quinta-feira, março 08, 2007

A arte do lavtatório


menosketiago disse...

É triste que uma pessoa bem formada e professor universitário comente desta forma uma noticia e insulte escabrosamente um colega docente na Faculdade de Belas Artes.

De facto entristece-me ver a ignorância revelada pelo teor dos comentários. A situação em si da pobre senhora é mais que compreensivel e expectável, visto que a arte após o seculo XX tornou-se entroptica até para pessoas educadas como o autor deste texto, quanto mais para pessoas simples e pesasorasamente excluidas da cultura.

Deixe-me só referir que a obra não é um "lavatório", é um lavtatório sim, mas onde houve uma intervenção de modo a quebrar um dos seus cantos, deixando os cacos dessa intervenção no espaço em que foi inserido esse sanitário. Ora o teor da arte neste caso não é escultorico, a arte não é o lavatório, mas sim aquilo que podemos extrapolar da colocação não funcional de um lavatorio quebrado num espaço expositivo. Não conhecendo o artista não lhe posso adiantar significados conceptuais, mas sendo este um poeta digo-lhe que o significado desse lavatório é aludir a um conceito...

Posso por exemplo sugerir que a obra simboliza o carácter decrépito dos lugares comuns em que pelos vistos você decidiu enferrujar a sua mente...

terça-feira, março 06, 2007

Monica Bellucci no seu melhor

E para desenfastear Monica Bellucci

O canto do Sardo

Icnologia - diz ele

Esta iconologia do intervalo deriva de uma necessidade de compreensão da arte como uma zona de não-fixação, entre impulso e acção, fora de qualquer fixação formal, como estigma de um movimento. No entanto, a nossa percepção do movimento não nos permite ver a impossibilidade da sua representação. Delfim Sardo


Sem comentários !!!!!!!!!!!!!

Foto do dia: O canto do Sardo apetrechado de papel para higienizar idiotas. Peça a ser exibida na Bienal de Veneza dos lobistas.

Tudo sobre Sardo, todos contra Sardo

Passo a palavra aos visitantes do Instante Fatal:

Escreveu aqui Rodrigo Cabrita:

Quero falar-vos de uma história que se passou comigo a propósito deste senhor. Um dia tinha na agenda ir fotografar o então homem-forte do CCB, Delfim Sardo. Recordo-me agora depois de ler todos estes teus posts que o mesmo, em declarações à redactora do DN, disse convictamente que iria acabar com o WPP no CCB. Disse-o com um desprezo e uma crueldade tão fria como a careca dele. E estranhei. Afinal, e pela boca dele, aquela era somente a exposição que mais visitantes dava ao CCB. Mas então o porquê de acabar? Confesso que na altura fiquei desapontadíssimo, iria deixar de ter o meu ritual anual para ver tão mediática exposição embora da mesma forma que fiquei desapontado, também pensei que o tipo não era bom da cabeça e dei-lhe o devido desconto. O facto é que a exposição por lá ficou...para bem de todos nós e provavelmente para mal dele. Nunca esqueci a forma dura como se referiu ao evento. Deparei-me hoje com estes textos e passado todo este tempo, percebo que aquilo não era inocente. Fico triste, mas enfim...são opiniões. Recordo-me posteriormente à sua entrevista, a forma como me tratou quando foi preciso fotografar uns meses depois uma artista no CCB. Disse-me: "Epa, a não sei quantas está acima de nós por isso não a incomodes, é uma grande artista". Fiquei parvo. Disse-lhe que acima de mim só Deus e que no resto somos todos seres humanos iguais, além de que se a sra é uma grande artista, então que se comporte como tal! Por várias razões: 1) Para ficar bem na foto fazendo o que lhe peço ; 2) Para quando colocarem meu nome no jornal ser associado a qualidade e não ser apenas mais uma foto e 3) Se ela e você, não estiverem de acordo, digam-me já e vou embora! Mandem CD pela minha colega e ficamos amigos! Minha colega não sabia onde se meter e ele percebeu, pelo menos naquele momento, que não estava ali para brincar. Fiz o trabalho e felizmente ficou bem, mas podia ter ficado melhor se não "falasse" com a artista de modo a ela não aceitar mais fotos. Do melhor...Estes posts apenas me reavivaram a memória para algo que até já tinha esquecido. O respeito que eu tenho pelo trabalho do Sr. Delfim é proporcional ao que ele tem pelo meu ( fotojornalismo ) ou seja 0!!! É a minha opinião, assim como ele tem a dele. Luiz, um grande abraço e continua a fazer deste blog, um GRANDE blog!

Escreveu aqui Mário:

Não há problema nenhum em misturar linguagens, como não há problema nenhum em manter essas linguagens separadas. A questão aqui tem a ver com a incapacidade de muita gente de ver valor em abordagens diferentes. Não precisamos de conhecer a história da fotografia ou das artes plásticas para fotografar, embora ajude bastante, agora para comissariar exposições isso já me parece necessário, assim como uma boa dose de humildade, o que não me parece que aconteca com a pessoa em causa.O que eu vejo aqui é mais uma variante da exclusão social, neste caso aplicada à fotografia. Num plano "superior" (segundo o que se depreende) estarão os "artistas" e depois lá para baixo vêm os fotojornalistas e ainda pior os "amadores". Tudo o que se move abaixo do seu plano iluminado não existe e é apenas pó que acabará por ser soprado pelo vento.Ora assim como é possível tirar gozo estético de uma música de Perotin ou de um rock and roll dos Ramones, também é possível apreciar fotografias produzidas para objectivos muito diferentes, tal como o pepper #30 de Weston, as fotos do Ruanda de Natchway, ou os retratos de Karch.As artes não podem ser um campo de exclusão, baseado em considerações económicas ou de "classe", é o que eu defendo.Há valor em todos os campos artísticos, porque em todos há pessoas talentosas e preseverantes, mas também há muitas fraudes e vaidade humana, e é dessas que nos devemos afastar.


