domingo, julho 30, 2006

Bimbo do Rio

Já havia o Bimbo da Costa cliquem aqui e vejam o Bimbo do Rio. Inacreditável !

O monte e o guardador de sonhos


fotos de Luiz Carvalho

Fim de tarde alentejano. Hoje, sábado, às 20,35 horas.

O monte parece uma imagem a côr de Ansel Adams.

Antes duas vacas e o seu dono montado numa Famel periquito caminhavam calmamente na estrada ao meu encontro. Tive ainda tempo para parar, puxar da câmara, disparar e saudar guardador de sonhos e seus animais.

Há momentos que valem eternidades.

sábado, julho 29, 2006

Mónica e o desejo

Ainda o Bilhete de Identidade da Maria Filomena Mónica.
Hoje voltei a ficar muito entusiasmado com duas das suas confissões. A cena na Universidade de Oxford quando vestia o casaco de Leopardo, “quase sem nada ou mesmo nada por baixo” para ir ter com o vizinho de cima é deslumbrante e a compra de um Porsche usado para ir de férias com os filhos para o Algarve, para se encontrar com um grupo de amigos meio hippies, não deixa de ser delicioso.
Se pensarmos que isto é no final dos anos 60, são cenas preto e branco dignas de um Antonioni. Lindo.

A pianista, o comendador e o idiota

A birra de Maria João Pires em abandonar Portugal e ir viver para o Brasil veio revelar uma realidade bem diferente daquela que a artista tinha evocado para se divorciar da pátria. Afinal, segundo o Público de hoje, a artista tinha recebido desde 2000 para a sua obra cultural na Beira Baixa 500 mil contos, em moeda antiga. Sem contabilizar outras doações vindas nomeadamente da PT a título de mecenato.
Ficámos a saber, eu não sabia, que aquela verba era basicamente para subsidiar o trabalho de um grupo de crianças, cerca de 60. Ainda fiquei a saber que a verba dada pelo Estado e autarquia nunca foi justificada nos seus gastos.
É espantoso como a cultura pode absorver verbas deste montante sem controle das entidades que entram com o dinheiro.
Maria João Pires é uma artista acima de qualquer suspeita, mas não pode ter impunidade, nem imunidade, quando estão em causa dinheiros de todos nós.
Se aquelas crianças, adoráveis como todas as crianças do Mundo, recebem verbas de tal forma extraordinárias, porque tenho eu de pagar um balúrdio, mesmo para os meus rendimentos, para que o meu filho possa ter um ensino normal, numa escola normal, mas que tem de ser privada porque não há pública na minha zona, e moro no Estoril ?
Eu também quero um subsídio e o Papião, o colégio do David, também deve ter direito porque não é uma escola pior do que a da pianista Maria João Pires. E tem mais de 60 crianças.
Haja decoro, e já agora que a artista ensaie junto de Lula e do seu ministro ambulante da cultura um subsídiozinho para a sua casa junto ao mar na Bahia.

Outro caso cultural revelado em primeira mão pelo Presidente Cavaco Silva é o do contrato leonino entre o Estado, representado pelo governo de Sócrates e o comendador Joe Berardo. Pela primeira vez estou de alma e coração com o PR. Como é possível aceitar tais condições? Quer dizer: vamos pagar uma barbaridade por uma colecção de arte contemporânea que ainda não está segura no seu valor real de mercado e nem sequer o Estado, nós pagantes, podemos ter possibilidade de gerir os monos?
Berardo sabe-a toda, não fosse madeirense e rico como é. Por mim tiro-lhe o chapéu, mas Sócrates é que fica mal, muito mal no retrato pós-moderno.

Terceiro caso cultural: a venda do Rivoli no Porto. Se Sócrates tem medo da cultura, já Rui Rio adora exorcizar os seus fantasmas de grunho e dispara sobre tudo o que lhe cheira a cultura.
A frase célebre, “ quando me falam de cultura puxo logo da pistola! ”, não pode assentar melhor ao autarca invicto e convicto da sua barbárie. É uma vergonha para o Porto o que está a ser feito à cidade que na última década soube crescer em prestígio cultural.
Rio é o género de pessoas arrogantes que quando não gosta ou não percebe uma coisa, destrói-a.
Para ele cultura é bandas em coretos,
A alarvidade destes autarcas que nos sugam os impostos ( lá vão eles mamar mais 5 por cento do nosso IRS) está bem exemplificada neste cromo da caderneta PSD ( mas podia ser PS ou CDS) que ainda por cima se gaba com aquele riso idiota das suas tropelias de cabouqueiro.

