dias de..." ponho logo a mão na carteira. Vai haver gastos extra sem retorno nem sentido afectivo.

Claro que isto cai mal naqueles que hoje se transformaram nuns piegas políticos. Trocaram a ideologia pela caridade, a coragem da contestação pela lamecha.

Mas não ficaremos por aqui este mês, vem ainda aí o Dia do Pai.

Com todo o respeito pela Mulher, que eu admiro e amo, sou mesmo crente praticante, acho que Ela merecia uma melhor forma de comemoração.

Saúdo o regresso da mini-saia, uma moda que tinha caído no esquecimento. Está de volta e recomenda-se. Faz bem ao olhar, alimenta o ego das nossas queridas mulheres. Bem o merecem.

quinta-feira, março 08, 2007

5o anos de RTP

A RTP fez 50 anos. Vi o fim do espectáculo em directo do Coliseu dos Recreios em Lisboa. Um final triste e decadente com algumas figuras do antigo regime, mas também consegui ver imagens espectaculares do passado. Aquele Citroen 2 cavalos com o logo da RTP a avançar pelo meio da enchente no Ribatejo com uma cãmera em cima a fazer um travelling é do melhor que tenho visto.Televisão com fibra.
Gosto sempre dos decanos como o Luís Andrade, um homem que me inspirou desde muito novo, depois de ter visto uma entrevista sua no ZIP-Zip, programa que ele realizava com grande mestria.
Há por ali muito talento e uma memória do país fabulosa.
Oxalá nós saibamos preservar o nosso tempo como aqueles homens o souberam fazer. Augusto Rosa, Augusto Cabrita, Fernando Lopes, António Silva ( câmera) e muitos, muitos outros.
Parabéns.

A arte do lavtatório


menosketiago disse...

É triste que uma pessoa bem formada e professor universitário comente desta forma uma noticia e insulte escabrosamente um colega docente na Faculdade de Belas Artes.

De facto entristece-me ver a ignorância revelada pelo teor dos comentários. A situação em si da pobre senhora é mais que compreensivel e expectável, visto que a arte após o seculo XX tornou-se entroptica até para pessoas educadas como o autor deste texto, quanto mais para pessoas simples e pesasorasamente excluidas da cultura.

Deixe-me só referir que a obra não é um "lavatório", é um lavtatório sim, mas onde houve uma intervenção de modo a quebrar um dos seus cantos, deixando os cacos dessa intervenção no espaço em que foi inserido esse sanitário. Ora o teor da arte neste caso não é escultorico, a arte não é o lavatório, mas sim aquilo que podemos extrapolar da colocação não funcional de um lavatorio quebrado num espaço expositivo. Não conhecendo o artista não lhe posso adiantar significados conceptuais, mas sendo este um poeta digo-lhe que o significado desse lavatório é aludir a um conceito...

Posso por exemplo sugerir que a obra simboliza o carácter decrépito dos lugares comuns em que pelos vistos você decidiu enferrujar a sua mente...

terça-feira, março 06, 2007

Monica Bellucci no seu melhor

E para desenfastear Monica Bellucci

O canto do Sardo

Icnologia - diz ele

Esta iconologia do intervalo deriva de uma necessidade de compreensão da arte como uma zona de não-fixação, entre impulso e acção, fora de qualquer fixação formal, como estigma de um movimento. No entanto, a nossa percepção do movimento não nos permite ver a impossibilidade da sua representação. Delfim Sardo


Sem comentários !!!!!!!!!!!!!

Foto do dia: O canto do Sardo apetrechado de papel para higienizar idiotas. Peça a ser exibida na Bienal de Veneza dos lobistas.