Escreveu aqui Bimooth:

Concordo inteiramente com o comentário de Mário. As modernas formas de expressão artística deixam-me muitas vezes com esta dúvida: sou eu que não percebo ou alguém está tentar enganar-me, sem sucesso? Penso que a melhor forma é deixarmos que a nossa intuição fale. Assim, entendo a arte como aquilo que me estimula os sentidos e a imaginação. Deixar os limites da arte no campo do subjectivo: o que é arte para mim, não será necessariamente para outros. Admito que isto se complica quando há prémios e subsídios envolvidos. E é preciso haver cuidado nos critérios a usar. Parece que hoje, em certos meios, reinam os intelectualóides, que, numa obscuridade que os esconde do cidadão comum, põem e dispõem de recursos que, melhor distribuídos, poderiam estar a fertilizar uma população que já deu grandes provas de ser criativa. E não estou a falar só de dinheiro. O mais importante seriam as oportunidades de pelo menos ser-se visto (fiquei curioso quanto ao trabalho referido da Susan Meiselas, onde poderá ser visto?). Em tempos idos, tivemos alguns grupos de pessoas, que inovaram no campo artístico. O Almada Negreiros fez umas coisas bizarras na sua juventude (aquela conferência, onde aparecia grotescamente vestido, o Manifesto, A Invenção e por aí fora. mas tinha o objectivo de interpelar a sociedade. E a coragem para o fazer. Hoje, certas correntes da «arte» parecem-se mais com pequenos parasitas discretos, que vão sugando aqui e ali...

Escreveu aqui Nuno Amaro:


Fiquei com a sensação que o próprio Delfim Sardo se arrependeu imediatamente do que disse. Mas o que não falta por aí é gente que fala sem pensar. Tenho ideia que o mundo é feito de equilíbrios e que, para existir o belo, tem de existir o feio. Se não fossem os paparazis, nunca veríamos uma Britney careca a partir um carro com um guarda-chuva. E imagens destas também têm o seu valor. Pouco, mas têm.Cumps.

212 à hora rematou:( cuidado porque este tipo é polícia!)

O meu conhecimento de fotografia vai pouco mais além de distinguir um sardo de um robalo (ou de uma tainha), como confesso abaixo.Gosto deste blogue, sobretudo, pelas "provocações com afecto" e de algumas sem afecto, diga-se em boa verdade.Por isso, parto-me a rir com alguns dos posts (por acaso, também vi o programa e o discurso cheirou a "intelectualóide"... mas, aqueles olhos da Paula Moura Pinheiro até põe um homem... cego).E porque gosto do blogue pelas provocações com, ou sem, afecto, não posso de deixar de apreciar a "bestiola" do Luís de Carvalho, já que diz o que tem a dizer, embora ás vezes passe as marcas, mas sempre de cara aberta, com frontalidade. Tomara eu poder fazer o mesmo..., sem correr o risco de me acontecer como ao Hélder Fráguas, do Aqui e Agora.


Paulo Sousa também comentou:

Isto dá pano para mangas!

É claro que existem pessoas que utilizam a fotografia como "um fim" e pessoas que utilizam a fotografia como "um meio".

E cada vez que leio mais, mais baralhado fico.

Por exemplo, como o Jorge Calado referiu numa das ultimas aparições da secção BesArte da revista do expresso, em relação a uma fotografia de Benoliel, escrevia ele que "Esta fotografia vale um tesouro. É, portanto, arte."

Recentemente tivemos a atribuição do "maior prémio de fotografia do país, o besphoto. Mas maior em que sentido? Do valor monetário, claro. E isso é Arte. Se vale tanto, é arte.
Mas este prémio também pode ser visto de outra forma: não se está a premiar arte fotográfica mas está-se a atribuir um valor a umas coisas que dizem ser "fotografia". E se aquelas "obras" valem assim tanto, então são arte, concerteza. O valor que o bes atribui é que lhe concedeu o estatuto de "arte".

Estou desgraçado. Nunca vou conseguir fazer arte. Não consigo que alguém atribua um valor monetário ao meu trabalho. Ninguém daria um chavo pelas minhas fotos...

E como escreve Alexandre Melo num dos seus livros, "Porque é que há obras de arte que custam uma fortuna? Porque há quem esteja disposto a pagar uma fortuna por elas. Pode até acontecer que um pequeno grupo de pessoas esteja disposto a pagar qualquer preço por obras que a esmagadora maioria não quereria nem dadas."

E Fernando acrescentou:

Luiz, veja então isto...o homem que pregou tanto sobre o sistema de zonas do Ansel Adams...vai-se a ver e é uma farsa...as fotos não têm preto nem branco, são apenas cinzentos vários...logo cai por terra todo aquele discurso...só dá vontade de rir (ou chorar)
Veja então aqui

E meu caros para animar a festa hoje à Blaufuks na 2 com a Ana Sousa Dias ( por acaso irmã do fotógrafo Pedro Sousa Dias e tia do Tiago, filho do Pedro).

