
Passo a transcrever esta crónica de José António Saraiva, publicada no Sol. E esta hein ?...
CONTEI nesta coluna que no Natal tive um acidente de automóvel que deixou o meu carro muito amolgado. Ao fim da tarde de quinta-feira da semana passada, após várias peripécias relacionadas com o seguro, fui informado de que o carro estava pronto. Estabeleci então o programa para a manhã seguinte: como não iria trabalhar, dado o SOL ter antecipado o dia de saída por causa do referendo do aborto, levaria a minha mulher ao emprego (junto à Avenida da República), passaria depois pela António Augusto de Aguiar para devolver o veículo de aluguer que entretanto tinha usado, meter-me-ia a seguir no Metropolitano na estação do Parque e sairia no Jardim Zoológico – que fica a dois passos da Mercauto, onde o meu carro fora reparado.
CUMPRI o programa à risca, com uma pequena alteração: depois de entregar o carro de aluguer fui comprar o jornal e sentei-me a lê-lo numa pastelaria da António Augusto de Aguiar, enquanto tomava o pequeno--almoço (um chá e uma torrada). O dia estava a correr bem.
Chegado à Mercauto, porém, tive a primeira surpresa: o automóvel não estava lá. Telefonemas para baixo e para cima, contactos pelo intercomunicador, mas nada: o carro tinha saído sem ser, sequer, reparado! A recepcionista, diligente, fazia-me perguntas:
– Com quem é que falou? Quem lhe disse que o seu carro estava pronto?
Mas eu não sabia dizer nada: fora a minha secretária quem tratara de tudo. A senhora tirou então a única conclusão lógica (a que eu, aliás, já chegara):
– Então telefone à sua secretária.
Assim fiz. Expliquei-lhe a situação, pedi-lhe para tentar perceber o que acontecera e sentei-me num sofá à espera. Passados longos minutos, lá veio a explicação: o carro fora, de facto, transferido para outra oficina, por opção da seguradora, e tinham-se esquecido de nos avisar. A outra oficina ficava no Prior Velho. Pedi desculpa à recepcionista da Mercauto pela maçada que lhe dera e meti-me num táxi a caminho da nova morada.
A RUA que me indicaram ficava numa daquelas zonas industriais incaracterísticas que existem em todos os subúrbios, onde a fealdade impera e é quase impossível encontrar uma morada, porque os nomes das ruas não são visíveis, e as portas, em regra, não têm números. Vêem-se portões, barracões, rampas, letreiros comerciais – mas como descobrir uma vulgar morada no meio desta floresta? Como o chofer do táxi também não conhecia a zona, andámos às apalpadelas e eu tive de sair do carro para pedir ajuda.
Finalmente lá descobrimos a oficina – e aí, para compensar, as coisas revelaram-se surpreendentemente fáceis: mal entrei, dei de caras com o meu automóvel. Não posso dizer que o reencontro tenha sido comovente (como seria com o Paco, se não o visse há três semanas) mas é consolador uma pessoa voltar a sentar-se ao volante do seu carro após um tempo de separação forçada. É um ‘regresso a casa’ em ponto pequeno.
QUANDO, a caminho do sítio onde moro, passava na 2.ª Circular, verifiquei que tinha pouca gasolina e parei num posto da Repsol para abastecer. Mal tinha saído do carro, pára ao meu lado outro Mercedes e o condutor chama por mim, enquanto abre o vidro. Aproximo-me e ele diz-me de dentro:
– Então, estás mesmo bom? Sabes, eu já não estou na Mercedes... Estou no Corte Inglés. Sou director do Corte Inglés... Então, como se tem portado a máquina? – e apontou para o meu carro.
Eu não me lembrava nada daquela cara. Mas, dada a conversa, admiti que fosse o homem que me tinha vendido o Mercedes. Ainda que estranhasse o tratamento por tu...