Tudo sobre Sardo, todos contra Sardo

Passo a palavra aos visitantes do Instante Fatal:

Escreveu aqui Rodrigo Cabrita:

Quero falar-vos de uma história que se passou comigo a propósito deste senhor. Um dia tinha na agenda ir fotografar o então homem-forte do CCB, Delfim Sardo. Recordo-me agora depois de ler todos estes teus posts que o mesmo, em declarações à redactora do DN, disse convictamente que iria acabar com o WPP no CCB. Disse-o com um desprezo e uma crueldade tão fria como a careca dele. E estranhei. Afinal, e pela boca dele, aquela era somente a exposição que mais visitantes dava ao CCB. Mas então o porquê de acabar? Confesso que na altura fiquei desapontadíssimo, iria deixar de ter o meu ritual anual para ver tão mediática exposição embora da mesma forma que fiquei desapontado, também pensei que o tipo não era bom da cabeça e dei-lhe o devido desconto. O facto é que a exposição por lá ficou...para bem de todos nós e provavelmente para mal dele. Nunca esqueci a forma dura como se referiu ao evento. Deparei-me hoje com estes textos e passado todo este tempo, percebo que aquilo não era inocente. Fico triste, mas enfim...são opiniões. Recordo-me posteriormente à sua entrevista, a forma como me tratou quando foi preciso fotografar uns meses depois uma artista no CCB. Disse-me: "Epa, a não sei quantas está acima de nós por isso não a incomodes, é uma grande artista". Fiquei parvo. Disse-lhe que acima de mim só Deus e que no resto somos todos seres humanos iguais, além de que se a sra é uma grande artista, então que se comporte como tal! Por várias razões: 1) Para ficar bem na foto fazendo o que lhe peço ; 2) Para quando colocarem meu nome no jornal ser associado a qualidade e não ser apenas mais uma foto e 3) Se ela e você, não estiverem de acordo, digam-me já e vou embora! Mandem CD pela minha colega e ficamos amigos! Minha colega não sabia onde se meter e ele percebeu, pelo menos naquele momento, que não estava ali para brincar. Fiz o trabalho e felizmente ficou bem, mas podia ter ficado melhor se não "falasse" com a artista de modo a ela não aceitar mais fotos. Do melhor...Estes posts apenas me reavivaram a memória para algo que até já tinha esquecido. O respeito que eu tenho pelo trabalho do Sr. Delfim é proporcional ao que ele tem pelo meu ( fotojornalismo ) ou seja 0!!! É a minha opinião, assim como ele tem a dele. Luiz, um grande abraço e continua a fazer deste blog, um GRANDE blog!

Escreveu aqui Mário:

Não há problema nenhum em misturar linguagens, como não há problema nenhum em manter essas linguagens separadas. A questão aqui tem a ver com a incapacidade de muita gente de ver valor em abordagens diferentes. Não precisamos de conhecer a história da fotografia ou das artes plásticas para fotografar, embora ajude bastante, agora para comissariar exposições isso já me parece necessário, assim como uma boa dose de humildade, o que não me parece que aconteca com a pessoa em causa.O que eu vejo aqui é mais uma variante da exclusão social, neste caso aplicada à fotografia. Num plano "superior" (segundo o que se depreende) estarão os "artistas" e depois lá para baixo vêm os fotojornalistas e ainda pior os "amadores". Tudo o que se move abaixo do seu plano iluminado não existe e é apenas pó que acabará por ser soprado pelo vento.Ora assim como é possível tirar gozo estético de uma música de Perotin ou de um rock and roll dos Ramones, também é possível apreciar fotografias produzidas para objectivos muito diferentes, tal como o pepper #30 de Weston, as fotos do Ruanda de Natchway, ou os retratos de Karch.As artes não podem ser um campo de exclusão, baseado em considerações económicas ou de "classe", é o que eu defendo.Há valor em todos os campos artísticos, porque em todos há pessoas talentosas e preseverantes, mas também há muitas fraudes e vaidade humana, e é dessas que nos devemos afastar.