Haja Besphoto. Amen







Não é só o Sardo que não gosta de fotojornalismo, alguns soldados americanos também não

Veja aqui.

segunda-feira, março 05, 2007

Delfim Sardo gosta de lavatórios como obra de arte


A arte que Sardo defende pode ser um...lavatório.
Tendo ele seleccionado como comissário para uma exposição sua um lavatório a empregada da limpeza não esteve com meias medidas e deitou-o para o lixo.

Mais culta do que o Sardo fez o que tinha a fazer: reduzir á sua verdadeira dimensão os critérios idiotas da bestiola.

Que nunca lhe doam as mãos !

Veja aqui a história.

Eu por mim elegia uma retrete e deitaria com um daqueles dilúvios potentes, cano abaixo, aquelas fotografias escolhidas por Sardo. Era um alívio para os olhos, claro.

Uma fotografia é uma fotografia


A fotografia não se resume ao fotojornalismo.
O exercício da expressão, o uso dos suportes disponíveis, qualquer que seja é livre.
A fotografia não é um dogma e ser fotógrafo não é seguir esta ou aquela cartilha.
É tão legítimo fazer reportagem, como retrato, fotografar em película ou em digital, usar instantes decisivos ou praticar poses longas.
A diversidade de estilos, estéticas, tendências, acabam por constituir a riqueza e o fascínio da fotografia.
Mas há uma condição para uma fotografia ser uma fotografia: coerência, estrutura narrativa, técnica, intenção, olhar, domínio da luz, cultura fotográfica.
Quando participei em 1982 no Mois de la Photo, um dos organizadores ao ver as minhas primeiras impressões não hesitou em me criticar: " podes fazer o que quiseres mas a qualidade técnica, o acabamento das fotos, tem de ser irrepreensível!". Tinha razão.

Ora, eu não critico os artistas plásticos por usarem o suporte fotográfico, tal como não critico a polícia por fotografar os suspeitos; só que uns e outros estão a usar a técnica fotográfica, não estão a usar a linguagem da fotografia.
Até podemos achar que esses retratos da polícia constituem um património valioso, e no limite artístico, como aconteceu agora com fotos antigas recuperadas, mas devemos manter alguma prudência, porque corremos o risco de perdermos critérios, referências.

Por exemplo a Helena Almeida faz instalações muito curiosas, e que gosto, depois o marido fotografa-as mas aquilo não é fotografia. São instalações fotografadas. Ela insiste que não faz fotografia mas os critícos insistem que ela é fotografa.
O que é definitivamente aberrante é aparecerem personalidades que desconhecem a História e a linguagem da fotografia e por arrogância decidem assumir que a fotografia e o seu exercício são práticas desprezíveis porque a fotografia não deve ser a representação da realidade e qualquer realismo ou relação com a verdade do real é uma fraude.

Para estes gabarolas o que conta é a colagem da fotografia à pintura e ao lobby das artes plásticas. Veja-se o caso do Molder: um pintor frustrado que tem sabido gerir uma carreira assente nos lobbys dos comissários e que é tão fotógrafo que nem sequer tira aquilo que ele chama de suas fotografias. É caricato, ridículo, mas é o que colhe em meios tão errados como o BESphoto, outra aberração cultural. Mas pegou, é um facto.


foto de Man Ray

Quando o Sardo deita postas de pescada


Ainda a propósito do programa Câmara Clara sobre fotografia com a presença do Sardo e daquele que será o Ansel Adams dos pobres.

O Sardo é uma daquelas figuras que pululam na "cultura" portuguesa, um daqueles idiotas úteis para servirem de burocratas aos designios artisticos daqueles que têm de mandar na cultura e não sabem como.

Este Sardo veste um fato preto, monta um daqueles Land Rover que a Expo 98 gostava de dar aos burocratas ( não sei se é o caso), rapa a môna, fala entre dentes e está feito um inteligente citável. Depois de se ligar ao lobby do Molder, desata a vomitar ódio sobre a fotografia e o fotojornalismo.

Quando o Gerard Castello Lopes expôs no CCB era a bestiola director. Mas ao ter convidado várias personalidades para um debate sobre fotojornalismo, entre os quais estava eu, o Jorge Calado e o próprio Gerard, o excelentissimo faltou numa total falta de respeito e falta de coragem para participar no debate. Voilá...

Quando entrevistei a Susan Meiselas para o Expresso e lhe perguntei porque não estavam as suas melhores fotografias no CCB, sobre o trabalho que tinha feito na Cova da Moura, ela respondeu-me que a escolha tinha sido...do Sardo. Ao qu`isto chegou!

Quer dizer: o tipo não enxerga um boi à frente do que é fotografia mas tem a suprema lata de se armar em tutor, editor e censor de uma personalidade tão notável como a Susan Meiselas. Depois vem à televisão arrotar postas de pescada sobre fotojornalismo.

sexta-feira, março 02, 2007

A bestiola

Perdeu-se hoje na RTP-2 uma boa oportunidade para se falar de fotografia.
Paula Moura Pinheiro quis meter o Rossio na Betesga e fazer, em alguns minutos, um programa sobre fotografia total.
Quem convidou ?
Uma das betesgas que mais sussura sobre arte, o inefável Delfim Sardo, cúmplice de Molder, e um desconhecido: Eduardo Veloso.
Pelo que ouvi trata-se de um amador que parou no tempo do Ansel Adams e pelo que vi tira umas fotografias paradas a preto e branco, sem o rigor do mestre venerado, nem o talento que seria de supor ouvindo a sua capacidade de citador.