Placa 3G é mentira

Ao contrário do Paulo Querido, que escreve hoje sobre o tema no seu blog, eu não estou nada contente com a placa 3G da Vodafone. Aqui no Alentejo não consigo ligar-me a mais de 57,6 kbps, estou um horror de tempo para actualizar o blog e não consigo meter fotografias dada a lentidão da ligação.
No telemóvel tenho 3G na placa GPRS. Isto começa a ser insuportável. É um serviço que está longe de ser barato e nunca funciona em pleno. Tive problemas de rooming em Espanha, França, Bélgica e na Rússia. E estou a trabalhar com um PC pois para o MAC a vodafone em Portugal ignora pura e simplesmente o sistema.
Este serviço parece ser encarado como um gadjet para quadros superiores que só o têm para armar e não para profissionais. Mesmo na sede do Expresso, em Paço d`Arcos não tenho acesso 3G. Não preciso mas se precisar sou despachado a GPRS.
Vou ter de esclarecer este péssimo serviço com a operadora quando chegar.

sexta-feira, julho 28, 2006

Políticamente Incorrecto

Há uma brisa fina, persistente, no sudoeste alentejano. A recôndita praia do Carvalhal não foge ao vento e a trazer uma certa sensação de desconforto a banhistas friorentos como eu. Abrigo-me junto às rochas e o meu pequeno David brinca com a água que corre por um fio da ribeira que vai desaguar logo ali à frente naquele mar revolto e frio que o meu filho André costuma frequentar nas suas surfadas.

Ainda não acabei o Bilhete de Identidade da Filomena Mónica. Achei ao princípio o livro um pouco maçudo mas ao saltar uns capítulos descobri-lhe interesse, talvez por falar de gente que conheço e de que sou amigo, caso da Sofia. Ri-me a valer com a descrição do António Pedro de Vasconcelos a pedir vinte paus emprestados à Filomena enquanto o táxi que o esperava na rua continuava a contar.
O debate teórico de Vasco Pulido Valente seguido de uma sessão fracassada de sexo, enquadrando intelectualmente o não feito também não deixa de ser divertido. É um livro escrito com rara coragem e com uma sensibilidade de mulher à flor da pele.
Estive só uma vez, em 1985, com a Filomena Mónica a fotografá-la para uma crónica na Grande Reportagem ( 1ª série), que aliás tinha ao lado de Vasco Pulido Valente e António Pedro de Vasconcelos.

Percebi que muitas daquelas histórias se passavam entre a Avenida do Brasil em Alvalade, Lisboa, e o café Vavá na Avenida de Roma, a minha zona de adolescente e que eu frequentava.

O Alentejo está pouco frequentado. Hoje vi o meu amigo Jorge Palma na Zambujeira entre uns caracóis e uns percebes e algumas imperiais para mal do meu colesterol. Amanhã vai ser o último dia, domingo regresso a Lisboa, segunda ao Expresso. São umas férias muito curtas, agora que estava a começar a habituar-me à ideia…

No final do noticiário da RTP (hoje liguei a tv pela primeira vez para ver notícias) fiquei parvo com o comunicado da autoridade para a comunicação social, não fixei o nome exacto. Dizia o comunicado que aquela reportagem que a RTP apresentou há tempos sobre a violência nas escolas não era eticamente aceitável por ter usado câmaras ocultas e que a raça negra era descriminada.