Escreveu aqui Bimooth:

Concordo inteiramente com o comentário de Mário. As modernas formas de expressão artística deixam-me muitas vezes com esta dúvida: sou eu que não percebo ou alguém está tentar enganar-me, sem sucesso? Penso que a melhor forma é deixarmos que a nossa intuição fale. Assim, entendo a arte como aquilo que me estimula os sentidos e a imaginação. Deixar os limites da arte no campo do subjectivo: o que é arte para mim, não será necessariamente para outros. Admito que isto se complica quando há prémios e subsídios envolvidos. E é preciso haver cuidado nos critérios a usar. Parece que hoje, em certos meios, reinam os intelectualóides, que, numa obscuridade que os esconde do cidadão comum, põem e dispõem de recursos que, melhor distribuídos, poderiam estar a fertilizar uma população que já deu grandes provas de ser criativa. E não estou a falar só de dinheiro. O mais importante seriam as oportunidades de pelo menos ser-se visto (fiquei curioso quanto ao trabalho referido da Susan Meiselas, onde poderá ser visto?). Em tempos idos, tivemos alguns grupos de pessoas, que inovaram no campo artístico. O Almada Negreiros fez umas coisas bizarras na sua juventude (aquela conferência, onde aparecia grotescamente vestido, o Manifesto, A Invenção e por aí fora. mas tinha o objectivo de interpelar a sociedade. E a coragem para o fazer. Hoje, certas correntes da «arte» parecem-se mais com pequenos parasitas discretos, que vão sugando aqui e ali...

Escreveu aqui Nuno Amaro:


Fiquei com a sensação que o próprio Delfim Sardo se arrependeu imediatamente do que disse. Mas o que não falta por aí é gente que fala sem pensar. Tenho ideia que o mundo é feito de equilíbrios e que, para existir o belo, tem de existir o feio. Se não fossem os paparazis, nunca veríamos uma Britney careca a partir um carro com um guarda-chuva. E imagens destas também têm o seu valor. Pouco, mas têm.Cumps.

212 à hora rematou:( cuidado porque este tipo é polícia!)

O meu conhecimento de fotografia vai pouco mais além de distinguir um sardo de um robalo (ou de uma tainha), como confesso abaixo.Gosto deste blogue, sobretudo, pelas "provocações com afecto" e de algumas sem afecto, diga-se em boa verdade.Por isso, parto-me a rir com alguns dos posts (por acaso, também vi o programa e o discurso cheirou a "intelectualóide"... mas, aqueles olhos da Paula Moura Pinheiro até põe um homem... cego).E porque gosto do blogue pelas provocações com, ou sem, afecto, não posso de deixar de apreciar a "bestiola" do Luís de Carvalho, já que diz o que tem a dizer, embora ás vezes passe as marcas, mas sempre de cara aberta, com frontalidade. Tomara eu poder fazer o mesmo..., sem correr o risco de me acontecer como ao Hélder Fráguas, do Aqui e Agora.


Paulo Sousa também comentou:

Isto dá pano para mangas!

É claro que existem pessoas que utilizam a fotografia como "um fim" e pessoas que utilizam a fotografia como "um meio".

E cada vez que leio mais, mais baralhado fico.

Por exemplo, como o Jorge Calado referiu numa das ultimas aparições da secção BesArte da revista do expresso, em relação a uma fotografia de Benoliel, escrevia ele que "Esta fotografia vale um tesouro. É, portanto, arte."

Recentemente tivemos a atribuição do "maior prémio de fotografia do país, o besphoto. Mas maior em que sentido? Do valor monetário, claro. E isso é Arte. Se vale tanto, é arte.
Mas este prémio também pode ser visto de outra forma: não se está a premiar arte fotográfica mas está-se a atribuir um valor a umas coisas que dizem ser "fotografia". E se aquelas "obras" valem assim tanto, então são arte, concerteza. O valor que o bes atribui é que lhe concedeu o estatuto de "arte".

Estou desgraçado. Nunca vou conseguir fazer arte. Não consigo que alguém atribua um valor monetário ao meu trabalho. Ninguém daria um chavo pelas minhas fotos...

E como escreve Alexandre Melo num dos seus livros, "Porque é que há obras de arte que custam uma fortuna? Porque há quem esteja disposto a pagar uma fortuna por elas. Pode até acontecer que um pequeno grupo de pessoas esteja disposto a pagar qualquer preço por obras que a esmagadora maioria não quereria nem dadas."