Depois de várias peças sobre vários géneros fotográficos, depois comentados pelas sumidades convidadas, que iam despejando banalidades ou inventando teorias como as da relação fotografia- cinema ou pintura-fotografia, a cereja em cima do bolo veio da boca de Sardo que acha que o fotojornalismo está no limbo do que os paparazis fazem. Ele que foi programador no CCB, tem o descaramento de insultar o fotojornalismo e de pôr em causa a honra e a ética de quem exerce a profissão.

Pinhólas fica ao rubro, engole em seco, e ainda consegue vir em socorro dos colegas jornalistas-fotógrafos lembrando à bestiola que muitas das fotografias do World Press Photo conseguiram com a sua força documental tornarem-se em baluartes da defesa dos Direitos Humanos.

quinta-feira, março 01, 2007

Lisboa-Coimbra on the road

A "nova" Coimbra, hoje. Foto de Luiz Carvalho
1-Hoje pela manhã calmamente saio de Lisboa a caminho de Coimbra. Junto a Vila Franca de Xira, na A1, uma bicha de quilómetros de carros e camiões para entrarem na ponte .

Os governos passaram a considerar que não vale a pena investir em estradas e pontes sem portagens para quem trabalha. A velha ponte, do tempo do Salazar, já não aguenta tanto tráfego e a recta do cabo está obsoleta. Quem se preocupa? A economia ali parada. Quantas horas não se perdem em produtividade?

2- Coimbra está cheia de circulares e pontes. Muita construção imobiliária. Uma cobertura gigante à entrada corta a tradicional vista sobre Coimbra.
Alguém se preocupa? Para quê?

3- Regresso pela N1 até Leiria. A velha estrada que tanta lembrança me traz das minhas viagens de infância no Morris 8 do meu pai entre Torres Novas e Viseu, está devotada ao abandono. Parece a terra abandonada do filme Cars, versão portuguesa. O Estado abandonou a estrada principal, a espinha dorsal do país. Se há auto-estrada para pagar para quê a N1?
E já agora: para que pagamos impostos, IA, imposto de circulação e outras alcavalas ?

4- É bom mergulhar às vezes no país real.

Do dia ficou-me a agradável estadia na Quinta das Lágrimas a fotografar José Miguel Júdice e o agradável almoço para o qual ele me convidou.
E mais não digo.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Um dia diferente dos outros

Uma manhã em exames de rotina no hospital não é muito agradável.
Primeia chatíce: tem de se entrar em Lisboa.
Uma hora aos solavancos dentro do carro.
Depois encontrar lugar para estacionar, antes uma jante cai num buraco, coisa que não me acontecia há anos.
Lisboa está escalavrada mas...calma lisboeta !! O presidente Carmona andou a lavar as paredes sujas de cartazes no Rossio. Este tipo devia ter vergonha na cara mas pelos vistos estes políticos perderam-na e continuam a gozar com os idiotas que votam neles.

Já no hospital há que esperar pela vez, mas como é um hospital particular a coisa é rápida, eficaz. Porque não são assim os públicos ? Ou não será que custam mais a sustentar que os privados ? Abstenho-me de entrar naquele tipo de pormenores que fariam as delícias do meu homólogo arquitecto.
Só vos digo que não é agradável fazer ecografias, mesmo não estando grávido, e o pior é a prova de esforço, não pelo barulho infernal de uma broca das obras que por ali trabalhava
( talvez a mesma que me ia estragando a estadia no hotel de Bombaim!) mas pela trabalheira.
Correr 15 minutos até atingir as 140 pulsações por minuto, é pior que um Porsche às 5 mil a gastar 15 !!!
Se estando saudável - ao que parece- o que será estando doente!
Deus ( esse mesmo) nos poupe a sofrimentos. Haja saúde, a coisa mais sagrada.
Desculpem a banalidade.

De regresso ao jornal assisti do alto do varandim do edificio Impresa
( belissímo) à apresentação da nova Visão. É um projecto bonito não sendo uma ruptura com o anterior. Felicidades malta e um grande abraço ao Pedro Camacho e à minha querida amiga Claúdio Lobo.

Vi o video feito pelo Marco Grieco e pelo João Carlos Santos sobre a evolução do grafismo do Expresso, que vai ser apresentado em Viena de Aústria num encontro de design onde o Expresso ganhou este ano...14 prémios e já no ano passado tinha marcado pontos.
É espantoso como nós no Expresso já conseguimos os meios humanos, conhecimentos, entusiasmo e paixão por esta linguagem. Claro que fui eu que comecei, mas a coisa já anda por si, o que não deixa de ser gratificante para mim.

Deu ainda para ver o resultado final da ÚNICA já fechada. Linda a capa com...senhoras e senhores a grande atracção Paula Lee fotografada pelo Jordi Burch! Foi um trabalho que me fez ganhar a semana.

Acabei o dia na minha aula de fotojornalismo. Falei da coisa em si e das ligações perigosas às outras plataformas.

Amanhã Coimbra comigo, para um dia diferente.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Porque devem os jornalistas ter blogues

Listam-se aqui algumas razões para que os jornalistas escrevam blogues:

- Melhora a escrita.

- Atrai e envolve o público.

- Oferece um melhor entendimento do mundo digital.

- Ajuda a desenvolver alguns conhecimentos técnicos.

- É divertido.

Concordo com tudo. Mas, do que tem sido a minha experiência, acrescentaria:

- Ajuda a mantermo-nos a par dos assuntos que se desenrolam gradualmente. Já várias vezes publiquei no blogue informação que recuperei para escrever um artigo.