O politicamente correcto tem limites e a estupidez também. Primeiro: os alunos não eram nunca identificáveis, segundo: aquele trabalho mostrou mais sobre a realidade escolar do que não sei quantos relatórios, palestras ou livros brancos ou negros ( para não haver descriminações!), terceiro: se assim é porque não retira o governo as câmaras escondidas nas auto-estradas do país? Não está a violar também a intimidade dos automobilistas? Santa paciência!!!...

quinta-feira, julho 27, 2006

Três notáveis: Miguel Veiga, Eduardo P. Coelho, Ruy Athouguia

Gostei muito da entrevista de vida dada à Visão por Miguel Veiga, com um belo retrato do meu amigo Pedro Letria feito com a sua mágica Hasselblad.
Miguel Veiga é uma personalidade ímpar na forma de estar na vida. Invejo a sua classe, o seu sentido de humor, a capacidade de se rir dele próprio, o amor e devoção às mulheres e até as referências passageiras a carros de sonho. Identifico-me imenso com a sua filosofia de vida mas quem sou eu para me atrever sequer a dizer isto?

Ainda nas minhas deambulações pela imprensa em férias tocou-me muito a crónica de Eduardo Prado Coelho sobre o seu bairro lisboeta do Conde Redondo. Eduardo está com um prazer de escrever exacerbado, passando do humor à mais sensível observação. Oxalá o seu estado de saúde melhore e o possamos continuar a ler por muito tempo.

Soube da morte do arquitecto Ruy Athouguia pelo meu pai há dois dias.
Este arquitecto pouco referido foi dos mais importantes da arquitectura portuguesa moderna. Projectou o Museu da Gulbenkian e o Liceu Padre António Vieira que eu vi nascer e onde fiz todo o meu curso até ao 7º ano, ao lado do António Pedro Ferreira, meu colega no Expresso, do Francisco Louça, do Pedro Santana Lopes e outros.

O arquitecto Ruy Athouguia, que nunca conheci pessoalmente, teve uma influência determinante na minha escolha académica ao ter decidido ser arquitecto. Eu tinha dez anos, o meu pai era o fiscal que controlava a obra de construção do Padre António Vieira, o arquitecto era o autor do projecto que aparecia por lá uma vez por mês num Alfa Romeu Giulieta ( igual ao de Michel Picolli em Les Choses de la Vie, onde fazia também o papel de um arquitecto). Trazia consigo uma loira, muito elegante, magra, que fumava cigarros extra-longos. Eu achava aquilo um charme, um quadro de muito bom gosto, sensual, numa altura em que o Salazarismo só dava a ver monos e tipos de chapéu preto.

O meu pai falava do arquitecto como alguém muito evoluído que estava a introduzir um tipo de arquitectura de rotura: cimento armado à vista, caixilharia de ferro preto, janelas de correr, vidros entalados nas vigas sem remate, rampas em vez de escadas, tectos baixos em que se tocava levantando um braço, superfícies lisas, chão de tábua, telhados sem telha em canaletes escondidos por muretes, um lago ao longo da fachada principal, vidros até ao chão, negação de muro exterior, arvores de modo a não ultrapassarem nunca a altura do corpo mais baixo do edifício, enfim: uma nova arquitectura que eu nos meus inocentes dez anos percebi que era uma nova ideologia, uma forma diferente de encarar a sociedade.

Fiquei sempre com a figura do arquitecto Ruy Athouguia na minha cabeça. Um dia jantei ao seu lado numa tasca do Bairro Alto e há 3 ou 4 anos conheci o seu filho por mero acaso numa festa de uma amiga comum.

Depois de escrever isto quase que me apetece voltar à arquitectura. É na verdade uma disciplina
apaixonante, um grande acto criativo.

Era justo que se fizesse uma história sobre esta figura ímpar da nossa arquitectura.
O nosso Le Corbusier.

quarta-feira, julho 26, 2006

A reforma de Alegre, as pedradas de Herman

Para se estar mesmo de férias não há melhor que desligar o telemóvel, não comprar jornais e não ver televisão. Eu quase consigo este pleno mas acabo por ceder. O telemóvel fica apenas em silêncio, acabo por comprar dois diários, uma revista da treta, e vou até à televisão para ver As Donas de Casa Desesperadas, como ontem.
Claro que acabo por me arrepender. Fico incomodado com mensagens no telefone que preferia não ouvir, e os jornais por muito inócuos que eu ache que são nesta altura do ano acabam por me irritar, ou melhor, indignar com algumas notícias.