E Fernando acrescentou:

Luiz, veja então isto...o homem que pregou tanto sobre o sistema de zonas do Ansel Adams...vai-se a ver e é uma farsa...as fotos não têm preto nem branco, são apenas cinzentos vários...logo cai por terra todo aquele discurso...só dá vontade de rir (ou chorar)
Veja então aqui

E meu caros para animar a festa hoje à Blaufuks na 2 com a Ana Sousa Dias ( por acaso irmã do fotógrafo Pedro Sousa Dias e tia do Tiago, filho do Pedro).

Haja Besphoto. Amen







Não é só o Sardo que não gosta de fotojornalismo, alguns soldados americanos também não

Veja aqui.

segunda-feira, março 05, 2007

Delfim Sardo gosta de lavatórios como obra de arte


A arte que Sardo defende pode ser um...lavatório.
Tendo ele seleccionado como comissário para uma exposição sua um lavatório a empregada da limpeza não esteve com meias medidas e deitou-o para o lixo.

Mais culta do que o Sardo fez o que tinha a fazer: reduzir á sua verdadeira dimensão os critérios idiotas da bestiola.

Que nunca lhe doam as mãos !

Veja aqui a história.

Eu por mim elegia uma retrete e deitaria com um daqueles dilúvios potentes, cano abaixo, aquelas fotografias escolhidas por Sardo. Era um alívio para os olhos, claro.

Uma fotografia é uma fotografia


A fotografia não se resume ao fotojornalismo.
O exercício da expressão, o uso dos suportes disponíveis, qualquer que seja é livre.
A fotografia não é um dogma e ser fotógrafo não é seguir esta ou aquela cartilha.
É tão legítimo fazer reportagem, como retrato, fotografar em película ou em digital, usar instantes decisivos ou praticar poses longas.
A diversidade de estilos, estéticas, tendências, acabam por constituir a riqueza e o fascínio da fotografia.
Mas há uma condição para uma fotografia ser uma fotografia: coerência, estrutura narrativa, técnica, intenção, olhar, domínio da luz, cultura fotográfica.
Quando participei em 1982 no Mois de la Photo, um dos organizadores ao ver as minhas primeiras impressões não hesitou em me criticar: " podes fazer o que quiseres mas a qualidade técnica, o acabamento das fotos, tem de ser irrepreensível!". Tinha razão.

Ora, eu não critico os artistas plásticos por usarem o suporte fotográfico, tal como não critico a polícia por fotografar os suspeitos; só que uns e outros estão a usar a técnica fotográfica, não estão a usar a linguagem da fotografia.
Até podemos achar que esses retratos da polícia constituem um património valioso, e no limite artístico, como aconteceu agora com fotos antigas recuperadas, mas devemos manter alguma prudência, porque corremos o risco de perdermos critérios, referências.

Por exemplo a Helena Almeida faz instalações muito curiosas, e que gosto, depois o marido fotografa-as mas aquilo não é fotografia. São instalações fotografadas. Ela insiste que não faz fotografia mas os critícos insistem que ela é fotografa.
O que é definitivamente aberrante é aparecerem personalidades que desconhecem a História e a linguagem da fotografia e por arrogância decidem assumir que a fotografia e o seu exercício são práticas desprezíveis porque a fotografia não deve ser a representação da realidade e qualquer realismo ou relação com a verdade do real é uma fraude.

Para estes gabarolas o que conta é a colagem da fotografia à pintura e ao lobby das artes plásticas. Veja-se o caso do Molder: um pintor frustrado que tem sabido gerir uma carreira assente nos lobbys dos comissários e que é tão fotógrafo que nem sequer tira aquilo que ele chama de suas fotografias. É caricato, ridículo, mas é o que colhe em meios tão errados como o BESphoto, outra aberração cultural. Mas pegou, é um facto.


foto de Man Ray

Quando o Sardo deita postas de pescada


Ainda a propósito do programa Câmara Clara sobre fotografia com a presença do Sardo e daquele que será o Ansel Adams dos pobres.

O Sardo é uma daquelas figuras que pululam na "cultura" portuguesa, um daqueles idiotas úteis para servirem de burocratas aos designios artisticos daqueles que têm de mandar na cultura e não sabem como.