- Traz à atenção (através de comentários dos leitores, de referências cruzadas ou simplesmente da procura de algo sobre que escrever) assuntos que passariam despercebidos. Escrever um blogue e estar atento à blogosfera é uma excelente forma de descobrir estórias interessantes ou de obter algumas pistas úteis.

- Permite conhecer possíveis fontes. Ter um blogue permite-nos conhecer outras pessoas e permite que elas nos conheçam. É mais fácil abordar alguém que pode ser uma fonte quando esta pessoa segue aquilo que escrevemos - mesmo que nunca tenha havido um contacto directo.

- Permite um registo diferente do da escrita profissional.

- Ensina a comunicar eficazmente na Web.

João Pedro Pereira

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Um Óscar para Alberto João Jardim, JÁ!...

Foto de Luiz Carvalho, 2005.

Em 1989 fui à Madeira fotografar Alberto João Jardim.

A primeira foto começou bem: o chefe do governo regional ia inaugurar uns metros de estrada que acabavam em nenhures. Havia uma banda de música à espera, crianças vestidas de domingo, povo real. Alberto João andou uns metros a pé, cortou uma fita e, sem pejo, emborcou directamente da garrafa um espumante de método champagnês.

Fiz uma sequência fotográfica sem que ele tivesse tido qualquer complexo em posar naqueles propósitos mesmo sabendo que eu era do Expresso, portanto: um fotógrafo cubano. A foto foi capa da revista do Expresso ainda no tempo do grande formato. Lá dentro havia fotos da realidade social madeirense, imagens de uma Madeira rural e pobre onde o folclore para turista ver se misturava com miséria. O Jorge Van Krieken, que escreveu a reportagem - e de quem Jardim dizia que tinha um nome pornográfico – não desarmava enquanto não encontrasse vestígios bárbaros da governação madeirense. Na altura, era fácil encontrar na Madeira trabalho infantil, pedofília, bairros miseráveis, pobreza mesmo. Mas o Continente também não fugia à regra.

Anos depois ainda o fotografei para uma entrevista, que ele acedeu em dar com relutância ao Expresso, depois do trauma que lhe terá deixado aquela reportagem do Krieken.

Quando Sampaio visitou a ilha em 1997 numa Presidência Aberta, Jardim mandava-me bocas pelo facto de ser do EXPRESSO, provocatório mas também divertido, o que para certos jornalistas teria sido uma ingerência intolerável na liberdade de imprensa.

Eu ria e respondia-lhe com sorrisos, enquanto o ia apanhando em poses caricatas.


Chegou a pedir-me para o fotografar ao lado de Sampaio num instante de convivência institucional eterno.

Há dois anos voltei para uma entrevista de vida para a ÚNICA. Ao propor-lhe segui-lo num dia de inaugurações, aceitou de imediato.

Já me conhecia e, talvez pelo facto de eu nunca ter afinado com as suas provocações, permitiu logo uma certa empatia. No final da entrevista, ao saber que gosto de charutos, ofereceu-me um cubano (dos verdadeiros, do Fidel) com uma cinta em que estava gravado o seu nome. Simpático. (Oxalá o Óscar Mascarenhas, que é o controleiro do sindicato, não leia esta crónica !!).

No dia seguinte viajei no lugar do morto no seu Mercedes E320.

O motorista acelerava bem, mostrando um perfeito conhecimento das curvas e contracurvas da ilha, num rally que nos levou a lugarejos perdidos, em escarpas como presépios.

Durante a viagem falou-me na sua admiração por Fidel e Chavez e da embirração antiga pelo cavaquismo. “ O Cavaco sempre se fez rodear por uns tipos pretensiosos e carreiristas. Um dia em S. Bento veio um engravatado ter comigo, apresentou-se dizendo que já tinha sido secretário de estado, que tinha feito um doutoramento no estrangeiro, todo basófias em bicos de pés. Eu disse-lhe: você não tem idade para ser governante! Sabe porquê? Porque com essa idade ainda não deve ter aprendido a beijar uma mulher como deve ser! O tipo desapareceu logo dali”.

Ao longe, já se avistava uma multidão. A banda arrancou com o fungagá e ele, saindo do carro em passo firme, começa a cumprimentar toda a gente, tratando muitos dos presentes pelo nome próprio. Quando sente o cheiro do povo parece que se transfigura. Passa de um discurso afável e confessional para uma atitude tensa, controlada e certeira.


Trata todos por tu, pergunta por familiares, refere pormenores que mostram estar a par de pequenas coisas do dia- a -dia da comunidade. Aproveita para dizer mal do oposicionista local, gozando-o. Bebe uma cerveja, petisca um pastél de bacalhau, arranca para pregar noutra freguesia.

“Nunca dou dinheiro a ninguém para esbanjar em tabaco e bebedeira. Esta gente acaba por perceber que assim pode viver melhor”. As palavras faziam este sentido e na verdade tudo o que ele inaugurava ia ter um reflexo real na vida real das pessoas. Habitação social, estradas, lotes para novas casas, escolas.

Desenvolvimento. Parece ser a obsessão dele, mesmo que cobre isso caro, com controle na liberdade de expressão, na imprensa local, nos organismos governamentais. É o conformismo subserviente do padrinho mas que emprega milhares. É o populismo em forma de Jardim.

A oposição encolhe-se, perde margem de manobra, parece que Jardim tem um ascendente sobre quem o rodeia. A verdade é que a oposição fica às aranhas com a sua descontracção, à vontade, e arrogância natural.