O disparate sobre a reforma de Manuel Alegre, noticiada e comentada por políticos e jornalistas, foi um dos casos. Quer dizer: um cidadão aos 70 anos já não pode ter direito a reforma? A uma miserável reforma de 3000 euros, o equivalente a um ordenado de varredor de rua no Luxemburgo? Em que país vivemos ou que país afinal queremos? A demagogia e o populismo já chegaram a este ponto? Lamentável.

Depois onde está a indignação pela lei do governo que prevê que 5 por cento das receitas do IRS vão para as autarquias? Quer dizer, Sócrates cede desta forma aos interesses de caciques encartados como Fernando Ruas? Vamos continuar a pagar dos nossos impostos as vaidades e as obras estúpidas destes autarcas que se entretêm a fazer rotundas, passeios de mármore e mijómetros modernistas?
Vamos pagar ainda mais os assessores do professor Carmona e os disparates de obras abusivas como o condomínio da Infante Santo, em Lisboa?
Não há afinal vergonha, nem rigor, nem bom senso no governo.
Este fim - de -semana lá vai o engenheiro Sócrates a Portalegre inaugurar ao lado de Mata Cáceres mais umas quantas obras que já estão a funcionar há meses. Obras lançadas quando ele era ministro do ambiente. Sócrates faz a festa, deita os foguetes e nós pagamos. Está certo, afinal o povo votou nele !!!...

Portalegre, onde estive há semanas, está cheia de obras camarárias absurdas. Passeios onde os carros batem por serem altos e mal desenhados, ruas sem sinalética, estacionamento nulo. Como cidade é um bidé, mas dinheiro dos contribuintes não falta.

Mesmo a imprensa rosa é deprimente em férias.
Numa revista de televisão as histórias canalhas sobre figuras conhecidas davam para fazer um filme de arrasar corações.
É o futebolista tal que tem de sustentar a ex-mulher que vive em Rio Tinto com a filha de seis anos que não pôde ir ao seu casamento e tem de andar 300 quilómetros todas as semanas para ver a petiz, é a vedeta da novela que tem o pai preso, o marido metido na droga e deu com os pés ao namorado, e que se marimba na filha de dois anos, é o Herman José vestido à Nelo que diz que só sai da SIC à pedrada ( todos nós já tínhamos percebido isso!), enfim: são todos famosos, vivem longe, são dos subúrbios e atrás da fama está uma infelicidade latente.
Para rematar acabei a almoçar num restaurante numa aldeia alentejana de pescadores que tinha música de elevador como ambiente. Moderníces...

terça-feira, julho 25, 2006

Gratuitos e net, o desafio continua

Um artigo de ontem do Público referia que o Le Monde ia entrar num projecto para editar um diário gratuito em França. A iniciativa pretende responder a uma outra do Le Fígaro que vai lançar em breve também um jornal só pago pela publicidade.
O fenómeno dos gratuitos está a mexer com o conceito tradicional de jornalismo. Este dado com a outra realidade que é jornalismo online está a mudar o jogo da imprensa.
É verdade que em Portugal o fenómeno dos gratuitos ainda não está a fazer muita mossa na imprensa tradicional. Por exemplo, o Jornal da Região tem sido um fracasso comercial e os outros gratuitos, apesar de irritarem títulos como o Correio da Manhã, ainda não estão a conseguir tirar publicidade de qualidade aos jornais de referência.
O mesmo se pode aplicar à Internet. As empresas ainda vêem na net não uma alternativa, não uma nova área de negócio, mas sim um engodo em que é preciso ir apostando mas só em função do que for estritamente necessário.
Oxalá não acordemos um destes dias tarde de mais quando estes dois vectores, gratuitos e net, já estiverem com uma embalagem difícil de alcançar.

