Bons tempos quando o Costa do Castelo podia levar o carro até à porta de casa.
Sou das poucas pessoas que admite públicamente que detesto aquela treta dos carros fora das cidades. As cidades querem-se cheias de néons, confusão, outdoors, frenesim, carros a buzinarem. Mas também se querem com bons transportes públicos, zonas verdes, esplanadas, segurança.
Nova Yorque consegue este pleno. As crianças brincam em Central Park, o Zoo é em Central Park, os namorados fazem amor em Central Park. A segurança voltou à cidade. Há avenidas cheias de táxis a buzinarem que se cruzam com bicicletas, velhinhos em cadeiras de rodas. Tudo convive e vive bem.
Pode subir-se aos céus, jantar nas nuvens, frequentar livrarias ou restaurantes nauseabundos. É uma cidade universal e diversa no que dá e recebe.
Uma cidade para todos e para todos os gostos. Uma cidade de liberdade.
Lisboa é o contrário disto.
É uma cidade insegura, caótica, cara, com pretensões políticamente correctas.
Hoje voltei a Lisboa. O bairro em volta do castelo foi cortado ao trânsito. Tive de andar por ruas esburacadas com a calçada escalavrada, ruas escuras. Alguém me disse depois:
devias ter escondido a máquina. Há dias esfaquearam um turista para lhe tirarem a câmera.Mas estando a cidade a caír, a câmara não hesitou em cortar ruas, dificultar acessos.
Gostava de saber quem lucra com este esquema, ainda por cima caro. Quem quer ir ao bairro passa a evitar ir, quem tem mesmo de ir é penalisado, quem lá mora pragueja porque nem dois carros pode estacionar.
Uma vergonha mascarada com polítiquice correcta.
A esquerda festiva e ecologistas conseguiram o que andaram anos a apregoar por causa dos carros. A direita viu nesta bandeira um causa boa para apadrinhar: satisfaz a esquerdalhada e como não tem uma ideia adopta esta. Ainda por cima dá dinheiro e mostra serviço, mesmo que as ruas estejam imundas, a calçada parecida com um bombardeamento de Bagdad, os prédios a tombarem para o eixo da rua.
A minha crónica poética de ontem dá hoje lugar a este desabafo. Sei que ninguém me dará razão. Paciência.
Passadas umas horas tive de ir ao novo Prior Velho.
Ali a obra é da câmara de Loures. Construiu a nova zona do Prior Velho como se fosse uma antiga cidade de Leste. Ruas à esquadria, prédios de gavetas em gavetos.
Os nomes das ruas estão escondidos. Aquilo é só para quem sabe.
Descobertos os nomes, parecem uma romagem ao comunismo.
Todas as ruas têm nomes de famosos esquerdalhos, de Severiano Falcão- o tetrassauro comuna- até Salvador Allende. Uma câmara dá-se ao luxo de pôr as toponímias conforme a côr partidária. Uma vergonha.
É este o poder local que temos, que pagamos e que temos de aguentar.