Numa das paredes do Palácio do Governo um mapa com todas inaugurações previstas até ao dia das eleições mostrava o plano da pólvora para ganhar. Tudo preparado ao pormenor, assessorado por uma equipa eficaz que na sombra não falha nada.

O homem que gosta de noitadas confessava-me que era uma "chatice" ter de ir visitar Mota Amaral aos Açores, quando este era seu homónimo. “ O Mota Amaral quase não me deixava sair do palácio. Eu saía na mesma. Um dia queria jantar às dez da noite e estava tudo fechado em Ponta Delgada. Comecei a andar pelas ruas e descobri uma tasca, bati à porta, e fiquei lá a petiscar com uma malta divertida da TAP.
O Mota Amaral se soubesse!”. Depois referiu o célebre trocadilho da «Opus Day» e do «Copus Night».

Fotografar Alberto João Jardim é estimulante. Comporta-se frente às câmeras como Mário Soares: nada o inibe e acaba por ficar sempre bem no retrato. Tem outra característica comum ao seu ex-arqui-rival: sente a câmera, e sem a olhar sabe onde está. Como os grandes actores.

Um Óscar para ele, já !...

Carolina Salgado em poses eróticas

O autor das fotos é Pedro Ferreira que eu muito prezo e admiro. A modelo é uma surpresa. Depois destas fotos palavras para quê ? Carolina corre o risco de se ultrapassar a si própria. Com imagens destas quem vai ter tempo para ler as suas tiradas ? Vejo eu de que...

domingo, fevereiro 25, 2007

UMA FOTO POR DIA


Helmut Newton porque hoje é sábado.

Um poema por dia


Podia disparar ao foco de mar,
apenas porque o frio desenhava o azul.
Voltaria depois da madrugada,
da geada e da canção, com maçãs de amar.
Encartado na doce voz de quem pariu sem prazo
e voltou num som fundo e cavo.
Chorando, chorando, como na canção, na fita curta.
Abandono sórdido e total,
na pérfida cantiga de embalar com cães danados ao acordar.
Havia uma negra de poema aberto,
como tudo o que acaba numa fraga.

Judite Cascais

sábado, fevereiro 24, 2007

À primeira qualquer cai, à segunda cai quem quer


Hoje de manhã fui atacado em pleno Oeiras Shopping por dois vigaristas, à luz do dia com o consentimento do Centro. Um era do Citibank tentando pela enésima vez que eu subscreve-se um desses malfadados cartões de crédito, o outro era uma simpática menina que me pedia dinheiro para uma causa nobre, sabendo nós para onde vão a maioria dessas colectas. Recusei logo as duas abordagens.
Já é mais irritante andar nos centros comerciais do que na Rua Augusta.
Pedintes não faltam.

Por princípio nunca aceito propaganda que me dão quando estou parado nos semáforos, recuso falar ao telefone quando me ligam para casa sem conhecer a pessoa em causa,( ameaço mesmo fazer queixa da TV Cabo, bancos e outros que me ligam usando a minha ficha de cliente), não respondo a inquéritos na rua nem pelo telefone, desconfio dos carros que se colam ao meu na auto-estrada, sobretudo à noite, pois pode ser a bófia ou outra malandragem, qualquer carro parado numa berma pode ser radar da polícia, logo travo, tranco as portas do carro, quando ando de máquina fotográfica na rua tenho o hábito de controlar quem vem atrás de mim, nunca passo um sinal verde sem confirmar que não há um louco a passar com o vermelho ( essa precaução já me evitou dois ou três acidentes de mota) mas... nunca se sabe quando se poderá caír na esparrela de polícias, ladrões ou congéneres. E não sou paranóico !! Verdade.

Hoje em dia somos assaltados pela Tv Cabo, pelo nosso banco ( o BES teve a lata de me debitar 15 euros por mês por um VISA que não lhes pedi nem os autorizei a cobrar),
pela EMEL ( um escândalo este das multas e bloqueadores que ninguém contesta, onde estão os cidadãos deste país?), pela BRISA ( pago tanto para saír no Estoril como em Cascais!), pelo Estado etc, etc, etc...

Não me admira portanto a confissão do meu antigo director, um reincidente em aventuras recambolescas.
É fácil ser-se vitíma.
Há uns 15 anos em Paris caminhava à noite sózinho perto da Ópera. Ia calmamente para o meu hotel. Um taxista pára e pergunta-me para onde vou, digo-lhe que não preciso de táxi, estou a 500 metros do hotel. Ele insiste. Entro e ele convida-me de seguida para beber uma "biére" num bar ali perto que diz ter muito bom ambiente.
Nunca me imaginei a ir beber um copo com um taxista, mas o tipo era simpaítico e tinha um ar civilizado. Porquoi pas ?Açeito por não ter nada que fazer. No fundo andava a pé para me distraír. Entramos num bar com um porteiro que simpáticamente nos recebe e quando acabo de descer a escadaria até à cave percebo que é um bar de alterne. Calmo, reparo logo nas putas ao balcão. O taxista pede duas cervejas, há uma puta que me pede uma bebida enquanto me passa o braço à volta do pescoço.Recuso, digo-lhe que só estou ali para beber e ir embora, ela insiste abraça-me, eu rejeito outra vez pois já estava a ver o filme todo e sabia que isso me iria custar muito caro.
Quando olho em volta o taxista desaparecera. Peço a conta para me pirar. Quando o empregado do balcão vê que não vai conseguir mesmo que eu pague bebidas às putas traz-me uma conta de 15 contos. Era o consumo mínimo da entrada. Reclamo, digo que não pago, mando chamar o gerente e este diz-me com grande cinismo que me pode fazer um desconto de 50 por cento. Para evitar chatíces pago, peço a factura, e saio sem sequer ter acabado a cerveja. Foi a cerveja mais cara da minha vida. Bem feita !
À saída confirmei: havia na verdade uma tabuleta com o consumo mínimo o que blindava a atitude deles e me impedia de participar às autoridades. O esquema montado era simples: o taxista levava para lá otários como eu e receberia depois uma percentagem pelo frete. Perfeito.