Claro que são temas pouco adequados para quem está no remanso alentejano a ouvir as cigarras, mas é nestas alturas que me apetece reflectir e pensar no futuro

Alentejo desencantado

Zanbujeira: uma espécie de feira popular à beira-mar

A costa alentejana permanece intacta quando o desenvolvimento não chegou. E aí ela está abandonada, pobre, à espera que a ganância chegue.
Em Vila Nova de Mil Fontes é o que se sabe: um subúrbio estúpido, uma Caparica repetida. Não faz sentido estragar daquela forma a natureza, condenar gerações futuras a um modo de viver aberrante, sem gosto nem qualidade.
O que está em causa é o planeamento, dar um sentido à ocupação, mais do que o bom ou mau gosto, que é no entanto uma consequência disto.
Se estacionamos mal o carro, rebocam-no e somos multados severamente. Se construirmos uma casa clandestina nada acontece. Esta é uma verdade escandalosa num pais onde há um primeiro - ministro que tem a mania de se armar em durão.
Olhar este Alentejo abandonado ou ocupado por talhões de especulação como está a acontecer na Arrifana, ou de construções abarracadas como Monte Clérigo... é triste.
Precisamos de turismo como pão para a boca mas é o modelo da Zambujeira que exibimos: um subúrbio de guardas republicanos a multarem carros parados à beira de uma estrada obsoleta para o trânsito que tem, restaurantes da treta com preços exorbitantes, famílias rurais transformadas em negociantes, uma estrada nacional que vai para o Algarve com um traçado do tempo do Duarte Pacheco.
Para um país que passa a vida a falar em turismo e em preservação do ambiente não está mal, está péssimo.
Resta, ainda restam as praias desertas de sonho.
E o mel de uma senhora de Vale d`Alhos que o vende em dois tamanhos: em boião Nescafé ou em boião Mokambo.
Por aqui fico.

segunda-feira, julho 24, 2006

domingo, julho 23, 2006

Socialite portuguesa no seu melhor

Esta semana o Tal & Qual trazia uma peça sobre os famosos que se fazem pagar a peso de ouro, ou em géneros tipo viagens, para darem uma entrevista mais intima.
O meio da socialite portuguesa é na verdade patético, não fosse mais uma das cenas de Portugal no seu melhor.
Percebemos que quem frequenta as colunas sociais gosta de armar ao finório.

Aparecer numa festarola à borla e posar para os fotógrafos é sempre um alto momento de culto do ego, principalmente em quem vive para tentar demonstrar o que não é mas gostava de ser.

O curioso de tudo isto é que já não são só os cabeleireiros que se querem fazer passar por gente da alta, são os intelectuais que agora querem ser conotados com a gente da baixa.

E não deixou de ser divertido ver na LUX desta semana uma escritora light a armar ao sério falando e mostrando o filho, e uma decoradora qualquer a posar como se fosse uma estrela do firmamento. A minha mulher é que me chamou a atenção: " estas tipas estão todas vestidas com roupa da Zara !". Eheheheh!!!

sábado, julho 22, 2006

30 anos de Profissão Repórter

A reposição de Profissão Repórter de Antonioni em cópia nova passados trinta anos da estreia desta fita das mais emblemáticas do cineasta italiano não pode deixar de me entusiasmar.
É um dos filmes da minha vida, sem esquecer Blow-up, O Eclipse, Deserto Vermelho, O Grito... na verdade não seria o que sou se não tivesse visto estas fitas de Antonioni.
Em Profissão Repórter está muito do que é a minha rotina, a prática da minha profissão. Jack Nicholson faz ali o papel de um repórter perdido no Sara com o seu Land Rover e que chegado a um pequeno hotel decide mudar de identidade quando descobre um homem assassinado e que podia muito bem ser ele.
Muitas vezes apetece mudar de identidade, retomar nova vida, reencontrar paixões, seguir novos rumos. Não que os actuais não sejam bons, mas porque mudar é sempre uma aventura estimulante.
O encontro com a personagem desempenhada por Maria Schneider, um ícone da preversão sexual e da ousadia moral depois do Ultimo Tango - rodado dois anos antes por Bertollucci- de Jack Nicholson numa cidade como Barcelona remete ainda mais este filme para uma atmosfera que cruza o melhor de Godard, Truffaut, se é que Antonioni alguma vez pensou nisso.
Barcelona é filmada por Antonioni de uma forma sublime ( o plano do teleférico é genial), Gaudi aparece em cenário e as sequencias finais rodadas à beira da estrada numa aldeola espanhola são de um experimentalismo notável: o longo plano sequência em que a câmera atravessa a grade de um quarto para o exterior é dos planos mais originais alguma vez rodados em cinema.
Profissão Repórter é um filme de autor de um tempo em que o cinema ainda não era só e apenas uma máquina bem oleada e eficaz de contar histórias.