O fulano continuou:
– Por que é que não foste ao desfile de moda no Corte Inglés? Mandei-te o convite... Estava lá toda a gente! – Balbuciei uma explicação mas o homem não quis ouvir. Disse-me, em contrapartida, para apontar um número de telefone que me ia dar. Respondi-lhe que não tinha caneta. Ele perguntou-me então, como se tivesse tido uma súbita lembrança: – Qual é a altura da tua mulher? – Disse-lhe que era a normal (o que não era exactamente verdade). Nesse momento ele abriu a porta do carro, saiu, disse para mim «abre a bagageira», foi à bagageira dele, tirou dois sacos de plástico, meteu-os na minha.
Eu assistia a tudo, atónito. Não percebia o que estava a acontecer. Admiti que, sendo director do El Corte Inglés, teria certos artigos de promoção para oferecer a clientes especiais. Mas ele atalhou:
– É um casaco de pele para a tua mulher e outro para ti. Custam 870 euros cada, mas se te perguntarem diz que custaram mil. Não digas menos de mil!
O homem fechou então a porta traseira da minha carrinha e fez menção de se ir embora. Era agora o que eu mais desejava: que se fosse embora. Não sabia o que estava dentro dos sacos nem isso tinha qualquer importância. O importante era acabar com aquela situação insólita.
Ao estender-me a mão para se despedir, o homem acrescentou: – Se fores ao Corte Inglés, não te esqueças de pedir para falar com o Vieira. Eu ajudo-te no que for preciso –. E mesmo a finalizar:
– E dá aí qualquer coisa para o IVA. Os casacos são oferta minha, mas é preciso pagar o IVA.
Com alguma relutância fui puxando da carteira, enquanto ele debitava: – Algumas pessoas dão mil euros... – Mil euros para o IVA? – estranhei, escandalizado. – Dás o que for possível – tranquilizou-me. Consultei a carteira, tirei quase todo o dinheiro que lá tinha (apenas deixei uma nota de 5 euros) e estendi-lho: –- É o que tenho – rematei, enquanto ele agarrava as cinco notas de 20 euros, antes de se meter no carro e arrancar velozmente.
SÓ AQUI tive a suspeita de que poderia ter caído no conto do vigário.
Se o homem fosse o que me vendera o carro nunca me trataria por tu. Se fosse director do El Corte Inglés e andasse com artigos na bagageira para oferecer a clientes ‘especiais’ nunca lhes pediria depois o dinheiro do IVA (que às tantas já ia em mil euros!). E os próprios modos do homem não eram os de alguém habituado a lidar com pessoas de certo nível mas sim os de um frequentador de bas-fonds e ambientes suspeitos.
Quando cheguei a casa já não tinha dúvidas de que fora enganado. Os casacos não eram obviamente ‘amostras’ do El Corte Inglés mas sim retalhos a fingir de casacos ou, na melhor das hipóteses, roupa dos ciganos. Estava tão irritado que não abri sequer o porta-bagagens para ‘tirar a limpo’ o que se passara.
Apenas o fiz umas horas mais tarde, depois de refeito da irritação. E tive uma surpresa: os casacos eram mesmo casacos! A imitar pele. Ambos castanhos-claros, o de senhora mais amarelado, com o pêlo da parte de dentro, excepto na gola e em baixo, na bainha, a formar um debrum. O meu era um casaco-blusão normalíssimo, de corte razoável, perfeitamente utilizável aos fins-de-semana.
A etiqueta, porém, revelava o ‘pecado original’: a origem chinesa. Por baixo da informação «100 % Polyester», figurava um importador de Madrid com nome chinês. Os casacos estão certamente à venda, portanto, nas lojas chinesas. Por 15 euros cada ou menos – e eu passara voluntariamente 100 euros para as mãos do homem para pagar o IVA!
Embora mantenha grande estima pelo meu automóvel, tenho de reconhecer que anda azarado. No Natal veio para cima de nós um carro com dois ucranianos, que fugiram depois do acidente; no dia em que vou buscá-lo à oficina sou descaradamente vigarizado por um burlão. Qual será a terceira?


