Bruna Surfistinha fala a Jô Soares

O conto do vigário a José António Saraiva


Passo a transcrever esta crónica de José António Saraiva, publicada no Sol. E esta hein ?...

CONTEI nesta coluna que no Natal tive um acidente de automóvel que deixou o meu carro muito amolgado. Ao fim da tarde de quinta-feira da semana passada, após várias peripécias relacionadas com o seguro, fui informado de que o carro estava pronto. Estabeleci então o programa para a manhã seguinte: como não iria trabalhar, dado o SOL ter antecipado o dia de saída por causa do referendo do aborto, levaria a minha mulher ao emprego (junto à Avenida da República), passaria depois pela António Augusto de Aguiar para devolver o veículo de aluguer que entretanto tinha usado, meter-me-ia a seguir no Metropolitano na estação do Parque e sairia no Jardim Zoológico – que fica a dois passos da Mercauto, onde o meu carro fora reparado.

CUMPRI o programa à risca, com uma pequena alteração: depois de entregar o carro de aluguer fui comprar o jornal e sentei-me a lê-lo numa pastelaria da António Augusto de Aguiar, enquanto tomava o pequeno--almoço (um chá e uma torrada). O dia estava a correr bem.
Chegado à Mercauto, porém, tive a primeira surpresa: o automóvel não estava lá. Telefonemas para baixo e para cima, contactos pelo intercomunicador, mas nada: o carro tinha saído sem ser, sequer, reparado! A recepcionista, diligente, fazia-me perguntas:
Com quem é que falou? Quem lhe disse que o seu carro estava pronto?

Mas eu não sabia dizer nada: fora a minha secretária quem tratara de tudo. A senhora tirou então a única conclusão lógica (a que eu, aliás, já chegara):
– Então telefone à sua secretária.
Assim fiz. Expliquei-lhe a situação, pedi-lhe para tentar perceber o que acontecera e sentei-me num sofá à espera. Passados longos minutos, lá veio a explicação: o carro fora, de facto, transferido para outra oficina, por opção da seguradora, e tinham-se esquecido de nos avisar. A outra oficina ficava no Prior Velho. Pedi desculpa à recepcionista da Mercauto pela maçada que lhe dera e meti-me num táxi a caminho da nova morada.

A RUA que me indicaram ficava numa daquelas zonas industriais incaracterísticas que existem em todos os subúrbios, onde a fealdade impera e é quase impossível encontrar uma morada, porque os nomes das ruas não são visíveis, e as portas, em regra, não têm números. Vêem-se portões, barracões, rampas, letreiros comerciais – mas como descobrir uma vulgar morada no meio desta floresta? Como o chofer do táxi também não conhecia a zona, andámos às apalpadelas e eu tive de sair do carro para pedir ajuda.

Finalmente lá descobrimos a oficina – e aí, para compensar, as coisas revelaram-se surpreendentemente fáceis: mal entrei, dei de caras com o meu automóvel. Não posso dizer que o reencontro tenha sido comovente (como seria com o Paco, se não o visse há três semanas) mas é consolador uma pessoa voltar a sentar-se ao volante do seu carro após um tempo de separação forçada. É um ‘regresso a casa’ em ponto pequeno.

QUANDO, a caminho do sítio onde moro, passava na 2.ª Circular, verifiquei que tinha pouca gasolina e parei num posto da Repsol para abastecer. Mal tinha saído do carro, pára ao meu lado outro Mercedes e o condutor chama por mim, enquanto abre o vidro. Aproximo-me e ele diz-me de dentro:
– Então, estás mesmo bom? Sabes, eu já não estou na Mercedes... Estou no Corte Inglés. Sou director do Corte Inglés... Então, como se tem portado a máquina? – e apontou para o meu carro.
Eu não me lembrava nada daquela cara. Mas, dada a conversa, admiti que fosse o homem que me tinha vendido o Mercedes. Ainda que estranhasse o tratamento por tu...
O fulano continuou:
– Por que é que não foste ao desfile de moda no Corte Inglés? Mandei-te o convite... Estava lá toda a gente! – Balbuciei uma explicação mas o homem não quis ouvir. Disse-me, em contrapartida, para apontar um número de telefone que me ia dar. Respondi-lhe que não tinha caneta. Ele perguntou-me então, como se tivesse tido uma súbita lembrança: – Qual é a altura da tua mulher? – Disse-lhe que era a normal (o que não era exactamente verdade). Nesse momento ele abriu a porta do carro, saiu, disse para mim «abre a bagageira», foi à bagageira dele, tirou dois sacos de plástico, meteu-os na minha.

Eu assistia a tudo, atónito. Não percebia o que estava a acontecer. Admiti que, sendo director do El Corte Inglés, teria certos artigos de promoção para oferecer a clientes especiais. Mas ele atalhou:
– É um casaco de pele para a tua mulher e outro para ti. Custam 870 euros cada, mas se te perguntarem diz que custaram mil. Não digas menos de mil!
O homem fechou então a porta traseira da minha carrinha e fez menção de se ir embora. Era agora o que eu mais desejava: que se fosse embora. Não sabia o que estava dentro dos sacos nem isso tinha qualquer importância. O importante era acabar com aquela situação insólita.