News na web, histórias no papel

Grande artigo este de Greg Bowers sobre a dicotomia web- edição impressa. Veja aqui
Básicamente o conceito é: dão-se hoje e já as notícias no online, amanhã conta-se a história na edição em papel.
Subscrevo por baixo.

sexta-feira, julho 21, 2006

Férias simples num verão quente


O verão chega hoje para mim. Férias finalmente !...
Lavei o Range Rover, recarreguei o IPOD com algumas músicas que ainda permaneciam no Itunes, enchi dois sacos com revistas em atraso, carreguei a bateria da Ricoh GR, comprei um chapéu de sol de praia e aí vou eu com a minha mulher e o meu pequeno David rumo à costa alentejana.
Para serem umas férias anos 70 só faltava trocar o Range por uma 4L, apesar do meu forte nessa altura ser a Dyane.

Nessa altura os verdadeiros comunas preferiam o austero Renault e os esquerdalhos a Dyane, o descapotável tolerado pelo marxismo-leninismo.

Confesso que cada vez estou mais farto de férias em pacote, com destinos premeditados, turistas a esmo nos aeroportos, preços exorbitantes, novo riquismo.
É verdade que o conforto é fundamental em férias, mas já não se aguenta tanto consumismo de meia tigela.

Poder olhar o mar, cheirar as praias de iodo, encontrar paisagem selvagem, ainda é um previlégio que não vai durar muito mais tempo em Portugal.

Coisas simples como os novos tempos aconselham.

Primeira ousada em The Independent

Grande front page do The Independent sobre os países que estão a favor e contra o cessar-fogo no Médio Oriente. É uma fusão de infografia com design num todo jornalístico muito ousado.

Fatal citado por Paulo Querido

O meu querido amigo e colega Paulo Querido cita-me hoje no seu Mas Certamente Que Sim, a propósito de uma foto minha de 1978 ( salvo erro) feita em Lisboa. É defacto uma foto do meu período mais ortodoxo fotográfico, quando o mestre Henri Cartier- Bresson me guiava espiritualmente.
Confesso que me contínua a guiar. Os meus alunos que o digam com a pergunta inevitável nos exames sobre o instante decisivo.
A fotografia de HCB é o que me acalenta depois de dias e dias a ver cromos.
Abençoado seja na Terra como no Céu.

quinta-feira, julho 20, 2006

Rosa Casaco: o pide que gostava de cultura

Em Fevereiro de 1998 encontrei-me com Rosa Casaco em Zafra, Espanha, juntamente com José Pedro Castanheira, meu colega no Expresso.

O José Pedro tinha conseguido encontrar o ex-agente da polícia política e convenceu-o a deixar-se entrevistar.
A dúvida estava em saber se Casaco se deixaria fotografar.
Acabei por ir ter com eles a Espanha, à Pousada de Zafra onde cheguei noite dentro, depois de ter fechado o Expresso.

De manhã cedo apareço na sala dos pequenos – almoços, onde o encontro entre eles já estava a decorrer.
Sou apresentado a Casaco e disparo:” Muito gosto em conhecê-lo, aprecio muito as suas fotografias do livro Salazar na Intimidade. Você é um grande fotógrafo!”. Rosa Casaco ficou muito sensibilizado com as minhas palavras.
Eu estava ainda sem máquina, para não o assustar, mas no final do pequeno - almoço já tinha aceite ser fotografado durante a entrevista.
Disse-me que não queria que a sua cara fosse muito visível:” fotografe-me com essa luz da janela, tipo Rembrandt”. Depois olhou para a máquina e começou a perguntar coisas técnicas, a objectiva que eu usava, filmes… “Eu agora fotografo em grande formato para poder fazer ampliações grandes!”- confessou-me.