Este Sardo veste um fato preto, monta um daqueles Land Rover que a Expo 98 gostava de dar aos burocratas ( não sei se é o caso), rapa a môna, fala entre dentes e está feito um inteligente citável. Depois de se ligar ao lobby do Molder, desata a vomitar ódio sobre a fotografia e o fotojornalismo.

Quando o Gerard Castello Lopes expôs no CCB era a bestiola director. Mas ao ter convidado várias personalidades para um debate sobre fotojornalismo, entre os quais estava eu, o Jorge Calado e o próprio Gerard, o excelentissimo faltou numa total falta de respeito e falta de coragem para participar no debate. Voilá...

Quando entrevistei a Susan Meiselas para o Expresso e lhe perguntei porque não estavam as suas melhores fotografias no CCB, sobre o trabalho que tinha feito na Cova da Moura, ela respondeu-me que a escolha tinha sido...do Sardo. Ao qu`isto chegou!

Quer dizer: o tipo não enxerga um boi à frente do que é fotografia mas tem a suprema lata de se armar em tutor, editor e censor de uma personalidade tão notável como a Susan Meiselas. Depois vem à televisão arrotar postas de pescada sobre fotojornalismo.

sexta-feira, março 02, 2007

A bestiola

Perdeu-se hoje na RTP-2 uma boa oportunidade para se falar de fotografia.
Paula Moura Pinheiro quis meter o Rossio na Betesga e fazer, em alguns minutos, um programa sobre fotografia total.
Quem convidou ?
Uma das betesgas que mais sussura sobre arte, o inefável Delfim Sardo, cúmplice de Molder, e um desconhecido: Eduardo Veloso.
Pelo que ouvi trata-se de um amador que parou no tempo do Ansel Adams e pelo que vi tira umas fotografias paradas a preto e branco, sem o rigor do mestre venerado, nem o talento que seria de supor ouvindo a sua capacidade de citador.

Depois de várias peças sobre vários géneros fotográficos, depois comentados pelas sumidades convidadas, que iam despejando banalidades ou inventando teorias como as da relação fotografia- cinema ou pintura-fotografia, a cereja em cima do bolo veio da boca de Sardo que acha que o fotojornalismo está no limbo do que os paparazis fazem. Ele que foi programador no CCB, tem o descaramento de insultar o fotojornalismo e de pôr em causa a honra e a ética de quem exerce a profissão.

Pinhólas fica ao rubro, engole em seco, e ainda consegue vir em socorro dos colegas jornalistas-fotógrafos lembrando à bestiola que muitas das fotografias do World Press Photo conseguiram com a sua força documental tornarem-se em baluartes da defesa dos Direitos Humanos.

quinta-feira, março 01, 2007

Lisboa-Coimbra on the road

A "nova" Coimbra, hoje. Foto de Luiz Carvalho
1-Hoje pela manhã calmamente saio de Lisboa a caminho de Coimbra. Junto a Vila Franca de Xira, na A1, uma bicha de quilómetros de carros e camiões para entrarem na ponte .

Os governos passaram a considerar que não vale a pena investir em estradas e pontes sem portagens para quem trabalha. A velha ponte, do tempo do Salazar, já não aguenta tanto tráfego e a recta do cabo está obsoleta. Quem se preocupa? A economia ali parada. Quantas horas não se perdem em produtividade?

2- Coimbra está cheia de circulares e pontes. Muita construção imobiliária. Uma cobertura gigante à entrada corta a tradicional vista sobre Coimbra.
Alguém se preocupa? Para quê?

3- Regresso pela N1 até Leiria. A velha estrada que tanta lembrança me traz das minhas viagens de infância no Morris 8 do meu pai entre Torres Novas e Viseu, está devotada ao abandono. Parece a terra abandonada do filme Cars, versão portuguesa. O Estado abandonou a estrada principal, a espinha dorsal do país. Se há auto-estrada para pagar para quê a N1?
E já agora: para que pagamos impostos, IA, imposto de circulação e outras alcavalas ?

4- É bom mergulhar às vezes no país real.

Do dia ficou-me a agradável estadia na Quinta das Lágrimas a fotografar José Miguel Júdice e o agradável almoço para o qual ele me convidou.
E mais não digo.