Ao estender-me a mão para se despedir, o homem acrescentou: – Se fores ao Corte Inglés, não te esqueças de pedir para falar com o Vieira. Eu ajudo-te no que for preciso –. E mesmo a finalizar:
– E dá aí qualquer coisa para o IVA.
Os casacos são oferta minha, mas é preciso pagar o IVA.
Com alguma relutância fui puxando da carteira, enquanto ele debitava: – Algumas pessoas dão mil euros... – Mil euros para o IVA? – estranhei, escandalizado. – Dás o que for possível – tranquilizou-me. Consultei a carteira, tirei quase todo o dinheiro que lá tinha (apenas deixei uma nota de 5 euros) e estendi-lho: –- É o que tenho – rematei, enquanto ele agarrava as cinco notas de 20 euros, antes de se meter no carro e arrancar velozmente.

SÓ AQUI tive a suspeita de que poderia ter caído no conto do vigário.
Se o homem fosse o que me vendera o carro nunca me trataria por tu. Se fosse director do El Corte Inglés e andasse com artigos na bagageira para oferecer a clientes ‘especiais’ nunca lhes pediria depois o dinheiro do IVA (que às tantas já ia em mil euros!). E os próprios modos do homem não eram os de alguém habituado a lidar com pessoas de certo nível mas sim os de um frequentador de bas-fonds e ambientes suspeitos.
Quando cheguei a casa já não tinha dúvidas de que fora enganado. Os casacos não eram obviamente ‘amostras’ do El Corte Inglés mas sim retalhos a fingir de casacos ou, na melhor das hipóteses, roupa dos ciganos. Estava tão irritado que não abri sequer o porta-bagagens para ‘tirar a limpo’ o que se passara.

Apenas o fiz umas horas mais tarde, depois de refeito da irritação. E tive uma surpresa: os casacos eram mesmo casacos! A imitar pele. Ambos castanhos-claros, o de senhora mais amarelado, com o pêlo da parte de dentro, excepto na gola e em baixo, na bainha, a formar um debrum. O meu era um casaco-blusão normalíssimo, de corte razoável, perfeitamente utilizável aos fins-de-semana.
A etiqueta, porém, revelava o ‘pecado original’: a origem chinesa. Por baixo da informação «100 % Polyester», figurava um importador de Madrid com nome chinês. Os casacos estão certamente à venda, portanto, nas lojas chinesas. Por 15 euros cada ou menos – e eu passara voluntariamente 100 euros para as mãos do homem para pagar o IVA!
Embora mantenha grande estima pelo meu automóvel, tenho de reconhecer que anda azarado. No Natal veio para cima de nós um carro com dois ucranianos, que fugiram depois do acidente; no dia em que vou buscá-lo à oficina sou descaradamente vigarizado por um burlão. Qual será a terceira?


sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Porque estão as putas a tornarem-se escritoras ?


Porque será que agora as putas dão em escritoras? Perguntava-me esta semana uma colega jornalista em tom de desabafo, depois de eu lhe ter confessado que Paula Lee era uma mulher inteligente, culta com o seu blogue Amante Profissional.

Depois de umas frustradas quarentonas, intelectuais de noites mal dormidas, terem dado em escritoras "light" com um discurso feminista e uma postura de permanente desdém pelos homens, chegou a vez das profissionais do sexo darem a mão ao manifesto, o coração nessa linha e escreverem sobre as suas experiências avassaladoras. Contam tudo ao pormenor com respeito, carinho e o sigilo profissional que a actividade exige. E não têm Ordem nem Óscar Mascarenhas a controlarem-nas !..

A sociedade esta mais "voyeur" do que os paparazzi, e o assunto tornou- se de fácil leitura, logo rentável e popular.
Antes as confissões de directores de jornais tentaram ter sucesso, foi o fracasso que se viu. As putas ganharam em popularidade e em fino recorte literário o que faltou a candidatos ao Nobel.

Um esclarecimento: nada tenho contra a palavra puta. Para mim não tem significado pejorativo e considero-a palavra de boa sonoridade e de eficácia narrativa perfeita. Uma verdadeira puta nunca se sentirá ofendida com a designação.
Tal como um fotógrafo nunca se sentirá ofendido se o chamarem de fotógrafo. Se a coisa der para o repórter-fotográfico, repórter de imagem, aí a coisa já está a dar para o abjecto.

A vinda a Portugal da Bruna Surfistinha, e a entrevista de uma Andreia de 19 anos, também puta assumida, mais o supersite de Paula Lee, estão a revolucionar mentalidades e a provarem que a prostituição na dura pureza original é tão respeitável como qualquer outra profissão. Ou mais...

Estes romances côr de rosa-choque não são originais. Já a literatura confessional no mundo da putaria tinha dado provas de qualidade. Vejam-se alguns testemunhos de francesas depravadas como Anais Nin, amadora avançada, ou de putas que souberam rimar negócio com amor.

Claro que o encanto de uma actividade lúdica e lúbrica se perde quando começa a saír da clandestinidade e a ser escancarada nas televisões, revistas e jornais. A banalização tira a pica, normaliza, reduz o pecado a coisa adquirida.
Para já uma nova corrente literária nasceu.

Acontece! Já dizia o outro tontasso.

Luiz Carvalho