Ele era o fotógrafo oficial de Salazar mas as suas fotografias de paisagens e de gente do povo, num estilo neo-realista de direita, eram premiadas nos salões fotográficos dos anos 40-50. Eram imagens paternalistas de forte inspiração pictórica.

Agora ali em Zafra, findo o salazarismo e o 25 de Abril já a não sentir-se bem, Rosa Casaco parecia o Sherlock Holmes. Vestido à inglesa, boina axadrezada, e cachimbo sempre a fumegar. Era nitidamente um vaidoso, muito educado de gosto refinado. Um charmoso que aprendera nos salões do poder uma postura aristocrática, apesar de só ter comido o primeiro bife aos 19 anos de idade.

Antes do almoço já se deixava fotografar a passear nas estreitas ruas de Zafra. Pediu-me a Leica e começou a fotografar-me e ao José Pedro Castanheira.
Gabou o meu BMW 320i ( “ que bela máquina aqui tem!”). Era um apreciador de carros e tinha fugido do 25 de Abril num Lancia Fluvia GT.

No restaurante falou-me de vinhos, charutos e ao ver-me apagar um Partágas não deixou de me repreender:” amigo, um charuto não se apaga, deixa-se que ele se apague por si”.
No final do almoço, que acabara tarde, disse-lhe:” Rosa Casaco estas fotos são muito bonitas mas fotos boas eram consigo à entrada de Portugal”.
Para surpresa minha ele propôs irmos até à fronteira de Badajoz. O José Pedro castanheira ficou embasbacado. Ao chegarmos à fronteira, com o Sol já a pôr-se, Rosa Casaco saiu do carro do familiar que o transportava, entrou no meu, e propõs um chá na Pousada de Elvas.

Não queria acreditar: ia entrar em Portugal com Rosa Casaco, procurado pela polícia, sentado ao meu lado no meu carro!

“ Colega: sabe quantas nuances há de verde nesta paisagem ? Mais de duzentas ! Nós os fotógrafos sabemos apreciar a natureza, a luz, a cor.”- dizia-me olhando a paisagem alentejana.

Depois confidenciou-me que adorava ampliar fotografias ao som de Mozart e Beethoven. O chá na Pousada de Elvas decorreu em ambiente de grande conversa e no final diz-me: “ Luis: estas fotos aqui não dão nada, está de noite. Que tal amanhã frente à Torre de Belém ? Vai sozinho, só nós dois saberemos”.

No dia seguinte, de manhã, sábado, lá chegou. Deixou-se fotografar a comprar castanhas, a fumar cachimbo, a andar para lá e para cá. Recusou irmos à António Maria Cardoso, frente à ex-sede da PIDE. “ Isso não. Parece provocação”- justificou.

Na despedida estendeu-me a mão :” cumprimente-me à vontade pois pode ter a certeza que está a apertar a mão a um homem honrado!”.


Depois da entrevista sair, Rosa Casaco escreveu que tinha caído numa cilada e que eu o tinha enganado com falinhas mansas. Ficou-me a detestar.

Pela minha parte sempre achei a sua reacção injusta.
Nunca escondi que aquela figura me tinha fascinado.
Um pide que chefiou uma operação secreta para matar Delgado, contrariado, que achava uma estupidez o regime fazer um mártir de um oposicionista descredibilizado, para satisfazer as ideias vingativas de Silva Pais contra Salazar, e que gostava de música, charutos, carros desportivos e fotografia, era um personagem de filme.
Nesse sentido, Casaco era a personagem fascinante de um filme que falta fazer.

Abrupto atacado com Viagra

Abruptamente neste verão não passado o blog de Pacheco Pereira, Abrupto, acaba de ser clonado e atacado com propaganda ao Viagra. Só acontece aos famosos. Por exemplo, o Fatal ser atacado por tal substância quimíca tolerada seria irrelevante, apesar da fase do autor desta crónica multi começar a estar com quilometragem suficiente para um pouco de aditivo não ser mal vindo.
Enfim: um engraçado decidiu desviar tráfego intelectual para serviço sexual o que no verão, diga-se em abono da verdade, só pode saber bem.

quarta-feira, julho 19, 2006