O que leva empresas de informação como o Paris-Match, Time, Elle, ou marcas como Apple, Canon ou Citroen a apoiarem um festival de fotojornalismo como o Visa Pour L`Image ? Estarão fora de moda, deram em perdulários ou têm administrações que gostam de fotografia nas horas vagas ?
E aqueles 4 mil espectadores de todas as idades, muitos jovens, vão todas as noites para um anfiteatro ao ar livre para verem apresentações multimédia de fotoreportagens porquê? Não têm mais nada que fazer, não há telenovelas em França, ou descobriram que ver fotografias num écran gigante é melhor do que ir ao cinema?
A verdade é que enquanto em Portugal parece estar a pegar uma estranha moda na imprensa de que a fotografia de reportagem já não interessa e que a infografia vai salvar a imprensa escrita ou de que a bonecada vende mais, por aqui os grandes jornais (como o Le Monde!) apostam muito na fotografia para contarem histórias de vida, testemunhos de uma época, olhares indiscretos e outros discretos, sobre uma sociedade em ebulição. Nós no nosso cantinho sem rasgo nem ambição preferimos o modismo em tudo. Estamos sempre à frente mas com uma retaguarda desguarnecida, escancarada aos ventos do oportunismo e da incompetência.
O volume de negócios feitos aqui neste festival de fotojornalismo, onde há uma espécie de FIL para a representação de agências grandes e pequenas, fazem-se contratos e vendem-se fotografias, reportagens e histórias.
O jornalismo é um negócio e o fotojornalismo tem um valor acrescentado enorme: qualquer director de jornal ou revista sabe que só chegará ao público se puder apresentar fotografias que possam contaminar com curiosidade e surpresa gráfica os leitores.
Mas se o fotojornalismo é um negócio também é cultura. E antes de ser negócio é na verdade uma cultura com História,mestres, escolas e referências. O património da Humanidade seria bem mais pobre sem esses testemunhos feitos ao longo dos últimos 150 anos.
Hoje ao cumprimentar Sipagliou o meu antigo "patrão" que fez SIPA e que hoje aos 83 anos entrou numa merecida reforma não pude deixar de me emocionar. Este homem chegou a Paris nos anos sessenta, fotografou o Maio de 68 (tem aqui uma excelente exposição sobre o tema), fez uma agência de renome, promoveu fotógrafos e manteve sempre uma humildade exemplar. Aos 25 anos telefonei para a SIPA e ele passadas horas recebeu-me e quando viu o meu portfolio sobre uma reunião da Internacional Socialista em Lisboa onde estavam o Comandante Zero, o Willy Brandt, o Gonzalez e muitos outros, decidiu convidar-me para ser correspondente da sua SIPA em Lisboa, onde o fui durante os anos de brasa da revolução. Tinha-lhe de lhe falar hoje. Tenho por ele uma eterna gratidão.
